Ronaldo Cagiano

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Ronaldo Cagiano comparece com o verbo contundente, a mensagem politicamente engajada, que não tergiversa. Embora sem parentesco visível de natureza estética com Bertolt Brecht ou Ernesto Gardenal, são essas figuras exponenciais da poesia participante que ele nos faz lembrar. É verdade que se trata de composições de uma fase francamente panfletária de sua obra, quando, não por coincidência, como articulista Cagiano fustigava e enfurecia políticos da Província, ao execrá-los, merecidamente. Conquanto o tom de agora seja outro, o poeta optou por marcar aquele período de sua vida com os poemas denunciadores do “…cinismo caviloso das elites/, a ignomínia persistente dos canalhas”. Em “Prosoema”, ele é ainda explicito e prosaico, antes de seus versos mais depurados, mas metafóricos e menos circunstanciais, o que explica os seus vários destaques em certames literários, nos últimos anos. Sensível, solidário, político, irreconciliável com o oposto da ética ele também o é na “Crônica (da) cidade”: “do derradeiro pântano/emerge a cidade”. R.C. aponta para “(…) a cidade com suas veias abertas”: o seu sangrar é a dramática presença de homens e crianças na mendicância, condição que os ultraja pelas vias públicas da metrópole.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Octavio Mora

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Octavio Mora situa-se entre os aqui já referidos que pensam na cidade “Antes do tempo”, em sua pré-história, em priscas eras. Os peixes antediluvianos, as águas das chuvas, os rios que haveriam de surgir. O protótipo da cidade “feita/de nuvens, como as nuvens, no ar”. As imagens que o poeta constrói, sutis, levíssimas, quase diáfanas, escapam ao nosso domínio, e se vão somando, para dar corpo ao poema. E, ao final, a revelação clara, categórica: “Surge a cidade, feita/de luz, onde se escondia./E antes de ser, já é: perfeita” (“A cidade”). O segundo poema de Octavio Mora, “Paisagem”, desenvolve-se no mesmo tempo. A terra, as águas, a luz, o mar extinto anunciam a cidade que “aos poucos surge”.

Texto transcrito da antologia poética, “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Moacyr Félix

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Moacyr Félix vê a Taguatinga do tempo dos pioneiros, quando tudo era improviso e desconforto. O Lago Paranoá, projeto ainda, iria ao paulatino represamento, submergia vilas, i. e., as chamadas “invasões” (favelas) que hoje dormem no fundo de suas águas. Banhava o altiplano apenas a lua, que “era um lago podre”. Mesas de madeira, chão batido, moscas, salaminho, cachaça, constituíam o mundo do poeta. Então, em cenário mais ou menos de far-west, enquanto a noite caia “entre as garrafas”, os companheiros se transportavam para os “louros tempos”, a estabelecer os mais agudos contrastes entre uma civilização consolidada e antiquíssima e o mundo bruto a que vieram ter quando ainda terminava a década de 50.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Maria da Glória Lima Barbosa

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Maria da Glória Lima Barbosa identifica o Criador, que faz e amolda o homem – e a geometria, para as mãos do próprio homem. As figuras geométricas – a sensibilidade para dispô-las com simetria, equilíbrio, beleza enfim – são o prenúncio e antecedente de tudo. Depois, vem o consequente: a cidade com sua própria arquitetura, com a engenharia que a fez única e singular. Parodiando o livro (Gênesis), há a fase da construção, com a luz, os arcos, os portais, o “giro dos planetas”, e tudo é harmonia e perfeição, porque fruto de mãos sábias, modelares. É apenas o fenômeno da hereditariedade. Ares que respirou durante anos – na condição de aluna do curso de Letras, em seguida na elaboração de sua dissertação de mestrado sobre a poesia “brasiliense” – inspiraram Maria da Glória no poema “Universidade de Brasília”. Sua sensibilidade vai além das “(…) aulas de cálculo,/das análises sintáticas”,//”(…) das salas de aulas, dos horários e das teorias”,//”das teses e antíteses”. As antenas de poeta alcançam a singeleza da mulher que, no campus, “(…) rega as plantas no jardim”, na sua “ligação misteriosa” (…) “com a vida” (…). “Os bebês crescem nas barrigas” e “as buganvílias insistem em florescer/doidas de vermelho,/bem na porta da biblioteca”.
Grande amor é o da poetisa, que ela mal sufoca, mesclando-o aos elementos materiais, ao “painel de anúncios” (…)”, aos semáforos e asfaltos, à moldura da sala. Amor, que é sobretudo memórias e impregnou todas as coisas, as que o materializavam ontem (nos prédios e nas chuvas) e reflete-se hoje no que ficou como referencial. É uma lamúria sutil, delicada como o espírito da autora, que nos convida à solidariedade a quem era (e é) “(…) toda fé e solidão”. “No elevador”, a mulher é romântica, sonhadora, tem “fome e sede” ante o desconhecido, tentador, quase inteiramente alheio ao fascínio que exerce, logo no primeiro andar. No segundo andar, o jogo amoroso – tão próprio do espírito feminino – nega, orgulhoso, “a senha”. E sem que nada ocorresse, camuflada a senha, no oitavo andar, “o homem partiu para sempre”. “Praça de muitos poderes” é atualíssimo. Retrata “A chegança de Lula ao Planalto Central”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

Márcio Catunda

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Márcio Catunda, diplomata, por onde vai conduz Brasília, sempre, em seu interior. São vários os seus poemas que, atentos, ternos e minuciosos, ocupam-se de sua paisagem física e humana. “Instante em Brasília” faz apologia de “…frondosas árvores”, “sombra fraterna”, “aconchego dos mangueirais”, “(…) pássaros que se embriagam de vento”. No “Entre o Conjunto Nacional e o Conic”, o poeta acompanha o “gado humano” que “pasce” entre os dois pontos tradicionais da Capital. “Passa gente de todo espectro”. De aspecto viário: “mendigos, operários, burocratas”.

Transitam também os “que vão sobre a redoma celeste”, sedentos de Deus não raro tangidos e sugados pelos abomináveis profissionais da fé. Os vendedores ambulantes, o “sanfoneiro cego”, o “aleijadinho”, o “policial esgalgo”, o “Brasil de passo inconsciente” que se insere nas noites “da Ceilândia, de Taguatinga, de Samambaia”, um mundo imenso…O poeta comenta, em “Fuga sentimental”: “O sol inventa flores na festa do dia”, “o sol realiza o colorido das nuvens”, “os lírios reverenciam a luz de Deus”, “Azul é o corpo de Deus”. Tudo isso enquanto respira “na companhia de eucaliptos” e “nas vastidões altiplanas, e o circulo expansivo invade os horizontes”. O Lago Paranoá tem feito jus a muitos cantares. Márcio Catunda não o deixa à margem de seus encômios. “Repousa o lago – manso fluir de dorso espiritual,//leito azul-esverdeado na tarde…”//”Repousa o lago entre fulgores”, “Densidade obscura e translúcida…”. E encerra (poema “Crepúsculo sobre o Lago Paranoá”): “Perplexidade, quietude, harmonia,/suave claridade”. Em flash, os edifícios são contemplados: “(…) desenham uma muralha…” e também “árvores (…) de um verde vertiginoso”. “Manhã de vapor liquido pelos arredores de Brasília” é mais um cenário destacado. Nele, o “Horizonte além dos blocos e do cerrado”.

Transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

Luiz Paiva de Castro

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Luiz Paiva de Castro situa-se entre os autores que mais lograram captar a alma da cidade. Em vários (e longos) poemas soube, como poucos, retratá-la, e pouquíssimos a viram tão amplamente, no bojo da história, anunciada, prenunciada, prometida na fluência dos fatos, dos acontecimentos de que ela acabou por emergir. Em “Fundação de Brasília”, temos o navegador, o símbolo da fé plantado na terra, o que do solo começou a nascer (as coisas e pessoas), depois o sonho do alferes de Minas e, bem mais tarde, “além das Tordesilhas”, a cidade. Assim, se encerra a “Anunciação cabralina”. A segunda parte do poema tem como epígrafe texto sobre a “profecia” de Dom Bosco. Mas se detém mesmo é na aventura do “pau-de-arara”, nos edifícios nascentes, no inexistente mel; e o leite paradisíaco vaticinado é apenas funda interrogação. A seção número três do poema é uma toada onde se reúnem águas, palácio, um candango vitorioso, amante, navegador. Palavras de Oscar Niemeyer, em tom de queixume, denunciam o destino dos “bons e dignos companheiros”, os operários que sustentaram nos ombros a metrópole embrionária – e elas são tomadas como ponto de partida para mais uma seção do extremo poema. O autor rememora aquele que “comeu farinha, carne-de-sol, colheu raízes/na cicatriz do solo adormecido” e findou por deitar-se “para ser mais longo nos rios que cortam a paisagem”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Luís Martins da Silva 

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Luís Martins da Silva vê Décio Pignatari na “Plataforma superior da Estação Rodoviária”, a contemplar pela primeira vez a praça dos Três Poderes, em 1965, quando teria exclamado: “Mas é Atenas! Uma Atenas marciana…”. Só a ausência dos deuses causaria estranheza! O poeta (em “Pulsações de um planalto central”) refere a ausência: “Nem acrópoles/Nem Pirâmides//Nem eram Atenas/Nem era cidade”. A Brasília em construção (ainda) oferecia alguma compensação: “Eram apelos cifrados/Aos astronautas de Nazca” (ou Nasca: cidade do Peru, centro comercial e turístico, situado no local de um centro de civilização pré-colombiana). Os “apelos cifrados são as siglas e abreviações características da Capital Federal: SQN (Salvem Quem Necessita)//SQS (Socorro Queremos Socorro)//SOS (Save Our Souls)”, etc. O poeta fala dos “Navegadores noturnos”, os boêmios e os vagalumes [(“Pirilampos (De Beirute)”]. Não se trata da cidade, mas do bar, local tradicional de encontro de escritores. É onde “os sonâmbulos da cidade”/ “(…) sobrevivem aos naufrágios. Luís Martins revela a existência de “Árvores-relógios”: “Cá existem espécies que são relógios, não árvores”. “Flores são cronômetros, copos, mostruários.”// “Se é outono, são bromélias, camélias, azaleias, dálias”// “Se é verão, fogo ardente, flamboyants, radiantes, carmins”. “Estranhas  florações” retornam de certo modo a ideia, e revelam: “Não parecem flores, não parecem frutos,//Estranhas formas, cada estranha criatura!//Exóticas floras, estranhas formosuras”. O fogo é fogo (principalmente no cerrado), apresenta-nos o “Bruxo bruxuleante”// “Bicho fúlgido e fugidio,”//famélico/carburante”. Brasília é “Patrimônio (cultural) da humanidade”, desde o governo José Aparecido de Oliveira. O poeta recomenda: “Não joguem pontas de cigarro no gramado!”. E revela: “Mas, agora, deve-se fazer o registro:/As maiores riquezas naturais dos Cerrados são: céu (…), O céu a doer nos olhos,//Em todos os lados do olhar” vem “(…) de cima da Torre” (que) “mais parece cabine”, conforme observa o poema “Primeiro passeio turístico”. “3×4” nos faz volver ao tempo dos tranquilos “lambe-lambes”. “Passagem de pedestres” leva o leitor pelas “Tardes fugidias” na “Água mineral”, parque por muitos  eleito como ponto de lazer e turismo.
 
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.
 
 


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