Ronaldo Cagiano

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Ronaldo Cagiano comparece com o verbo contundente, a mensagem politicamente engajada, que não tergiversa. Embora sem parentesco visível de natureza estética com Bertolt Brecht ou Ernesto Gardenal, são essas figuras exponenciais da poesia participante que ele nos faz lembrar. É verdade que se trata de composições de uma fase francamente panfletária de sua obra, quando, não por coincidência, como articulista Cagiano fustigava e enfurecia políticos da Província, ao execrá-los, merecidamente. Conquanto o tom de agora seja outro, o poeta optou por marcar aquele período de sua vida com os poemas denunciadores do “…cinismo caviloso das elites/, a ignomínia persistente dos canalhas”. Em “Prosoema”, ele é ainda explicito e prosaico, antes de seus versos mais depurados, mas metafóricos e menos circunstanciais, o que explica os seus vários destaques em certames literários, nos últimos anos. Sensível, solidário, político, irreconciliável com o oposto da ética ele também o é na “Crônica (da) cidade”: “do derradeiro pântano/emerge a cidade”. R.C. aponta para “(…) a cidade com suas veias abertas”: o seu sangrar é a dramática presença de homens e crianças na mendicância, condição que os ultraja pelas vias públicas da metrópole.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Reynaldo Jardim

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Reynaldo Jardim, em “Planaltiana”, exalta sua musa, que “se dança molhada” e “me agasalha em Planaltina”. O poeta não diz, nem está no seu dever dizê-lo, o porque de associar “essa menina de mim” a vegetais aromáticos como alecrim, hortelã, coentro. Ficam no ar o bom aroma e as razões do poeta… Em “Anjo” os versos giram em torno da que é “ainda casta corrompida amante”, sempre esperada como se apresenta no primeiro terceto do soneto: “Do Lago Sul, à beira da piscina,/ou de um quarto alugado em Taguatinga,/ela virá em sonho ou de verdade”. O seu “Hino ao Brasil” foi o texto vitorioso em concurso promovido, no final de 1987, pelo maestro Jorge Antunes, da UnB, para “escolher novo hino nacional” (428 votos contra 90, dados ao segundo colocado). A linguagem (o vocabulário) é simples, despida de metáforas; os versos (hexassílabos) e o texto curtos; em ordem direta a construção das orações. Os primeiros versos: “Da paisagem ferida/da criança lesada/Da mulher soluçando/homem triste na estrada/Desta terra traída/pobre gente humilhada/Há de bela explodir/a nação libertada (…)”.

Texto extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

Paulo Porto

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Paulo Porto, como informa sob o título de “O sonho de D. Bosco (I)”, inspira-se em “uma mensagem de Pessoa”. Trata-se evidentemente de “Ulisses”, que assim se inicia: “O mito é o nada que é tudo”. Daí sua conclusão, segundo a qual “O mito é a palavra dada/que se fez mundo”. “O corpo morto de Deus” (4º verso da mesma estrofe 1ª), do lusitano, recria-o Paulo Porto e temos, então: “O horto mudo de Deus”. “Sem existir nos bastou/Por não ter vindo/E nos criou.” (4º e 5º versos da estrofe 2ª) transmuda-se e torna-se “Este mito que aqui germinou (…)//Por não ter vivido/Foi ouvido e nos ergueu”. Com habilidade, o jovem poeta, o único autenticamente brasiliense desta coletânea, apossa-se da voz de Fernando Pessoa, e a funde à expressão profética ou lendária (“Ele é lenda que se fez palavra” – 3º verso do 3º quarteto) do sacerdote salesiano. Na exegese que faz de “O sonho de D. Bosco (II)”, diz Paulo Porto que “o poema aborda, de maneira ficcional, o que teria sido a visão do Novo Milênio. Minha narrativa acrescenta à tal visão outras, como o envilecimento do sonho de JK pelos militares, durante os anos da ditadura”. O ‘rio humano’ do poema seriam os pioneiros que foram sinalizados (no sentido camoniano”: ‘as armas e os barões assinalados) pelo sonho de uma cidade até então mítica, profética; porém não vieram para a construção. Deste rio humano escolhido mas que não vingou, vieram afluentes, outras pessoas (estes, sim, pioneiros) que acreditaram no sonho de JK. Estes ‘toscos eleitos’ (pois eram rudes em sua maioria) se tornaram os ‘construtores do amanhã’, os candangos”. O poeta faz analogia entre a civilização egípcia e a nossa, daí a referência ao Templo e ao edifício do Congresso Nacional.
Texto transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Octavio Mora

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Octavio Mora situa-se entre os aqui já referidos que pensam na cidade “Antes do tempo”, em sua pré-história, em priscas eras. Os peixes antediluvianos, as águas das chuvas, os rios que haveriam de surgir. O protótipo da cidade “feita/de nuvens, como as nuvens, no ar”. As imagens que o poeta constrói, sutis, levíssimas, quase diáfanas, escapam ao nosso domínio, e se vão somando, para dar corpo ao poema. E, ao final, a revelação clara, categórica: “Surge a cidade, feita/de luz, onde se escondia./E antes de ser, já é: perfeita” (“A cidade”). O segundo poema de Octavio Mora, “Paisagem”, desenvolve-se no mesmo tempo. A terra, as águas, a luz, o mar extinto anunciam a cidade que “aos poucos surge”.

Texto transcrito da antologia poética, “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Moacyr Félix

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Moacyr Félix vê a Taguatinga do tempo dos pioneiros, quando tudo era improviso e desconforto. O Lago Paranoá, projeto ainda, iria ao paulatino represamento, submergia vilas, i. e., as chamadas “invasões” (favelas) que hoje dormem no fundo de suas águas. Banhava o altiplano apenas a lua, que “era um lago podre”. Mesas de madeira, chão batido, moscas, salaminho, cachaça, constituíam o mundo do poeta. Então, em cenário mais ou menos de far-west, enquanto a noite caia “entre as garrafas”, os companheiros se transportavam para os “louros tempos”, a estabelecer os mais agudos contrastes entre uma civilização consolidada e antiquíssima e o mundo bruto a que vieram ter quando ainda terminava a década de 50.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Maria da Glória Lima Barbosa

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Maria da Glória Lima Barbosa identifica o Criador, que faz e amolda o homem – e a geometria, para as mãos do próprio homem. As figuras geométricas – a sensibilidade para dispô-las com simetria, equilíbrio, beleza enfim – são o prenúncio e antecedente de tudo. Depois, vem o consequente: a cidade com sua própria arquitetura, com a engenharia que a fez única e singular. Parodiando o livro (Gênesis), há a fase da construção, com a luz, os arcos, os portais, o “giro dos planetas”, e tudo é harmonia e perfeição, porque fruto de mãos sábias, modelares. É apenas o fenômeno da hereditariedade. Ares que respirou durante anos – na condição de aluna do curso de Letras, em seguida na elaboração de sua dissertação de mestrado sobre a poesia “brasiliense” – inspiraram Maria da Glória no poema “Universidade de Brasília”. Sua sensibilidade vai além das “(…) aulas de cálculo,/das análises sintáticas”,//”(…) das salas de aulas, dos horários e das teorias”,//”das teses e antíteses”. As antenas de poeta alcançam a singeleza da mulher que, no campus, “(…) rega as plantas no jardim”, na sua “ligação misteriosa” (…) “com a vida” (…). “Os bebês crescem nas barrigas” e “as buganvílias insistem em florescer/doidas de vermelho,/bem na porta da biblioteca”.
Grande amor é o da poetisa, que ela mal sufoca, mesclando-o aos elementos materiais, ao “painel de anúncios” (…)”, aos semáforos e asfaltos, à moldura da sala. Amor, que é sobretudo memórias e impregnou todas as coisas, as que o materializavam ontem (nos prédios e nas chuvas) e reflete-se hoje no que ficou como referencial. É uma lamúria sutil, delicada como o espírito da autora, que nos convida à solidariedade a quem era (e é) “(…) toda fé e solidão”. “No elevador”, a mulher é romântica, sonhadora, tem “fome e sede” ante o desconhecido, tentador, quase inteiramente alheio ao fascínio que exerce, logo no primeiro andar. No segundo andar, o jogo amoroso – tão próprio do espírito feminino – nega, orgulhoso, “a senha”. E sem que nada ocorresse, camuflada a senha, no oitavo andar, “o homem partiu para sempre”. “Praça de muitos poderes” é atualíssimo. Retrata “A chegança de Lula ao Planalto Central”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

Márcio Catunda

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Márcio Catunda, diplomata, por onde vai conduz Brasília, sempre, em seu interior. São vários os seus poemas que, atentos, ternos e minuciosos, ocupam-se de sua paisagem física e humana. “Instante em Brasília” faz apologia de “…frondosas árvores”, “sombra fraterna”, “aconchego dos mangueirais”, “(…) pássaros que se embriagam de vento”. No “Entre o Conjunto Nacional e o Conic”, o poeta acompanha o “gado humano” que “pasce” entre os dois pontos tradicionais da Capital. “Passa gente de todo espectro”. De aspecto viário: “mendigos, operários, burocratas”.

Transitam também os “que vão sobre a redoma celeste”, sedentos de Deus não raro tangidos e sugados pelos abomináveis profissionais da fé. Os vendedores ambulantes, o “sanfoneiro cego”, o “aleijadinho”, o “policial esgalgo”, o “Brasil de passo inconsciente” que se insere nas noites “da Ceilândia, de Taguatinga, de Samambaia”, um mundo imenso…O poeta comenta, em “Fuga sentimental”: “O sol inventa flores na festa do dia”, “o sol realiza o colorido das nuvens”, “os lírios reverenciam a luz de Deus”, “Azul é o corpo de Deus”. Tudo isso enquanto respira “na companhia de eucaliptos” e “nas vastidões altiplanas, e o circulo expansivo invade os horizontes”. O Lago Paranoá tem feito jus a muitos cantares. Márcio Catunda não o deixa à margem de seus encômios. “Repousa o lago – manso fluir de dorso espiritual,//leito azul-esverdeado na tarde…”//”Repousa o lago entre fulgores”, “Densidade obscura e translúcida…”. E encerra (poema “Crepúsculo sobre o Lago Paranoá”): “Perplexidade, quietude, harmonia,/suave claridade”. Em flash, os edifícios são contemplados: “(…) desenham uma muralha…” e também “árvores (…) de um verde vertiginoso”. “Manhã de vapor liquido pelos arredores de Brasília” é mais um cenário destacado. Nele, o “Horizonte além dos blocos e do cerrado”.

Transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

Luiz Paiva de Castro

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Luiz Paiva de Castro situa-se entre os autores que mais lograram captar a alma da cidade. Em vários (e longos) poemas soube, como poucos, retratá-la, e pouquíssimos a viram tão amplamente, no bojo da história, anunciada, prenunciada, prometida na fluência dos fatos, dos acontecimentos de que ela acabou por emergir. Em “Fundação de Brasília”, temos o navegador, o símbolo da fé plantado na terra, o que do solo começou a nascer (as coisas e pessoas), depois o sonho do alferes de Minas e, bem mais tarde, “além das Tordesilhas”, a cidade. Assim, se encerra a “Anunciação cabralina”. A segunda parte do poema tem como epígrafe texto sobre a “profecia” de Dom Bosco. Mas se detém mesmo é na aventura do “pau-de-arara”, nos edifícios nascentes, no inexistente mel; e o leite paradisíaco vaticinado é apenas funda interrogação. A seção número três do poema é uma toada onde se reúnem águas, palácio, um candango vitorioso, amante, navegador. Palavras de Oscar Niemeyer, em tom de queixume, denunciam o destino dos “bons e dignos companheiros”, os operários que sustentaram nos ombros a metrópole embrionária – e elas são tomadas como ponto de partida para mais uma seção do extremo poema. O autor rememora aquele que “comeu farinha, carne-de-sol, colheu raízes/na cicatriz do solo adormecido” e findou por deitar-se “para ser mais longo nos rios que cortam a paisagem”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Luís Martins da Silva 

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Luís Martins da Silva vê Décio Pignatari na “Plataforma superior da Estação Rodoviária”, a contemplar pela primeira vez a praça dos Três Poderes, em 1965, quando teria exclamado: “Mas é Atenas! Uma Atenas marciana…”. Só a ausência dos deuses causaria estranheza! O poeta (em “Pulsações de um planalto central”) refere a ausência: “Nem acrópoles/Nem Pirâmides//Nem eram Atenas/Nem era cidade”. A Brasília em construção (ainda) oferecia alguma compensação: “Eram apelos cifrados/Aos astronautas de Nazca” (ou Nasca: cidade do Peru, centro comercial e turístico, situado no local de um centro de civilização pré-colombiana). Os “apelos cifrados são as siglas e abreviações características da Capital Federal: SQN (Salvem Quem Necessita)//SQS (Socorro Queremos Socorro)//SOS (Save Our Souls)”, etc. O poeta fala dos “Navegadores noturnos”, os boêmios e os vagalumes [(“Pirilampos (De Beirute)”]. Não se trata da cidade, mas do bar, local tradicional de encontro de escritores. É onde “os sonâmbulos da cidade”/ “(…) sobrevivem aos naufrágios. Luís Martins revela a existência de “Árvores-relógios”: “Cá existem espécies que são relógios, não árvores”. “Flores são cronômetros, copos, mostruários.”// “Se é outono, são bromélias, camélias, azaleias, dálias”// “Se é verão, fogo ardente, flamboyants, radiantes, carmins”. “Estranhas  florações” retornam de certo modo a ideia, e revelam: “Não parecem flores, não parecem frutos,//Estranhas formas, cada estranha criatura!//Exóticas floras, estranhas formosuras”. O fogo é fogo (principalmente no cerrado), apresenta-nos o “Bruxo bruxuleante”// “Bicho fúlgido e fugidio,”//famélico/carburante”. Brasília é “Patrimônio (cultural) da humanidade”, desde o governo José Aparecido de Oliveira. O poeta recomenda: “Não joguem pontas de cigarro no gramado!”. E revela: “Mas, agora, deve-se fazer o registro:/As maiores riquezas naturais dos Cerrados são: céu (…), O céu a doer nos olhos,//Em todos os lados do olhar” vem “(…) de cima da Torre” (que) “mais parece cabine”, conforme observa o poema “Primeiro passeio turístico”. “3×4” nos faz volver ao tempo dos tranquilos “lambe-lambes”. “Passagem de pedestres” leva o leitor pelas “Tardes fugidias” na “Água mineral”, parque por muitos  eleito como ponto de lazer e turismo.
 
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.
 
 

Lina Tâmega del Peloso

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Lina Tâmega del Peloso enlaça ao seu perfil a cidade que aprendeu a
amar, como autêntica pioneira. (Com o marido, engenheiro, aqui chegava
em meados de 1958, na condição de professora de ensino médio.) As
criaturas às janelas se entregam ao sortilégio que se vai impondo,
imperativo, sobre os que vieram apenas para a aventura, mas foram
ficando, enraizando-se na terra através dos filhos, dos netos, pelo
aprendizado desse novo viver. É o que sugere (se o não diz) o poema de
Lina, o primeiro por ela composto para cantar a cidade, depois de
vinte e dois anos! Perdura a palavra que se debruça nos soturnos
caminhos das Minas Gerais, mas brota a nova expressão, o novo cântico,
como flor madura e inconfundível do território do Oeste.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas
para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

Leonardo Almeida Filho

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Leonardo Almeida Filho imagina “O rio fantasma”, a que oferece o poema. Um rio, a um só tempo, a correr no Planalto, eliminando a “a tua saudade de mar” e a “(…) transportar, para outras terras, teu soluço”. O fácil trocadilho presente no título de “O lago paira no ar” ameaça mas não chega a comprometer o poema, que declara: “o mar aqui não é mar/o mar são as pessoas”. Traz à lembrança – não intencionalmente, admita-se – os versos contundentes de Castro Alves sobre as águas que em multidão se personificam: [“que este mar de almas e peitos/com as vagas de seus direitos/virá partir-vos a lei.”] Mas, declara Leonardo Almeida: “(…) minha mensagem não tem destino CLARO”. O que o envolve são “As solidões, fiéis companheiras:/(…), a (…) carta (…) de Van Gogh/para Théo e para Deus”. A conclusão é: “Estou perdido/e o mar de gente ameaça a plantação/tão duramente cultivada/nessa fértil ilha-eu”. A pátria do poeta (em “Cidade Satélite”), “pátria/sem porta”, “nossa casa”, “pátria e casa” é “fútil e fértil cilada”. É sempre sombria e desconfortável, conquanto objeto do amor do homem do povo que o poeta veio interpretar: cova rasa, vala sem parede, sem bandeira…Em “Cosmogonia” (dedicada a Eudoro de Souza), está a “Brasilírica, brasilúdica”, onde somos luzes e ventania, palco em que “…nos cabe/Acordar”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.


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Julio Cezar Meireles

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Julio Cezar Meireles traz entre os seus versos resquícios da nostalgia
que envolvia principalmente os cariocas transplantados ao altiplano
nas primeiras décadas da cidade. A adaptação aos novos ares foi penosa
para muitos, saudosos das praias, do rumor do mar, do burburinho das
gentes. O poeta por fim inseriu-se “…nessa (por que ainda não
“nesta”? indagar-se-á) ilha/cercada de terra e gente/aberta pra todo o
lado (…) pras beiras do meu vazio”. Brasília – informa J.C.M. -, “é
meu céu da boca/e noves-fora meu Rio”. E prossegue: “retirante do mar
pras cabeceiras do abismo/ai que o amor me empurra pra dentro/do bolso
dessa cidade/pro edredom do cerrado”. A cidade está no outro prato da
balança, com “seus gramados”, “jardim sem muro”, “avenidas coloridas”,
contraponto ante os “quintais” e “varais da infância”. Os cenários do
menino não se apagam, ou não se vão por inteiro, mas a nova terra
acaba por prevalecer e fazer jus ao amor do “estrangeiro”: “(…) esse
espaço tão fundo, azul/e agreste no peito/me arde…”

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas
para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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José Santiago Naud

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José Santiago Naud está entre os poetas que, em seus versos, alcançam a cidade em sua antevéspera, no ainda por ser, mera promessa, bem antes de sua construção. “O azul era seu domínio/e as chuvas caiam sobre suas escamas/como coisa difícil…”, diz o compositor do “Hino a Brasília”. Enumera sóis, bichos, luas, “o vazio dos conceitos” e passa ao quadro seguinte, quando “…outra forma aceitou/e eis seu destino”. E ocorre a interação, o milagre, quando as mãos humanas amoldam as formas e lhes trazem a essência reclamada pelos milênios, e o agente é também beneficiário desse fiat impregnado de mistérios: “construo-me ao teu contato”. “Eras de pedra/até o momento de nossa ausência”, sim, mas uma argila a doer na solidão, à espera das mãos que, à guisa do Criador, lhe soprariam alma, vida, movimento, multiplicando-a e emprestando-lhe sentido utilitário e também aptidão para a colheita do majestoso e do belo. A harmonia, a recíproca assimilação cidade/homem é uma constante nesse poema. A energia em potencial se desata, se liberta (e “ao trabalho” a somamos): “Arco ou nave/irradiante/é quando levantas,/mariposa dourada,/no meio das sombras/e iluminas o tempo”. Em “Iniciação da cidade”, poema agora composto, José Santiago Naud principia e conclui ligado à nave que aqui está, “na aparência ancorada”, a qual, dada a sua intrínseca leveza, (…) “pode subir”. O vate, com a sutileza e o mistério que sempre o acompanham em sua invenção, colhe “a voz/de quem saltou com a História/e ficou/entre poder e fazer/criando/a cruz acesa das ânimas”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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José Hélder de Souza

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José Hélder de Souza medita: “Esta cidade nova/inventada no cerrado/branco quando envelhecer…estarei morto” (“Brasílico”). Antecipa a nostalgia, a saudade de quem a acompanhou por tantos anos e, um dia, há de experimentar a separação inevitável, decretada pela morte. A “casa sem história” se diluirá mais tarde, mas o vento sudoeste se perpetuará em blandícias, ao brotar nova aurora sobre superquadra cristalina, aquáticas noites…O legado maior do poeta será o descendente, filho legítimo desta terra cujos caminhos pisamos, os demais, os já maduros, na condição de meros adventícios…”Palipalanto” “é uma planta”, explica o poeta, a socorrer o leitor que busca (sem resposta) a informação nos dicionários e enciclopédias. Ele a descreve em minúcias, ensina-nos que ela é o vegetal mais parecido “com uma estrela”, “uma estrela branca”, e é “cheia de raios”. O palipalanto é “luz nas planuras de Goiás”, nas “lonjuras goianas onde brotou Brasília”. Informa o poeta, a lamentar sua existência ameaçada: “(…) está sumindo, cortada, pisada pelos bois,/o boi-latifúndio, boi do frigorifico,/triste boi industrial”. O epílogo são lamúrias: “Palipalanto,/palipalanto não há mais,/não há mais estrelas/nos campos de Goiás”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

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José Godoy Garcia

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José Godoy Garcia, goiano, o mais telúrico dentre  todos, pioneiro, com Antonio Carlos Osorio, na advocacia na nova Capital, engajado como sempre ao lado dos mais humildes, voltado para os mais pungentes dramas do homem de nosso tempo, denuncia as distorções verificadas enquanto a cidade tomava forma. Deplora o haver-se superestimado a fria máquina, os tratores, em detrimento dos operários, dos candangos de cujas mãos brotaram as rodovias e os palácios. Tudo conspirava contra a sobrevivência (ou, a permanência, mais tarde, sob os tetos que eles estenderam pelas superquadras), a sobrevivência dos construtores; todavia, ante tudo o que chegava para soterrá-los, opunham resistência. O amor, o romantismo, nada os sufocava: “Um dia, a mulher chegou./Alguns homens, velhos e novos,/tiveram logo a noticia./Era a primeira que chegava à terra.” A seção número quatro do poema traz para a literatura o mais negro e doloroso dos episódios de que Brasília foi palco, em mais de vinte anos: o drama que se convencionou chamar de “o massacre da Pacheco Fernandes”. “Foram metralhados” (os candangos, em grande número). A madeira curtida/pelo sol/e pela chuva/foi feita em pedaços/(…)/feita em sangue”. Então, interroga o poeta: “Como se faz uma cidade?” Em “As grades, nossa confiança”, Godoy começa com o registro dos dias de insegurança em que vivemos, de violências, de temerárias mãos e, em atitudes de defesa, dos altos tapumes, das grades de ferro como pontas superagudas diante do invasor. A ingênua e sonhadora moça negra da Ceilândia está presente, com seu sonho, no poema em que luta no desfavorável mercado de trabalho. “Brasília me abraça”, revela o poeta em “O flautista e o mundo”, na “1ª Rapsódia”. O “pedaço” em que ele tanto transitou, 706, W-3, o bar são eternizados nos seus versos. E a cidade é mais uma vez objeto de destaque: “Brasília é um sonho que está na mão!/E será sonho! Será fraternidade! Na face da terra, não há mais guerra. Brasília abre seus braços!/Cidade da natureza dos povos”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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José Alcides Pinto

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José Alcides Pinto é autor de "Nascimento de Brasília: a saga do planalto" constituído de poemas longos (menos um) sob os seguintes títulos: "A idéia", "Gênesis", "Primeira geração", "Canção dos pioneiros" e "O planalto enquanto cidade". O poeta, amigo do contista Samuel Rawet e do poeta Joaquim Cardozo, em companhia desses ilustres funcionários da Novacap (Cia. Urbanizadora da Nova Capital) aqui esteve, por diversas vezes, na fase inicial da construção. Em "Canção dos pioneiros", ele testemunha: "(Eu vi o candango triste/cantando sobre o planalto/a canção dos pioneiros/a canção cantava assim:)/O Palácio da Alvorada/não é castelo de mouro/nem coisa do arco-da-velha/nem morada de fidalgo". O poeta traz para o presente, que assiste à implantação da longamente sonhada urbe interiorana, figuras de nossa literatura e de nossa história (Castro Alves, Olavo Bilac, Fernão Dias Paes Leme, Frei Caneca, Tiradentes). "Primeira geração" afirma que "Brasília nasceu assim: da dor e da vertigem"/(…)"nasceu para crescer e virar história". Fala dos que iniciaram as obras e de seus descendentes: "assim como a cidade sem teto discriminação/nasceram os primeiros filhos dos pioneiros/que por seus arredores iam ficando/fazendo outros filhos que iam-se integrando na cidade/como a cal o ferro o alumínio das superquadras/iam eles seguindo o exemplo dos pais/um mundo novo arrebentando de seus pés como um diluvio". O poeta acompanha o progresso, a formação, a composição que vai ocorrendo, irreversível: "Iam crescendo numa ordem rígida/buscando a forma ideal da cidade/(forma/modelo/estilo)/a ordem dos edificios nas linhas puras/(eixo central da cidade)/a Praça dos Três Poderes/o Palácio da Alvorada/a Catedral/o seriado das superquadras/a paisagem de vidro sob as transparentes persianas". O poema homenageia Juscelino, Lúcio Costa, Niemeyer, e enfatiza que "A cidade nascia da determinação de homens rebeldes", aplaude o candango, "agora mais consciente de sua missão", lembra (evocando Euclides) que nossos operários procediam "do norte e do sul do leste e do oeste/homens (antes de tudo) sertanejos/(antes de tudo) fortes-homens/na expressâo mais exata da palavra". E mais: "Ah! Foi no ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:/a mais típica de todas as cidades/a mais socialmente política/(…) que outro nome te dariam se nâo – Brasília ?"
 
Texto transcrito de "Esses poetas, esses poemas", da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Joilson Portocalvo

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Joilson Portocalvo, em “Favos e cupins”, contesta Dom Bosco. Afinal os profetas são, regra geral, descomedidos, tendentes ao excesso. E são obscuros, herméticos. Suas palavras quase sempre carecem de exegeses. Não devem ser entendidas literalmente. Suas profecias muitas vezes colidem com a história. O “leite e mel” do vaticínio apenas goteja “nos paralelos do sonho”. Os operários haveriam de repetir o poeta popular: “Palácio já ficou pronto./Candango não pode entrar”. Diz J.P.: “Sendo verdade que/quem planta jabuticabeira/não come das suas frutas”. Onde o mel? Onde o leite? Onde os tesouros do chão da “antevisão”? Em outro poema (“Lago”), as garças tomam o lugar das graças, em trocadilho presente nos três versos. Admirador de Octávio Paz, o poeta canta com pura e infantil alegria sobre resgate do livro do vate e ensaísta mexicano. Constelação (obra de O.P.) foi salva da pequenez da feira, do mundo das bugigangas, pelas mãos competentes, reverentes e sensíveis do poeta.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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João Carlos Taveira

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João Carlos Taveira, com “A flor inevitável”, começa por lembrar a semente que precede a flor. Ou, antes, o barro que germina a semente. Desses extremos, desses pólos opostos – o barro e a flor – o que brota, surpreendentemente, é a solidão. Os mais lidos poderão voltar a Rilke e Kappus (Cartas a um jovem poeta) e entender o áspero mundo do artista.

J.C.T. assim expõe: “Um dia/plantou-se/uma semente/no barro.//Hoje colhemos solidão por toda a parte”. Veja-se como a “…(in)diferença dos homens” e “os ângulos da dor” são tão frutíferos quanto a árvore, eles também produzem. O seu fruto é “esse monumento de silêncio”. A solidão, pois, constitui-se algo, os “ângulos da dor” exercem seu papel, transcendental, digamos, filosófico. Não são gratuitos ou inúteis. A sutileza dessas relações (barro e semente/solidão e arte, canteiros e dor/impunidade do asfalto e monumento ao silêncio) vem a ser, essencialmente, poesia. Em “Ode quase elegia”, contrapõe o “corpo de um pássaro/morto (…)” (o Plano Piloto de Brasília) às “…mãos benfazejas/ávidas de sonhos, sinônimo/e transformações”. A ave sem vida (ode). Em “Cidade sitiada”, João Carlos Taveira volta à imagem alada, que, porém, é “etílica”, “sem plumas”, enquanto sobrevoa “…fossos,/fósseis/e arcabouços”. Ao pouso, premeditado, aguardam-no “…escombros e destroços”. Há uma atitude de submissão – fatalística, quem sabe -, de conformismo? Ou de adaptação, que o capacita ao exercício de seu papel? Conquanto “sem plumas”, o pássaro “compreende tudo: voar é seu  mistério”. Em “O argonauta”, Taveira, como se vê, recorre à mitologia. Os heróis lendários gregos, comandados por Jasão, singram as águas no argo, em busca do velocino de ouro. J.C.T. anela por um “…argonauta do sonho”, procurando-o entre as estrelas. E eleva os “faróis do Centro-Oeste” – logo, desta cidade, que outro vate já classificou como “planetária” – ao Cosmo onde viajam os entes mitológicos. “Deixa o teu silêncio/e o que resta da voz/impregnando nos objetos (…)/nas ruas de Brasília”, conclama o poeta nos versos de “Testamento”, dedicados ao confrade Anderson Braga Horta.

João Carlos Taveira, poeta mineiro, natural de Caratinga.
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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João Cabral de Melo Neto

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João Cabral de Melo Neto, diplomata, a pousar aqui e alhures por este vasto mundo, não esqueceu Brasília. O autor de “O engenheiro” associa os palácios abertos ao sol às casas-grandes das fazendas. Ou melhor, traz-nos à lembrança algumas das fontes aonde foi Niemeyer buscar inspiração para conceber as formas das fachadas e das colunas dos Palácios da Alvorada, do Planalto, do Congresso Nacional, do Itamaraty, de Tribunais, do Ministério da Justiça. A respeito dessas obras, o poeta conjectura: “Não se sabe se o arquiteto/as quis símbolos ou ginástica”, e observa que, dos edifícios monumentais, isto é, das “casas-grandes”, “a alma todoaberta se espraia.” João Cabral vê também, em “Uma Mineira em Brasília”, a tranqüila mulher das Alterosas, “nos alpendres sem ânsia”, a trazer lhaneza à cidade embrionária, entre andaimes, ainda áspera, “crispada”. E a reencontra (“Mesma mineira em Brasília”), a reiterar sobre os mesmos elementos: “palácios”, “casas-grandes”, “alpendres”, “horizontes”, “espaços”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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