Brasília em Três Quadras e um Dístico

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Brasília em Três Quadras e um Dístico

Nas tuas asas alço vôo
saio do eixo e me afasto
deste coração abstrato
e sonho no teu concreto
 
No teu côncavo e convexo
o Brasil se despedaça
e o povo perde o nexo
mas nunca perdes tua graça!
 
Em Brasília onze horas
não estou nem aqui
uma parte de mim chora
a outra reside e sorri
 
Dá-me tuas asas
se me cortam diariamente as minhas…

Anabe Lopes, poetisa que escreve poemas por “prazer e necessidade”
Poema transcrito do livro “Fincapé”, Coletivo de Poetas – Thesaurus Editora

 

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Dúvidas

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Dúvidas
Pelos caminhos perdidos
A água está dolorida
– Não se sabe se o seu gosto
É o de sangue ou da vida (?)
– Passo pelas curvas do tempo,
Onde o sol entra
Nas palavras úmidas de dúvidas
– Como ser poeta
Ou semeador de utopias
Se as dúvidas disso desconfiam?
– Como dar voz às palavras
Se as dúvidas logo gritam
– Cuidado!
– Não insista!
Seu discurso pode ser fascista
Como viver sem as dúvidas
E despreocupados
Numa ilha chamada Brasília,
Cercadas de pontes-piratas por todos os lados???
Ser Candango antigo
Não se sabe se é prêmio ou castigo?
– Como saber
Se é um direito ou um delito,
Alimentar dúvidas
Sobre tudo neste mundo???
De que adianta
Exigirem de mim a verdade,
– “somente a verdade!!!”
Se perante a justiça cega
Dúvidas são certezas da impunidade
Se durmo com minhas dúvidas
Fico sem saber se durmo
Em condomínio ou condemônio?
– Seja o dia de sol ou de chuva,
A única certeza que tenho é a das dúvidas.

Ézio Pires, poeta natural de Cantagalo (RJ)
Poema transcrito do livro “Deste Planalto Central – Poetas de Brasília”, antologia organizada por Salomão Sousa.

 

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No galho a casca não é definitiva

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No galho a casca não é definitiva
Para filhotes surgem tocas,
as juntas amontoam pó e surgem trevos
 
Muda o pássaro a plumagem
só para ter outra mais viva
e assim combinar com a nuvem
 
Vivo de me mudar de caminhos
para não ter de dar o mesmo tédio
Dar outro gosto à ternura
 
Vamos mudar de banda
Vamos bandear de brisa
E em meus braços nasçam ninhos
 
Salomão Sousa, poeta goiano, natural de Silvânia.
Poema transcrito do livro “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”
Organizado por Salomão Sousa.


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HASTA SIEMPRE!

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HASTA SIEMPRE!

Ontem Luis Turiba surtou de nós,
Diz um amigo íntimo; levou todos os poemas
Cuíca, óculos e até um samba da ARUC.
 
Diz, não fui eu quem disse:
Luis Turiba anda falando alto,
Diz que o Rio é a Capital do Planalto.
 
Na rodoviária acabou o pastel, caldo de cana e até jornal.
Diz, não fui eu quem disse:
Luis Turiba passou por lá feito ventania,
Passos apressados, sorriso largo
Com olhar de labareda.
 
Diz, não fui eu quem disse:
Estava com um livro de Nicolas Behr
E na companhia do Ivan, o tal da Presença.
 
O noticiário não deu conhecimento,
A menina do Beirute não chorou,
O telefone do Renato Matos não tocou.
 
Será que ele foi embora?
Voltou de onde veio,
Retornou ao princípio.
 
Diz, não fui quem disse:
Chegou a hora de mudar de estilo
Querer o outro, terra mãe,
Zoar por aí.
 
Agora, eu digo:
Luis Turiba destilou sabedoria;
"Descobriu que é preciso aprender
a nascer todo dia."
 
Poema de Jorge Ferreira, em homenagem ao poeta Luis Turiba, declamado no Café Martinica, em 11 de março de 2011.

 

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Poeta poesia

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Poeta poesia
(para Nicolas Behr)

depois de ler
um livro
do Nicolas Behr

envelheci
ganhei um século
de poesias

depois de ler um livro do Nicolas
e o meu que fiz?

li três vezes

depois levantei
tomei um copo
de leite gelado
e não dormi

(parecia)
Hipnotizado
poeta atrás da língua
que nem cachorro doido

chocado
com o ovo da galinha
com o dito cujo
ou somente chocado

poesia
feito sangue
de réptil na rodovia,
atropelado

e muito mais…
dele se diz
próprio de quem é
estigma
insuplantável

de si mesmo

poeta poesia
Nicolas Behr

extrapola essa estória
que acaba tendo um fim
embolado

lê de novo!
formando círculos
cabeça de poeta
avoado

Marcelo Baiocchi Villa-Verde, poeta goiano, natural de Goiânia.

Poema transcrito do livro "6 títulos, um poema" Thesaurus Editora


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uma forte tempestade

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uma forte tempestade trouxe à luz
uma parte do que poderiam ter sido
os ministérios, iniciando escavações
que permitiram identificar também
estruturas habitacionais bastante
complexas, com pessoas aparentemente
vivendo dentro de grandes caixas de concreto
 
seriam estas estruturas parte das primeiras
moradias permanentes da civilização,
as legendárias superquadras?
 
Nicolas Behr, poeta mato-grossense, natural de Cuiabá.
Poema transcrito da antologia “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”, organizada por Salomão Sousa.


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Caco a caco

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Um poema sobre a arte do mosaico, tão bem cultivada pelo colega e amigo Gougon, e seu grupo "Loucos de Pedra". Em anexo, algumas obras dele, que já se incorporaram à paisagem da cidade. Lá no final, algumas obras burramente demolidas pelo governo anterior de Brasília, com poemas de Cassiano Nunes e Nicolas Behr. E um mosaico com poema meu, em reação à imbecilidade dos demolidores, que também virou mosaico e hoje está plantado na parada de ônibus da 509 Sul.

Caco a Caco

Para Henrique Gonzaga Júnior, o mosaicista Gougon

Passo a passo
Gougon ajusta os cacos
e um mundo espedaçado
se organiza
pedaço
por
pedaço

Traços do mundo
seus destroços
se entrejuntam
caco a caco
até irromper do caos
um troço,
um traço,
um braço

Caco a caco
um mundo se inaugura
um novo sentido
se afigura,
e salta
e medra,
e a pedra, dura,
agora é frágil, pura,
e transfigurada
em palavra, bicho ou gente,
se repropõe
e se perdura,
eternamente.

Mosaico:

Urdidura meditada do estilhaço,
abraço de um caco noutro caco,
até que um naco de sentido
salte dos pedaços dessas pedras,
e reajuste o espaço além do vácuo

peça a peça
caco a caco.

 

Baseados no projeto Brasília Limpa do GDF, há pouco mais de dois meses, fiscais da Administração de Brasília derrubaram a marretadas alguns tótens poéticos instalados nas paradas de ônibus da avenida W3. Alegaram que as placas atrapalhavam o acesso aos ônibus. Mas desde quando esses funcionários entendem de acessibilidade, mobilidade ou qualquer coisa relacionada a transporte público? Não eram quaisquer pontos de embarque e desembarque de passageiros entregues a correria do dia a dia. Eram paradas poéticas. Ali existiam belos mosaicos com textos poéticos. Poesia cravada nas veias da cidade. Trabalho idealizado há quatro anos pelo artista plástico e líder do grupo de artistas e poetas, Henrique Gougon (61).

É uma lástima e uma tremenda burrice medida tão impopular e despropositada. Temos grandes e graves problemas no transporte público que estão sendo resolvidos. Mas desde quando poesia atrapalha a vida? O ir e vir de quem precisa tomar um coletivo? Os mosaicos não descaracterizavam a cidade e suas áreas tombadas. Muito pelo contrário, com suas mensagens contribuíam sim, para organização de um ideal de paz. Além disso somavam-se a construção da identidade de Brasília. Cidade que por ser jovem, e mesmo dispor de um sem número de elementos que a identifique, ainda é carente de referenciais desse tipo. A mesma poesia concreta que recebe o descaso das autoridades locais, enfeita com dizeres de Paulo Freire os jardins do MEC na Esplanada.


A foto que ilustra este post é um manifesto do grupo Loucos de Pedra contra a demolição dos mosaicos instalados nas paradas 509/510 Sul da W3. Na ausência das placas poéticas publicaram seus mosaicos nas calçadas. Versos de P.J. Cunha que emocionam àqueles que ali enxergam adiante. Longe da miopia de certos burocratas e "bem intencionados" de plantão. Tentem acabar com os mosaicos da W3, mas demolir o chão e a poesia incrustada nos corações dos que por ali vivem e passam, realmente não dá. Há mais o que se fazer, de fato, por esta cidade. (Vania Sousa, 2010)

 


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ESTRADA

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ESTRADA
 
Eram Profundas e assustadoras
Divinas e malditas
Elas …
As perguntas…
Que me levaram a estrada
 
Escorreguei por enorme brecha
Para dentro do silencio ancestral
Da floresta
Toda a verdade
Pareceu-me selvagem
 
Eram profundos e assustadores
Gritantes e inaudíveis
Os valores
Que o sacerdote me ensinava
 
Conversei com a lua nas festas
Escutei a canção da floresta
Toda a cidade
Pareceu-me selvagem
 
Era mutilante e acolhedora
Gritante e inaudível
A voz estrondeante do silencio
Que arrebatou – me na estrada
 
E toda a paisagem…
…Era vacuidade…
 
Post Ângelo Macarius, poeta brasiliense.

 

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Caminhada de domingo

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Caminhada de domingo
  
Ando
Meio panda
Quase um pato
Sol na cabeça
Pés no asfalto
Pelo domingo lerdo e chato
Clamando tanto pelo inusitado
Algo como um gato caindo do telhado
O telhado desabando sobre o gato
 
Na aragem seca do planalto
Vejo, sem pejo
A nua princesa a dançar o ventre
Beijo seus seios de pêssego
Salivo as uvas de seus beijos
Respiro o odor tamarindo
De seu sexo de róseo mistério
 
Meio tonto
Quase tombo
Tropeço nos escombros dos meus sonhos
O Sol se põe em gema por trás da catedral
O sangue das nuvens dá cor ao meu olhar
A olhar
O ar
 
Guido Heleno, poeta goiano, natural de Anápolis.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Meu Cerrado

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Meu Cerrado

Encho os olhos
de paisagens
do cerrado

Um espírito rendado
emana da floresta
de ikebanas goianas

Claridade rasgada
o plano exato
geografia instantânea

Angélica Torres Lima, poetisa goiana, natural de Ipameri.
Poema transcrito do livro “O Poema quer ser útil”, L.G.E Editora


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MANOEL JEVAN

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MANOEL JEVAN


Manoel Jevan é um dos principais ativistas culturais de Ceilândia. Mora no P-Sul desde 1981 e preserva a memória viva da cidade com a ajuda de seus alunos e dos pioneiros, aqueles mesmos que construíram Brasília e foram expulsos da antiga Cidade Livre. O professor Jevan tem muita história para contar. Ao Correio, relata sua luta contra o preconceito e valoriza expressões artísticas da cidade, como o repente, o hip-hop, a música e o cinema. Gosta de valorizar a atitude da nova geração de artistas: “Eles sabem que, se for depender de políticos, a Ceilândia sempre será deixada de lado. Uma cidade de segunda categoria”.

Veja a íntegra da entrevista
concedida aos jornalistas
José Carlos Vieira e Sergio Maggio,
do Correio Braziliense.


Quantas Ceilândias existem na Ceilândia?
Eu defendo uma tese que Ceilândia é feita por várias cidades. E olha que já passaram de 11. Cada uma com suas características. Como o Barril (a cidade antiga), que é o local que recebeu 16 mil famílias, principalmente nordestinas, que vieram transferidas das vilas operárias no inicio dos anos 1970 como se fossem lixo. Esses primeiros moradores de Ceilândia ainda relembram das histórias do Morro do Urubu, do Curral das Éguas, localidades dos tempos da Cidade Livre. Já na Expansão do Setor Ó, estão os primeiros filhos da cidade, uma das regiões mais carentes. É a parte de rap. Esses filhos começaram a se conscientizar e a perceber que sempre foram explorados, assim como suas famílias. Lá há lotes de 250m2 e de 25m2, tudo sem a mínima infra-estrutura. É onde tem mais crianças nas ruas. Lá nasceram grupos de hip-hop e rappers conhecidos, como Tropa de Elite, Câmbio Negro, Jamaica, Gog. Agora esse “lixo” se transformou no cartão-postal da cidade.


Como é fazer e manter um museu como o da Memória Viva Candanga dentro de casa? Você tem ajuda de quem?
Não tem ajuda de ninguém. A minha ajuda vem da sala de aula, dos meus estudantes, que compõem a Sociedade dos Pesquisadores e Pioneiros de Ceilândia. “Pesquisadores” são os estudantes, e “pioneiros” são os avós deles. Em toda aula inaugural eu distribuo um pequeno questionário de história oral para que os alunos descubram alguma história interessante de um avô, de uma avó ou de um idoso que saiba alguma coisa sobre a história da cidade ou do inicio de Brasília. Aí a gente seleciona essas histórias e levamos os avós para fazer palestras nas salas de aula. Esse material é transformado em histórias em quadrinhos, poesias, desenhos e músicas. Foram tantas informações que a gente resolveu, em 1993, criar esse museu.


E isso é memória viva…
Sim, porque são histórias coletivas, como a de Ari de Barros, que fez o Festival de Rock da Ceilândia, o Ferrock, que tem 25 anos. Ele foi pesquisado pelos alunos, o Ari é uma dessas “páginas vivas” do museu. Assim como ele, temos 107 painéis de pioneiros montados pelo próprios estudantes. Brasília é a única cidade do mundo cujos fundadores, em vez de serem chamados de construtores, aqueles que ergueram a capital, são chamados de invasores. E Ceilândia carrega essa exclusão social no próprio nome – CEI quer dizer Campanha de Erradicação das Invasões. Mas somos sim “candangos incansáveis”. Hoje damos muito valor a essas 16 mil famílias de “invasores” que vieram criar a cidade. Eles guardam nossa memória, e muitos filhos se transformaram em artistas renomados em Brasília, como os músicos do Clube do Som, que são quatro irmãos músicos provenientes da Vila do IAPI (soletrado mesmo) e que agora possuem um estúdio de gravação na cidade em que recebe grupos de vários gêneros musicais.


O que tem mais nesse acervo?
Nosso museu, como disse, é da história viva.
Temos lá um pilão que simboliza a primeira poesia da historia da cidade, que nós chamamos a “certidão de nascimento da Ceilândia”, escrita pelo poeta Antonio Garcia Muralha no antigo e tradicional Bar Estrela, de Taguatinga, ao ver a romaria de caminhões das famílias retiradas da Cidade Livre rumo ao cerradão que mais tarde seria a Ceilândia. Uma curiosidade que poucos sabem é que o 27 de março de 1971, oficializado como o aniversário da cidade, foi a data em que o governo militar festejou a remoção da primeira família, a da dona Edith Martins, num sábado. Mas os ceilandenses comemoram a criação da cidade em outra data, 27 de junho de 1972, quando Seu Teodoro e outras pessoas da cultura popular se reuniram na Praça dos Eucaliptos para comemorar o são-joão. Seu Teodoro conta que ele levou os tambores do bumba-meu-boi, mas os integrantes do grupo se atrasaram. Ele mesmo foi esquentando os tambores e a própria comunidade assumiu os instrumentos e fez a festa. Seu Teodoro ficou admirado com o povo que sabia todos os compassos do bumba-meu-boi.


A Ceilândia, como outras cidades do DF, sofre com a falta de espaços para a cultura. Quais são as estratégias ou os meios para aquecer a cena cultural ceilandense? A arte vai pra rua?
Parece que as pessoas do governo já tem um discurso pronto: “O povo da Ceilândia é povo nordestino, que vai pra feira, gosta de rap, se apresenta em, qualquer lugar…” Eles usam essa estratégia para não ter espaço pra gente. O pessoal da Ceilândia é tido pelos senhores do poder como curral eleitoral. Eles não querem dar autonomia, não querem dar identidade cultural para a cidade. Quanto mais a gente depender deles, melhor. Eles sempre vão querer nos usar como massa de manobra, como gado. O Teatro do Sesc, recém-inaugurado, está se transformando num escritório político. É muito caro para um grupo local se apresentar naquele espaço.


O que você acha do movimento que tenta trazer de volta o carnaval para o Plano Piloto? Muitos alegam que o pessoal do Plano não vai à Ceilândia assistir o desfile…
Acho que é preconceito. Discriminação pura.


Na Academia Ceilandense de Letras há espaço para poetas populares?
Sim, claro. Temos, inclusive, o primeiro escritor da cidade. Ele é um cordelista que participou do Movimento dos Incansáveis da Ceilândia (que sempre lutou para melhorias na cidade), Joaquim Bezerra da Nóbrega. Ele escreveu um livro em 1976, chamado “Terracap contra a Ceilândia”, se não fossem políticos e advogados da OAB, ele seria enviado para a Papuda, porque ele foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. O pai de Joaquim Bezerra foi um dos construtores da “Obra 28”, pois os candangos não sabiam que a obra teria 28 andares. Na academia tem também o pessoal do rap, como o rapper Japão (Marcos Vinicius de Jesus), que entrou para a história local ao participar do filme premiado do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2005, com “Rap, o canto da Ceilândia”, dirigido por Adirley Queirós. Os rappers, na minha opinião, são os melhores cronistas de nosso tempo. São eles que contam hoje a história da Ceilândia, porque são eles que vivem na rua, que sofrem o preconceito, que sofrem com a falta de qualidade das escolas e com o desemprego.


Francisco Morojó, o Pezão, foi um artista conhecido em todo o DF como ativista, poeta e vocalista do grupo de forró Parabiola. Sua morte prematura o elevou a símbolo de resistência da cultura ceilandense. É certo?
O Pezão simboliza o primeiro artista que assumiu o espírito de periferia. Ele tinha orgulho de dizer que era da cidade. Era um libertário. Gostava de dizer que jamais iria trabalhar com carteira assinada. Jamais teria um patrão. Ele trabalhava como assistente da mãe, que era costureira e, com o dinheiro, fazia seus livros mimeografados. Ele não poderia ter vivido em outro lugar que não fosse a Ceilândia por seu espírito de superação. Pezão fez a ponte entre a cidade e Taguatinga, logo depois Brasília. Foi o primeiro a quebrar o muro do preconceito que existia contra a Ceilândia. É um ícone. Quando fomos fazer a eleição do patrono da Academia Ceilandense de Letras, os candidatos eram Machado de Assis, Cecília Meirelles…Dos 35 votos, Pezão obteve 16 votos, superou todos.


Ceilândia é fonte de grandes nomes da cultura do DF, no cinema (Adirley Queirós), no hip-hop, (Gog, Câmbio Negro, Viela 17), na música (repentistas, Ellen Oléria), no teatro (O Hierofonte), nas artes plásticas (Taigo Meireles), no grafite (Francisco Cebola), etc. Por que esse boom artístico? A cidade encontrou sua vocação?
É a vontade de se expressar, de dizer “ei, eu estou aqui”, “eu existo!” A cultura é um dos poucos caminhos que eles tem para serem cidadãos respeitados. A cidade deveria ter recursos e espaços para o desenvolvimento cultural e esportivo.


Você está acompanhando o movimento dos coletivos culturais, como o CeiCine? Como você analisa essa nova garotada que está ocupando espaços vazios da cidade e mostrando Ceilândia para o mundo?
Esses netos dos candangos perceberam que não se pode esperar muito do governo e começaram a agir, invadindo prédios abandonados que deveriam ser destinados à cultura e brigando por mais verbas públicas. Eles sabem que, se for depender de políticos, a Ceilândia sempre será deixada de lado. Uma cidade de segunda categoria. Nunca terá sua própria história. Esses netos também são incansáveis.


Texto transcrito do Correio Braziliense, 4 de julho de 2010.

 

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BRASILIA REVISITED

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BRASILIA REVISITED
 
Ás vezes parece que o ar seco e a luz muito crua
fazem mais nítida a nossa solidão.
Mas o céu poderoso
de algum modo alivia esse estranho sentimento.
 
Agora penetro vagarosamente em seus verdes
com cuidado de caçador.
Procuro uma sombra, uma fonte, um caminho
Procuro e procuro meu amor.
 
Você está me vendo?
Eu estou aqui
bem aqui
onde deveria bater o coração do Brasil
e altos burocratas conspiram dia e noite
contra a minha alma.

Eudoro Augusto, poeta português.
Poema transcrito do livro “A natureza humana”

 

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O poeta Eduardo leva seu cão raivoso a passear

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O poeta Eduardo leva seu cão raivoso a passear
 
Eduardo, louco em férias, poeta disfarçado em burocrata,
          levanta-se todos os dias com péssimo
          humor, para ser devorado pelo relógio de ponto.
 
Obediente, amável, prestativo, conhece a fisionomia
         dos carimbos, sabe de cor o roteiro dos papéis
         e sente uma vontade secreta de atear fogo aos
         arquivos.
 
Adora olhar pela janela. Está sempre olhando pela
         janela, muito embora nada aconteça.
 
Acredita nos homens, entregaria sua vida por eles,
         porque é um tolo, um humanista impenitente,
         um amante das grandes causas, um aprendiz de
         santo, um sofredor pela miséria alheia, uma
         vitima do melodramático, um desprotegido contra
         a chantagem emocional, com uma farpa da
         cruz atravessada no coração.
 
Espera ansioso o momento de lutar pelo proletariado,
         mas não compreende como se resolverá o problema
         de acomodar os milhões de traseiros num
         único trono. E se prepara, desde logo, para enfrentar
         os burocratas, os donos do poder e o
         pelotão de fuzilamento.
 
Odeia os delegados, representantes, procuradores,
         emissários, substitutos, intermediários, signatários
         e mensageiros.
 
Aguarda o suicídio em massa de todos os tiranetes, o
         exílio dos Napoleões do brejo e dos almirantes
         sem navio, que não fazem outra coisa senão passar
         os subordinados em revista e acabam a carreira
         como soldadinhos de pau, esquecidos num
         sótão.
 
Faz amor com irregularidade, porque não obedece a
         nenhuma tabela nem tem a mulher ao alcance
         da mão. Prefere a monogamia, não por moral
         mas porque já lhe é difícil encontrar uma fêmea
         com sexo e miolos no lugar.
 
Desconhece o que é café matinal em família, não tem
         filhos para levar ao colégio, embora ame as
         crianças e sinta grande inveja dos que nasceram
         com suficiente mediocridade para as ter sem
         saberem por quê.
 
Caminha pela noite, sozinho, à caça de fantasmas,
         recebe propostas para ser gigolô e sempre se
         arrepende por não as aceitar.
 
Parece crescer ao contrário, da velhice para a adolescência.
         E enquanto aguarda o momento de
         nascer, leva seu cão raivoso a passear.
 
Eduardo Alves da Costa, poeta natural de Niterói.
Poema transcrito do livro “No caminho com Maiakovski – Poesia Reunida”
Geração Editorial


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A formiguinha e eu

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A formiguinha e eu
Por Velho Ranja

Tinha entre oito e nove anos de idade quando ela atravessou o meu caminho.

Na posição em que me encontrava naquele momento, acho que próximo a uma janela, não dava para ignorá-la.

A percepção que eu tinha naquele instante era de que os dedos da minha mão, eram dedos de um gigante, tamanho o sentimento de superioridade em relação aquele ser quase insignificante.

Senti-me um rei poderoso diante de um súdito a suplicar misericórdia. Sim, porque aquela figura diminuta, indefesa e silenciosa configurava um eloqüente pedido de socorro. Enchi-me de grande compaixão e decidi deixá-la seguir sua vida.

De fato, aquele sentimento de senhorio, superioridade no limite de optar entre vida ou morte foi vencido pela pureza genuína que ainda havia em mim.

Tempos depois, cheguei a esmagar, sem causa, insetos indefesos pela vida afora. Mas já havia adquirido o mal do mundo, deixado entrar em mim a ira, a falta de perdão, os traumas e nenhuma formiguinha ousou mais atravessar o meu caminho.

Velho Ranja, poeta paraibano, nasceu na beira do rio Taperoá.


TEMPO VIRTUAL
 
Há tempo pra tudo
em todos os tempos
existiram tempos
 
Os tempos de agora
são ditos tempos
virtuais
 
Tempo que quer ser
o próprio
tempo
 
Tempo que não se consegue mais
distinguir
pressa de velocidade
 
Tempo de acabar logo
para começar um tempo
novamente tempo
 
Velho Ranja, poeta paraibano, nasceu na beira do rio Taperoá.

 

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Goiás

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Goiás

Goiás é terra de rios de águas verdes
E de mulheres vestidas de amarelo e de homens
Que riem mais alto que as mais altas montanhas. (…)
Goiás é de um homem seco
E de um menino molhado de morte
E de uma estrada de caminho de cruz antiga,
Uma doida fome que é como uma arara (que é como manada de bicho, que é como uma ventania, uma boiada)
Que põe   de bocas sem dente , séculos
De pedra na face macerada, séculos
De riso aberto.
Goiás é um rio calçado de botina vermelha,
É uma roupa verde na sujeira de terra do homem.”

Poema de José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí

Post Paulo Timm,  transcrito da Coluna do Timm (26/11/2010)

 

 

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A paina

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A paina
 
A paina leve
plana
e breve dura
      
Por não ser
(inda que sendo)
empluma-se
em ave
ou vela
 
e paira.
 
A paina existe
porque insiste
pois, para ser,
desfaz-se
como quem
desiste.
 
Neve
ou névoa?
Pena
ou pluma?
 
Fina e errática
por um descuido da gramática
a paina,
substantiva inconcreta
nem por isso
é abstrata

Paulo José Cunha
Poema transcrito  da news-letter “Toda poesia é semente”, de Paulo José Cunha

 

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Dois poemas de Joilson portocalvo

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Dois poemas de Joilson portocalvo  

 

Inventário

Quando eu era menino
andava depressa e corria
mas a vida, lentidão
 
Em mim não realçava
o sentido de ser menino
ou a importância de crescer

Quando eu era criança e a TV também
ela ainda não acendia suas luzes
à luz do dia ou à noite
ofuscando a infância
nem marcava a alma das pessoas
com fantasmas e imagens belicistas
 
A dor que me atingia
era somente a de canelas esfoladas
joelhos sangrando
e chineladas e palmadas
 
Quando criança
todo mundo mandava em mim:
faz desfaz cala a boca

dá recado compra isso

pega aquilo faz dever

aprende a lição copia

cem vezes o que errou

obedece não responde aos mais velhos

engole o choro que homem não chora

 
Quando pequeno
só queria ser grande
para também atropelar os maiores
que atropelavam a meninice
davam cascudo chutavam canelas
mordiam orelhas inventavam temores
 
Quando menino
vestia calças curtas mijava na cama
fingia fraqueza e sofreres
e ouvidos moucos
para armazenar segredos e engravidar poesia
 
Era forte e percebia
a hipocrisia dos outros crescendo
enquanto eu também crescia
 
Quando menino
pensava que ser homem
era não apanhar de ninguém
não ter medo de escuro
nem correr do perigo
e de jeito nenhum chorar
 
Quando menino
não sabia de jogos de guerras
usava faca para cortar pão
e descascar laranja
revólver nem de brincadeira
 
Brincava com coisas banais
pulava corda pulava amarelinha
brincava de esconde-esconde
e de passar anel (coisa de mulherzinha?)
 
Ouvia histórias de trancoso
de príncipes e princesas encantados
Pavão Misterioso,

Donzela Teodora,

Lampião no Céu

Quando pequeno
plantava bananeira brincava de pique-pega
pique-esconde
andava a cavalo
caía do cavalo
fazia de cabo de vassoura cavalo
 
Quando ainda menino
ouvia rádio e alto-falante para
abafar gritos e rigores de minha mãe
 
Quando menino…
quando?

 
 

 

 

Poetassingular
 
Se eu fosse Cora
Coralinava a vida
Corava tudo de prazer
Deixava simples, felizes
E doces as coisas
 
Se Manuel
Bandeirava o mundo de branco
Manuelava todos os poetas
Nordestinava e universalizava o puro
E ainda estrelava a vida inteira
 
Se Mario
Quintaneava a natureza
Mariava o mal
Passarinhava as feras
E deuseificava as mulheres
 
Se Cecília fosse
Meireleava a poesia
Ceciliava a prosa
Imprimiria cores novas no arco-íris
 
Se Carlos
Drummondeava o mundo
Carleava as crianças tristes
E as mandava brincar
À sombra de amendoeiras
 
Se Adélia
Pradeava cidades
Adeliava homens
Feminilizava brutos
Transformaria Deus em Deusa
Pelicaneava o resto
 
Se Manoel
Barreava as coisas
Lesmeava, minhocava e
Desorganizava a coerência
Besta da bosta do mundo
 
Se vários fosse
seria monótono e plural
viveria na vã tentativa de ser singular
 
 
 
 
 
 
 

Dos poemas de Joilson Portocalvo
Traducidos por Javier Iglesias

 

Inventario

Cuando era niño
andaba de prisa y corría
pero la vida, lenta
 
En mí no realzaba
el sentido de ser niño
o la importancia de crecer
 
Cuando era niño y la TV también
ella aún no encendía sus luces
a la luz del día o de la noche
ofuscando la infancia
ni marcaba el alma de las personas
con fantasmas e imágenes belicistas
 
El dolor que me atingía
era solamente el de las canilla esfoladas
rodillas sangrando
y chancleteadas y palmadas
 
Cuando niño
todo el mundo mandaba en mí:
haz deshaz cállate la boca

da recado compra eso

coge aquello haz La tarea

aprende la lección copia

cien veces lo que erraste

obedece no responde a los m
ás viejos
engole el llanto que hombre no llora

 
Cuando pequeño
sólo quería ser grande
para también atropellar a los mayores
que atropellaban la niñez
daban cocotazos pateaban canillas
mordían orejas inventaban temores
 
Cuando niño
vestía pantalones cortos meaba en la cama
fingía franqueza y sofrieres
Y oídos sordos
para almacenar secretos y embarazar a la poesía
 
Era fuerte y percibía
la hipocresía de los otros creciendo
mientras yo también crecía
 
Cuando niño
pensaba que ser hombre
era no apañar de nadie
no tener miedo de lo oscuro
ni correr del peligro
y de ninguna manera llorar
 
Cuando niño
no sabía de juegos de guerras
usaba cuchillo para cortar pan
y pelar naranja
revólver ni jugando
 
Jugaba con cosas banales
Brincaba cuerda brincaba cuerda suiza
Jugaba a los escondidos
Y a pasar el anillo (¿cosa de mujercita?)
 
Oía historias de trancos
de príncipes y princesas encantados
Pavo Real Misterioso,

Doncella Teodora,

Mechero en el Cielo

Cuando pequeño
plantaba bananera jugaba a los tocados
a los escondidos
andaba a caballo
caía del caballo
hacía Del palo de la escoba caballo
 
Cuando aún niño
oía radio y alto-parlante para
silenciar los gritos y rigores de mi madre
 
Cuando niño…
¿Cuando?
 
 
 
 
 

Poetassingular

 
Se yo fuese Cora
Caralinaba la vida
Choraba todo de placer
Dejaba simples, felices
Y dulces las cosas
 
Se Manuel
Bandeiraba el mundo de blanco
Manuelaba todos los poetas
Nordestinaba y universalizaba el puro
Y aún estrellaba la vida entera
 
Se Mario
Quintaneaba la naturaleza
Mariaba el mal
Passarinaba las fieras
E deuseificaba las mujeres
 
Se Cecília fuese
Meireleaba la poesía
Ceciliaba la prosa
Imprimiría colores nuevos en el arco-iris
 
Se Carlos
Drummondeaba el mundo
Carleaba los niños tristes
Y las mandaba a jugar
A la sombra del almendras
 
Se Adélia
Pradeaba ciudades
Adeliaba hombres
Feminilizaba brutos
Transformaría Deus en Diosa
Pelicaneaba al resto
   
Se Manoel
Barreaba las cosas
Lesmeaba, gusanaba y
Desorganizaba la coherencia
Inútil de la bosta del mundo
 
Se varios fuese
sería monótono y plural
vivería en la vana tentativa de ser singular
 
Post de Joilson Portocalvo, poeta alagoano, natural de Porto Calvo.


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Pertencimento

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Pertencimento
 
Antes do retrato
Da imagem congelada de silêncio
Antes mesmo do espelho
Havia a pôça de água parada.
 
De modo que para ver-se
Para contemplar o seu feitio de gente
O elemento carecia dobrar-se
E tocar a terra com as mãos.
 
Bem contrário à retidão conquistada há milênios
Havia de curvar-se humilde
E espalmar a terra num quase abraço.
 
Só assim,
Pertencido de chão
O elemento podia enfim olhar
E descobrir-se meio vago
Meio longe
Entre pedaços de azul.
 
Poema inédito de Elzita Maria Lima, poetisa goiana, natural da Cidade de Goiás.


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DESTINO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

DESTINO
 
Ó destino que me espera.
Ó destino que me alcança.
Seja brando e amigável,
seja franco e inabalável.
 
Ó destino ainda infante
estude bem minha alegoria.
Seja humilde no agouro,
seja farto na alegria.
 
Um amigo na penumbra.
Um voz na escuridão.
Ó destino indefinido
seja pródigo no perdão.
 
Que a dor no coração seja finita.
Que a água no alforje seja, mais pura.
Ó destino que me alcança
seja humilde na tortura.
 
Ó destino indefinido
cresça forte mas astuto,
seja esperto senão rude,
seja repleto de brandura.
 
Ó destino dos mortais.
Ó destino tão voraz.
Seja pequeno na avareza
dos amores não frugais.
 
Renan Lins Alves da Cunha, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “Pai Poeta”, de Renan Lins Alves da Cunha e Marisa Carla Queiroz Alves da Cunha


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