A Casa de Cimento

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"Se este livro tivesse sido escrito em francês, Saint-Exupéry o poderia assinar. Foi feito em prosa, mas é o poema de Brasília.
Toda a poesia das longas noites de trabalho, toda a esperança das horas infatigáveis da construção estão contidas em suas páginas.
É uma diário que fala e faz chorar de saudade.
Saudade da hora mais trepidante do Brasil, quando a Nação inteira vibrou, cantando, no estribilho do martelo e do cimento, a glória dos candangos que realizaram o sonho bissecular de rasgar no planalto o ‘amanhã de meu país’."

Palavras de JK sobre "Invenção da Cidade"

A Casa de Cimento
 
Para a construção de barraco, qualquer material servia. Palha de buritis, lascas de tábuas, pedaços de eucatex, enfim, tudo que vedasse o sol ou se antepusesse à chuva… Até mesmo pedaços de papelão grosso ou sacos vazios de cimento.
Aliás, os sacos vazios de cimento, em determinada época, entraram na moda, não somente pela facilidade com que eram obtidos, como pela resistência que revelaram, após as primeiras chuvas.
Houve mesmo toda uma "invasão" que recebeu o nome pomposo e quase bonito de Papelândia. Essa estranha vila teve existência por vários anos, no local onde se erguem a Praça 21 de Abril e as casas das quadras em volta.
A gente saía de um dos bares, na Av. W-3, e entrava direto na Papelândia. Ali eram encontrados os botequins, onde a pinga corria à vontade, os "restaurantes" de nortistas, onde não faltava a carne de cabrito e onde, uma vez por semana, havia a buchada.
As principais brigas do Plano Piloto aconteciam na Papelândia, onde algumas beldades desgarradas tentavam sobreviver de qualquer maneira…
Não se podia dizer que a vida da Papelândia era uma vida fácil, de marginais ou de vagabundos. Não… Longe disso. Brasília, nos primeiros tempos, não dava muita margem aos marginais… Quem não trabalhava em alguma coisa não sobrevivia.
Bem, mas a história que eu queria contar é outra, embora o cenário tenha sido a Papelândia.
Certo paraibano, cujo nome não vem ao caso, já estava em Brasília havia quase um ano, guardando seu dinheirinho, todas as semanas, na Caixa. Queria visitar a família, logo que pudesse. Mas, cansado de viver em alojamentos, onde não havia a liberdade de sair todas as noites, resolveu construir o barraco, na Papelândia. Em primeiro lugar, começou por juntar material. Todos os dias, trazia da obra onde trabalhava alguns sacos de papel. Arranjou a madeira e trabalhou firme. Um mês depois, escreveu ao pai, dando-lhe a notícia: estava construindo a casa, e, no fim do ano, daria um giro pela Paraíba. E revelou na carta: – "Já gastei duzentos sacos de cimento em minha casa…"
O pai recebeu a carta, leu-a e releu-a. Levou-a aos amigos, que também leram a notícia alvissareira. Ninguém teve dúvida. O rapaz estava rico, pois quem pode gastar duzentos sacos de cimento para construir uma casa, é porque tem dinheiro sobrando…
O velho paraibano, a princípio, não quis, mas, por fim, cedeu. Reuniu quanto dinheiro os amigos e vizinhos lhe ofereceram, e tomou um avião para Brasília. Como bom paraibano, queria participar da fortuna do filho…
Mas, como bom paraibano, soube suportar, com uma boa gargalhada, a decepção…

E passou uma temporada com o filho, sob o teto de sacos de cimento.

Extraído do livro "Invenção da Cidade", de Clemente Luz.

 

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Pajuçara

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Pajuçara
 
Esta antiquada máquina
do corpo,
em que se gravaram
manchas escuras.
Ela olha o mar pluriverde
de Pajuçara,
este festival
de cores e espumas.
Ele continuará
quando eu tiver ido
e não guardará
lembrança
do nosso belo convívio
(Eu também esqueci
tanto e tantos
– até amores,
Deliciosos e momentâneos!)
Quando eu me for
de maneira total,
absoluta,
as ondas sussurrantes
continuarão a sua dança
imortal.
Outros homens
estarão no meu lugar,
sentados no mesmo banco;
nem saberão,
mas estarão usufruindo
algo,
que embora longínquamente
é também meu:
 
o legado humano.
 
Cassiano Nunes, poeta paulista, nasceu em Santos.
Faleceu na última segunda-feira em Brasília, aos 86 anos.

 

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18 de outubro de 2007

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LEMBRANÇA DE MÁRIO DE ANDRADE
 
Também eu fui ao FRANCISCANO
ver o Mestre.
E, com ele, bebi
o ritual copo de chope.
Ouvi. Sua conversa
polvilhava de meteoros
música de câmara.
 
Mal sabia eu,
na noite úmida, paulistana,
no ambiente vulgar
de cervejaria,
que estava vivendo
um instante de eternidade.
 
Cassiano Nunes, poeta paulista, nasceu em Santos.
Faleceu na última segunda-feira aqui em Brasília.

 

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Sou de Santos

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Sou de Santos
 
  (Depois de ler "Where a Poet’s From", de
   Archibald McLeish.)
 
  Nasci perto do mar
  como Ribeiro Couto.
 
  Com ele, cantei
  o cais de Paquetá,
  cheio de marinheiros,
               estrangeiros,
               aventureiros.
 
  Apitos roucos de navios
  me atraíram para outras terras,
  propostas sedutoras.
 
  Corri mundo,
  Vim parar no Planalto Central
  onde, solitário, entre livros,
  contemplo os últimos anos.
 
  Às vezes, à noite,
  me encaminho para o lado do Eixo
  e me detenho ante os terrenos baldios
  (amplidão!) da Asa-Sul.
 
  Ao longe,
  os guindastes das construções
  sugerem um cenário de cais.
  E o vento me traz com o cheiro do sal
  o inútil apelo do mar.
 
Cassiano Nunes, poeta paulista, nasceu em Santos e faleceu na última segunda-feira em Brasília, aos 86 anos. Unanimidade no meio artístico e cultural de Brasília. Vivia recluso em sua residência-biblioteca em contínuas leituras. Intelectual ligado ao Modernismo, fez-se editor em São Paulo, trabalhando por mais de 10 anos na Editora Saraiva. Editou Cyro dos Anjos, Orígenes Lessa e Menotti del Picchia, entre outros. Lançou Marcos Rey e Heloneida Studart. No ambiente literário, travou conhecimento com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, entre os que mais o marcaram. 
Formou-se na USP, em Letras anglo-germânicas. Fundou, na companhia de Antonio Candido, seu mestre e amigo, a Faculdade de Letras e Filosofia de Assis, em São Paulo. Viveu nos Estados Unidos, onde lecionou na New York University. De volta ao Brasil, em 1966, passou a lecionar na Universidade de Brasília até sua aposentadoria. 
Em 1985, Cassiano recebeu dois prêmios da Academia Brasileira de Letras: o de crítica, "Silvio Romero", e o de poesia. "Olavo Bilac". 
Cassiano Nunes publicou, entre outras obras, "Breves Estudos da Literatura Brasileira", 1969, a "Felicidade pela Literatura", 1983, e "Vinte Vezes Cassiano", 1977, organizado por amigos em homenagem ao escritor. Publicou livros de poemas, como as antologias "Poesia-I", 1977, e "Poesia-II", 1998. Publicou também "A Atualidade de Monteiro Lobato", 1985, Thesaurus, e "Novos Estudos sobre Monteiro Lobato", 1998, pela Editora da UnB.

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QUATRO PAISAGENS DE AMBOS OS MUNDOS

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QUATRO PAISAGENS DE
AMBOS OS MUNDOS

 
O silêncio
faz simetria
com os girassóis.
 
O silêncio é risco, trégua e plano.
Régua, pipetas, balanças,
métrica alguma o alcança.
 
Na rua o menino dorme
sob rotos jornais:
não sabe ler os próprios sonhos.
 
Galos dormem
o mesmo sonho dos homens:
guardam sob si os pés de prata e ouro.
 
Camilo Mota, poeta mineiro, nasceu em São João Nepomuceno.
"Livro na Rua", Thesaurus Editora.

 

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Matinas

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Matinas
 
Eu te convoco oh! sol para louvarmos ao Senhor.
 
Transbordemo-nos em catadupas de fúlgida alegria
para cantar a Sua glória.
 
Se nos calarmos falarão os ventos
e gritarão
e explodirão granitos
desenhando em estilhaços contra o negror da noite
o Seu santo nome.
 
Se nos calarmos
os insetos em procissões
desfilarão entoando os Seus louvores
e os mares farão das ondas asas
                         das espumas rendas
                         dos estrondos cânticos
em louvor do Seu nome.
 
Eu te convoco oh! sol para junto às escrituras todas
louvarmos ao Senhor.
 
Antonio Carlos Osorio, poeta gaúcho, nasceu em Gauraí.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Candangos

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Candangos
 
Candangos
Na cidade-invenção
que construíram,
que os consumiu.
Agora uma fotografia
em preto-e-branco.
Mas ainda pulsa
ainda lateja
na alma escarificada
na memória
da poeira depositada
sobre sonhos e projetos
de vida.
 
Antonio Miranda, poeta maranhense, radicado em Brasília desde 1974
"Brasília em 3×4", de Radilson Carlos

 

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Senhora Roseira

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Senhora Roseira
 
O chão onde te plantas, Senhora Roseira,
                                                     me agrada.
Tua raiz-matriz, Senhora Roseira,
                                                     me agrada.
Teu caule-madeira, Senhora Roseira,
                                                     me agrada.
Tua folha-outoneira, Senhora Roseira,
                                                     me agrada.
Teu espinho-garra, Senhora Roseira,
                                                     me agrada.
Mas tua rosa…
                                                     insolente,
com ar de quem usa o máximo a beleza,
acima de tudo perfumada… Senhora Roseira,
                                                     me assombra:
diz-me ela que nenhum homem é maior
do que a leve
 
                     queda
 
                                                     de uma pétala.
 
Cyl Gallindo, poeta pernambucano, nasceu em Buíque.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Rogativa

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Rogativa

Não me peçam
para ser breve:
estou enterrando um amor
(e o amor está sempre vivo)

Não me peçam
para ser prática:
estou destecendo uma vida
(e a vida mal principia)

Não me peçam
para ser lógica:
só, estou nadando em salmoura
(e a praia ainda se avista).

Não me peçam
para ser rude:
estou despregando os cravos
(e a carne recende, aflita).

Não me peçam
para ser justa:
estou desatando uma teia
(e a trama se urde sozinha).

Não me peçam
para ser lúcida:
estou arrancando raízes
(e as ramas loucas florindo).

Aglaia Souza, poetisa carioca, nasceu no Rio de Janeiro.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Ordem dos Caminhantes

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Ordem dos Caminhantes
 
Eu vos recebo e confiro
a Ordem dos cavaleiros
que respeito e admiro.
 
Eu vos recebo amante.
Sois melhores cavaleiros
da cavalaria andante.
 
Eu vos recebo em afeto.
Tendes fome de justiça,
nosso prato predileto.
 
Eu vos recebo amigo.
Vede que não estais sós.
Eis meus braços estendidos.
Então soltarei a voz
e vós cantareis comigo.
 
Carlos Augusto Cacá
"Geografia Poética do Distrito Federal"
 Ronaldo Alves Mousinho

 

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O Antes e o Após

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O Antes e o Após
 
Antes do nada… Imaginemos nós.
Só Deus. Nem vácuo nem imensidão,
Nada de ar, nada de luz nem voz,
Nada de espaço, nada de amplidão.
 
Mas, de repente, veio Deus veloz
E começou do mundo a formação,
Vieram os fenômenos e, após,
O homem, geração por geração.
 
Deus… Este é infinito, mas o mundo?
Se Deus desbaratá-lo num segundo,
Num método seguro, forte, agudo?
 
Unir-se-ão legítimos, autênticos,
Os dois períodos totalmente idênticos:
O antes-nada e o após-tudo.
 
Donzílio Oliveira, poeta repentista.

 

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Ode a Brasília

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Ode a Brasília
 
Em doce clima e ótima altitude
no centro deste ubérrimo Brasil,
em local ideal para a saúde,
entre colinas e riachos mil,
ergue-se uma cidade pioneira,
de arquitetura nova, sem igual,
no mundo, nestes moldes, a primeira,
urbanisticamente original
 
Se alguma queixa cabe nessa hora
contra a grande empreitada de Brasília,
 
que seja, então, de que somente agora
se contrói essa Oitava Maravilha
 
Alberto Bonfim, 1959

 

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EUS

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EUS
 
Nesta luta de mim contra mim mesmo
sou D.Quixote e sou meu Sancho Pança.
Não tão magro Rocinante, me levo.
E contra mins de vento
arremeto-me lança.
 
Dulcinéia de mim, de mim Cervantes,
quando arrebentarei o autocasulo?
                Açulo-me
minhas próprias matilhas relutantes.
 
Quando me encontrarei em mim ?
                                                acuado
por fantasmas que engendro! E onde, em que nada?
                                                          – Em Deus?
Em dois, em três, em mil, desindivíduo,
– quem somos eus?!
 
Sinto-me às vezes vós, um outro.
                                                     Ah!
       centelhas rebeldes sou do Todo,
em luta cega contra o reintegrar-se ?
 
Caotizam-me as peças do meu caos.
Ai, não ser deus para criar-me, unipluro!
E vou, vão, ides, vamos, ave grave,
em deslembrança de asas, contra um muro.
 
E eis-me fechado em mim
que me oculto do sol a face escura.
Sem saber como desvestir-me
da solene-ridícula armadura.
 
Anderson Braga Horta, poeta mineiro, nasceu em Carangola.
"O Pássaro no Aquário"

 

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Poetassingular

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Poetassingular

Se eu fosse Cora
Coralinava a vida
Corava tudo de prazer
Deixava simples, felizes
E doces as coisas

Se Manuel
Bandeirava o mundo de branco
Manuelava todos os poetas
Nordestinava e universalizava o puro
E ainda estrelava a vida inteira

Se Mário
Quintandeava a natureza
Mariava o mal
Passarinhava as feras
E deuseificava as mulheres

Se Cecília fosse
Meireleava a poesia
Ceciliava a prosa
Imprimiria cores novas no arco-íris

Se Carlos
Drummondeava o mundo
Carleava as crianças tristes
E os mandava brincar
À sombra de amendoeiras

Se Adélia
Pradeava cidades
Adeliava homens
Feminizava brutos
Transformaria Deus em Deusa
Pelicaneava o resto

Se Manoel
Barreava as coisas
Lesmeava, minhocava e
Desorganizava a coerência
Besta da bosta do mundo

Se vários fosse
seria monótono e plural
viveria na vã tentativa de ser singular

Joilson Portocalvo, poeta alagoano, nasceu em Porto Calvo.
"Geografia Poética do Distrito Federal", de Ronaldo Alves Mousinho.

Joilson Albuquerque de Gusmão é nome escrito na certidão de nascimento de Joilson Portocalvo, radicado em Brasília desde 1961. Publicitário, escritor e roteirista cinematográfico. Publicou Silêncio Inquieto e Cio , poemas. A dança da lua cheia, novela infanto-juvenil e a novela Cinzas de Alfazema. Memórias de um Pirralho, minicontos infanto-juvenis e Coração Tatuado, contos.
Organizou: Confissões em Cadeia – Sete homens privados do direito de ir e vir e Cadeia de sentimentos – comunicação intra e extramuros. Realizou oficinas literárias e palestras em escolas públicas e particulares do DF e na Penitenciária da Papuda. Nesta, organizou a antologia "Confissões em cadeia", reunindo trabalhos de sete detentos; produziu o livro "Interseção entre dois mundos", relato autobiográfico de Manoel Gomes, em forma de Carta para Joilson, contando sua vida intramuros e "viagens" de liberdade.

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EXÍLIOS

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EXÍLIOS

A cidade se perde em seus próprios labirintos:
pelas serpentes de pedra e asfalto
corre pressuroso um rio de animais metálicos

Não há mais lugar para os homens
no fluxo divergente
de olhares escondidos por chador e véus.

Anônimos, como areia na ampulheta,

vamos em busca da utópica Pasargada.
enquanto a história nos atravessa como um raio.

A metrópole oriental,
como um ventre,
espera o desconhecido
e na sua intangível solidão geométrica
exilo-me nos labirintos dos bazares
onde florescem catedrais de ausências
e um fluxo divergente de homens e mulheres
son chador e véus.

O tempo, enxame de bactéria a nos roer,
me leva a mundos que eu sonhei um dia:

De Cataguases a Isfahan
de Brasilia a Teerã,
quanto de mim vai ficando nesses caminhos
com sua orfandade de margens.

Quando contemplo
os picos nevados das montanhas Alborz
ou busco os longes caminhos de Shiraz e Burujerd
os barcos da infância,
que lancei no rio Pomba rumo ao desconhecido ,
ressuscitam nas águas do Zuyandé
prisioneiros do vento, cativos da geografia.

 

Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, nasceu em Cataguases.
Poema enviado de Teerã ao poeta Joilson Portocalvo.

 

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GESTAÇÃO ATÔMICA

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GESTAÇÃO ATÔMICA

1945
segunda guerra
desrespeito
uma bomba
catástrofe

1945
outra bomba
Japão
mamãe grávida

1945
experiência absurda
Hiroxima e Nagasaki
cobaias

1946
minha mãe
pariu milhões de mortos
eu nasci

 
Poema do primeiro livro de Joilson Portocalvo, poeta alagoano, nasceu em Porto Calvo
"Silêncio inquieto", 1978

 

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Memória futura

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Mesmo coberta
Brasília é uma cidade
nua. Intervalos,
espaço, o plano em que se inventa
se despojam, verticalmente
Planalto, Brasília salta
e se repete para o alto.
 
E comemora-se, num céu
declarado, num horizonte
preciso, como quem sabe
o que faz de si
e guarda o rosto explícito.
 
Em que cidade os vãos
se mostram com tanto
azul, e ventos e vertentes ?
Onde limites
que se correspondem, onde
lacunas que se preencham
apontando
sua vizinha evidência;
onde é que
guarda tanto sentido
em sua indiferença ?
 
Os edifícios, nítidos
como cactus, contra uma terra
envolta em terra
se amaciam e se retomam em lago.
E o branco é mais longo
no assalto do poente,
e a técnica se arredonda
na memória da Acrópole
e pelo ser
se aconchega, nas dobras
do existente.
 
Nada se aglomera
ou se expulsa
nesta paisagem onde a razão
é o sensível e sua imagem.
 
Aqui se faz o homem:
geografia-geometria
e a história murmurando
amanhã
nas curvas da poesia.
 
Aqui a terra se ergue,
lapidada em seu proveito,
aqui medita
o que a pátria espera
de nós, por nós,
na nudez dos que pensam.
 
Lupe Cotrim Garaude
"Poetas Mineiros em Brasília"

 

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