Bolhas de sabão sobem ao céu

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Bolhas de sabão sobem ao céu
Para dizer a São Pedro que
Reynaldo Jardim não vai
Achou falta de respeito
Chamá-lo assim de supetão
No auge da festa
Em sua homenagem
Onde amigos o presenteavam
Das formas mais íntimas.
Em resposta, São Pedro
Enviou um mensageiro
Com o seguinte recado:
“Reynaldo, você morreu”.
Às gargalhadas, ele responde:
“Só se morre uma vez,
deixa eu aproveitar.”
E pelo mesmo mensageiro
Enviou o seguinte recado
Ao porteiro-do-céu:
“Chego por volta das dezoito.
Por gentileza, acomode-me
próximo de Leila Diniz”.
 
Marina Mara, poeta brasiliense
Poema transcrito de seção “Tanta Palavras”, do Correio Braziliense – 01.02.2012

 

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REEDIFICO A CIDADE

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REEDIFICO A CIDADE
 
Reedifico a cidade.
Suas artérias, suas sinfonias
subterrâneas,
seus mares extintos
na memória.
O milagre de suas mãos
aquáticas.
Suas tímidas cantigas
como fontes, no chão.
 
Tributários do espanto
roem as horas, as praias
as multidões, as raízes,
os muros antigos.
Os olhos da insônia,
criativos e límpidos,
amoldando a cidade,
no ar.
 
Assim, reedifico-a.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “O Grito Submerso”, 1980.

 

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O BOM MENINO BEM COMPORTADO NA CORTE DOS TECNOCRATAS

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O BOM MENINO BEM COMPORTADO
NA CORTE DOS TECNOCRATAS

 
às quinze horas
não mais que às três em ponto desta tarde
estarei fechado entre quatro paredes
ouvirei engenheirês e economês
explicarão que é comigo o português
beberei café
aspirarei a fumaça do cigarro alheio
encherei os pulmões de ar viciado
estragarei o cérebro com palavrório
sentirei sono tédio vontade de ir embora
mas ganharei meu pão muito calado
não prejudicarei ninguém
não serei indelicado
tudo farei pelos melhores resultados
minha família pode ficar em paz
porque me mostrarei um bom menino
 
enquanto isso
às três em ponto desta tarde
há mulheres enroscadas nos amantes
há secreções em mistura
vaginas casam-se com pênis
há jatos de esperma contra diafragmas
há sêmen contido em camisas de vênus
há corpos que se contraem e relaxam
há um sujeito solitário tomando chope escuro e comendo salada
                                                                               de batata no bar luís
às três em ponto da tarde
não envergonharei minha família
 
às três em ponto da tarde
haverá uma pedra incorruptível no meu peito
 
Reynaldo Valinho Alvarez, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “O Sol Nas Entranhas”, Editora Três.

 

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Brasiliense

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Brasiliense

Sou passarinho que canta
acima do vento ao redor.
Sou buriti alagado,
espreguiçando-se ao sol. (…)

na vastidão do cerrado
com luz a perder de vista,
sou um ipê encravado
que sobrevive no asfalto. (…)

não há bem que me conforte,
nem mal a me atormentar;
sou um candango de sorte,
peão forte a se urbanizar (…)

Raul de Taunay, poeta brasiliense
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense (14/12/2011)

 

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Buraco do Tatu

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Buraco do Tatu

Mergulhou sob a Rodoviária e o dia ficou mais escuro
do que nunca, mas quando emergiu do outro lado e
começou a subir a pista a claridade era tanta que ele foi
subindo subindo subindo, até que não parou de subir, e
o céu fazia um azul de tão-agosto que nem havia nuvens
entre as esquinas inexistentes, só a solidão e os pássaros
pousados nos vidros do carro.
 
José Rezende Jr, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Texto transcrito do livro “50 anos em seis – Brasília, prosa e poesia”
Teixeira Gráfica e Editora

 

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URBE RARA

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URBE RARA

Na Capital da Esperança
tange-me a face
o vento adolescente do
Planalto Central.
 
Além da visão de Dom Bosco,
diviso espectros dissonantes
no caleidoscópio de sonhos
de cada candango esquecido.
 
Presa aos vértices da cidade,
a mentira da carne
e os desvarios do poder
implodem o que há de negro
e obscuro
n’alguns homens enviesados,
que deambulam entre
catedrais de ausência
e templos de solidão.
 
Os estômagos do poder,
vísceras psicopáticas
de império e lama,
diluem-se no ácido de seus donos,

enquanto estes afundam-se, soberbos,
em suas histórias insondáveis,
guardadas nos mármores profanos
de imunes castelos.
 
A Brasília de todos os santos
expele o miasma
da carnificina moral
que o parlamento,
        entre estertores e manobras,
esculpe no cotidiano
de desvios.
 
        Brasa, ilha,
        rasa milha,
        fruto de outros sonhos e quimeras,
 
experiência de ruptura e vanguarda,
lispectoriana projeção
de solidão e deslimites,
 
fora dos eixos, ao la(r)go,
no Paranoá violado,
na 109 Sul ou nos guetos do Conic,
 
mais que o risco na prancheta,
cosmoplanáutica invenção,
 
que criou alma, ganhou asas
para angariar cosmos inauditos
além do vôo dos que se sonharam Ícaro,
mas se perderam em Samambaia
ou em mutiladas latitudes.
 
Brasília,
síntese das heterogeneidades
de um país retaliado,
resumo das áfricas
das tribos e minorias,
da ancestralidade inconclusa,
dos atalhos e migrações,
 
        malgrado o estigma
               dos pulhas
 
ainda és fluxo de enigmas
e vertente da voluptuosa marcha dos que,
em aguerrido bandeirantismo,
buscam colher estrelas
e escrever poemas,
                                   resiste, insiste e persiste.
 
contra o tempo e seus estigmas,
inventando estrelas
na semeadura insone dos candangos.
 
Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, natural de Cataguases .
Poema transcrito do livro “Brasília: vida em poesia”

 

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As Cigarras da W-3 Sul

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As Cigarras da W-3 Sul

Os poetas, como as cigarras,
costumam vicejar nos tempos ascéticos.
Meu Deus, porque não mais se ouvem
as cigarras da W-3 Sul?
Mudou o povo ou mudaram as cigarras
Implorando chuvas ao céu?
Não há mais cigarras pedindo
chuvas na W-3 Sul. E tão somente
cidadãos com chips nas orelhas
pedindo que os esqueçam às traças,
ao mofo, à ruína do viver.
Por fim, dizem que foram os cidadãos
da W-3 Sul que pediram aos poderes públicos
a destruição das cigarras.
Não acredito. As cigarras é que
desertaram para todo o sempre da W-3 Sul.
Cansaram-se do tédio e anonimato.

Paulo Bertran, poeta goiano, natural de Anápolis.
Poema transcrito do livro “Sertão do Campo Aberto – Poesias”, Verano.

 

 

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Poema da curva

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Poema da curva

“Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim”, cantarolo pelo quarto. Essa música  me dá uma alegria, uma sensação de pertencer a essa cidade espacial, fincada no deserto. Como um grande pássaro de concreto que ali pousara e do barro estéril fizera morada, escrevo.

Eu, filha do mar e da enseada, que sonhara um dia navegar por outras plagas, vim parar aqui, nesse mítico planalto com que sonhou Dom Bosco. Foi como nascer de novo, cortar os laços, fincar raízes onde nunca imaginara.

Brasília, nessa esplanada onde amei e fui amada, onde gerei minha prole e lapidei sonhos brutos, quero inscrever esses versos em teu coração de pedra:

Aqui viveu sua saga
a mais humilde poeta,
Brasília, e em homenagem
a tua efígie de mármore,
mandou lapidar na laje:
são curvas, todas as retas.
 
*Poema da curva é o título de poema de Oscar Niemeyer, o arquiteto dos principais palácios e monumentos de Brasília
* “…Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim…” – trecho da música Linha do Equador, de Djavan e Caetano Veloso.
 
Poema transcrito do livro “Diário da Poesia em Combustão”, de Amneres
Coleção OiPoema, Athalaia Gráfica e Editora

 

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CONFEITARIA AOS QUE VOAM

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CONFEITARIA AOS QUE VOAM
 
E passando às nuvens
com seu reino povoado
de seres mutantes voadores.
 
De clara de ovo, batida e gelada,
o glacê confeita um infindável
rebanho de ovelhas camaleoas
 
Inútil ao Doceiro dos ares,
a  fôrma definitiva dissolve-se
no azulejo atmosférico do bolo
 
Por baixo, uma camada
de caudaloso chocolate
cobre os morros
 
Anilinas e vitríolos salpicados
desenham líquidos e vegetais
n o verde preguiçoso
 
       e bocas famintas por todo lado
       sequer imaginam tamanho banquete
       para os olhos de poucos
 
Angélica Torres Lima, poetisa goiana, natural de Ipameri
Poema transcrito do livro “Luzidianas”, Coleção OiPoema
Sinhá Produções, educação e cultura

 
Encantamentos
Por Álvaro Alves de Faria
 
A poesia é, hoje, o campo mais fértil para aventuras inconseqüentes de alguns. Mas mesmo diante dos escombros, o sol nasce de vez em quando. Neste caso, o sol chama-se Angélica Torres Lima, poeta brasileira, de poesia honesta, cultivada cuidadosamente não se sabe se na dor ou no encantamento, ou nas duas coisas juntas, amalgamadas. Angélica já escreveu um livro que tem o título “O poema quer ser útil”, por sentir essa inutilidade da palavra poética tantas vezes aviltada. Pois o poema é útil à vida, ao homem, às plantas, aos bichos. O poema é útil, mesmo sendo escassa a poesia que, no entanto, envolve tudo, basta saber olhar, como ela sabe.

Este livro “Luzidianas” é uma afirmação poética do encantamento e também da dor. Uma mulher poeta que sabe lidar com as palavras nessa árida paisagem que tantas vezes se mostra ferida. Estes poemas têm a elaboração dos que conhecem o oficio de escrever e de colher a poesia ainda possível num tempo de pedras e desenganos. Angélica Torres Lima pode chamar a  manhã de fevereira, porque nela vive essa manhã que se abre e anoitece em si mesma, com uma poesia que é puro despojamento, como se falasse com duendes e os anjos tantos que habitam seus poemas e voam em si mesmos as incertezas e os rumos do encanto. Mas, antes de tudo, a poeta é uma mulher e nessa condição de mulher faz sua poesia deixando as marcas de sua boca, de seu silêncio, suas ausências, seus receios, anseios, a dúvida de atravessar o tempo. São poucos os que voam na floresta da noite, mas ela voa. Ela sabe voar com asas invisíveis:
 
Saio pela porta do alpendre
com um romance nas mãos
 
É assim essa viagem em que se mostra, aberta, às vezes sozinha. Mas o poema existe e existe a poesia nessa palavra que oferece em quase preces e talvez súplicas tão íntimas que se adivinham, não se mostram. A poesia de Angélica Torres Lima é também de segredos. É também um conto/poema, como em “Cena brasiliense”, uma história com começo, meio e fim. Ela é uma poeta que pode sentar-se “na varanda para ver os meteoros do crepúsculo”. Ela pode amargurar-se diante de si mesma ou de um espelho num poema de amor, com as palavras possíveis que esse mesmo amor exige, para que possa existir no ser e no poema: “Ainda ontem eu estava muito dolorida”, diz um verso de um poema que se percorre em si mesmo, como a sair de seus dedos, sílaba por sílaba, o que se vê em todo livro, da palavra dura à palavra lírica, como ode, como haicai, como o verso que se encerra em palavras breves, mas que deixam marcas na pele, talvez um soluço, como no poema “Fuga sobre o Sena”:
 
Ai, água, que escorre
que lava, que leva
eleva, te peço
a treva
do poeta sem cova
e a dissolva, bondosa,
na aura da nuvem mais bela.
 
Está no fundo dela o que coloca entre parênteses num poema, como se a situar todo seu livro e toda sua poesia: “delírio meu/por febre incendiada/de infância”. Os poemas invadem então essa intimidade da palavra rara em poemas raros, mesmo que o sol esteja à morte, mesmo que se procure “no outono o céu de primavera”. O que encontra a poeta? Encontra “o fado traçado a punhal na areia mais cálida”. Esse o verso, a palavra, o poema, a poesia. Ao lado de anjos, a poeta caminha pés descalços no árido deserto de acenos e diz que lobos uivam bachianas no seu peito e que a “nomeação do mundo é obra muito extensa”. Mas o alvo, como escreve, “é o cravo a ser do peito arrancado”. Como a arrancar-se de si mesma o verso que brilha no que existe de poesia, a descoberta dessa palavra que fere e, ao mesmo tempo, é de afeto.

É verdade que a escuridão avança, como diz ela num poema. E avança célere, especialmente na poesia que, ferida tantas vezes, insiste em viver. E prova dessa vida é este “Luzidianas”, a percorrer labirintos e ruas sem saída, com o verso cultivado no esmero, no zelo dos que respeitam a poesia como prece existencial. Uma prece também à solidão aqui guardada como se num cofre de veludo, com a chave escondida. O pombo-correio que levava o seu verso no bico foi vítima de uma bala perdida no peito. Essa a imagem vermelha que escorre, desse pombo e dessa poesia.

A leitura desta poesia de Angélica Torres Lima representa uma viagem pelo lúdico, pelo que existe ainda de sonho, pelo poético, pelo lírico. Uma viagem que permanece em algum lugar, no sentimento da pele e da alma, porque a poesia vai além dessa paisagem que nos oferece e nos doa. Uma poesia que se faz nascer sempre, a cada instante, a cada palavra, no gesto para sempre perdido, mas refeito sempre na palavra mais funda, a que vem de dentro, onde o poema habita e se revela.

Texto transcrito do livro “Luzidianas”, de Angélica Torres Lima. Coleção OiPoema

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BICICLETA PRA BRASILIA DO CERRADO

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BICICLETA PRA BRASILIA DO CERRADO

Na praça a trança
Voa no vento quente do Cerrado
Seco do Planalto de Brasília
Praças grandes traziam armadas amar aradas
Flores amaralindas
Folhas amarlindadas
Alguns beija-flores são azuis, brilhantes delicados
Aveludadas flores cachos casas rosas amareladas casas
Terra traço e grafite brilho e sol
Chapéus botas d’águas longe das catedrais
Praça porque pára praça porque pára parque
Cidades sitiadas armadas amarradas
Via bicicleta não precisa ser atleta.
 
Fabiane Prado Silveira, ou Bic Prado, poetisa brasiliense.
Poema transcrito do livro “Poemas de um livro verde”, coleção OiPoema

 

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Na Rodoviária com Augusto

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Céu azul.  Plataforma rodoviária.  O homem pedia esmolas, agora vende balas. Adaptou a bandeja à cadeira de rodas. Suas pernas, seu abrigo, seu rosto antigo em minha memória.
Do outro lado, um bando de mendigos – quase gente, quase bicho. Aconchegam-se,  em farrapos. A fome de pés descalços. Destino embrulhado em trapos.
No lixo, homens e pombos executam seu oficio. Limpar o lixo, catar o lixo, comer o lixo. Depois, cuspi-lo. Seu cheiro acre e putrefato.
“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável…”
Poeta Augusto dos Anjos, em teus Versos Íntimos, quantos demônios te assombraram os anos?
“Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera…”
Reflete seu vômito o Poeta do Eu. Irmão dos coveiros, legistas e P
rometeus. A miséria humana foi tua matéria-prima, Dostoievski da caatinga. Da medicina, retiraste as rimas e os duros golpes dos delírios teus.
“…Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja…”
Sentencia o poeta obtuso. E o peito chora e a alma obscura implora misericórdia aos céus. A tragédia humana mostra a sua cara no tumor da imagem impressa no papel.
“…Se alguém causa inda pena a tua chaga.
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
A rodoviária é feia. Brasília pelo avesso. A vida cobra seu preço.
 
·         Versos Íntimos é o nome do soneto, citado entre aspas, do poeta paraibano Augusto dos Anjos, autor do livro Eu e Outros Poemas.
Texto transcrito do livro “Diário da Poesia em Combustão”, de Amneres, Coleção OiPoema.

 

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SAQUEI QUAL É A TUA, BRASÍLIA

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SAQUEI QUAL É A TUA,  BRASÍLIA

Tu não tens vielas, como as cidades históricas mineiras ou
as favelas das grandes cidades. Nem por isso te mostras à
vontade aos forasteiros. E é irônico, pois foram eles que
te construíram. Tu não abraças quem chega. Olha à distância.
Do alto das torres do Congresso. Esperas sempre
que se faça o primeiro gesto.
 
Tuas avenidas largas e o desenho do avião, porém, enganam
os desatentos. É preciso olhar de perto. Tu tens
muitas almas. Qual delas é capital? A dos pioneiros ou
dos concurseiros? A dos que moram em Águas Lindas
e trabalham no Plano Piloto ou a dos que moram no
Plano e nunca foram a Águas Lindas? A dos que pegam
ônibus em Valparaiso ou a dos que vivem no Lago? A
dos que patinam no Parque da Cidade ou a dos que andam,
apressados, na W3 Sul?
 
Quem sabe é a dos meninos que fumam crak na Rodoviária?
Ou é a das meninas que freqüentam o Gilberto Salomão?
A dos funcionários públicos? A dos triatletas?
A dos funcionários atletas? A dos donos de lojas na
Cidade do Automóvel? A dos produtores japoneses de
hortaliças? Ou a dos chineses que moram no Cruzeiro?
A dos que se refrescam na Água Mineral ou a dos que
voam para a Bahia no Carnaval?
 
Ou é a das embaixadas? A da UnB? Será que é a das
superquadras, do Beirute e da CNBB? A do Vale do
Amanhecer? A da Sara Nossa Terra? A dos bispos da
Universal? A dos goianos em Brasília ou dos brasilienses
em Goiás? A do cenário de fundo do Jornal Nacional?
A do boom imobiliário ou a da greve dos rodoviários?
A das avenidas ou a das filas de carros?
 
Seria a cidade dos ôxes, vixes e nossas senhoras? Ou a
dos porras, veios e caralhos? É a da chuva ou é a da seca?
Do vermelho da terra ou do verde das árvores? Do azul
do céu ou do cinza do cimento? A dos condomínios
irregulares? Do Conic? Da biblioteca sem livros? Do
Clube do Choro? A do Gog? A dos Três poderes ou a
dos desempregados?
 
Pensando bem, saquei qual é a tua, Brasília. Descobri a
razão de seres assim, distante, à primeira vista. É porque
quanto mais íntimos nos tornamos de ti, mais percebemos
que por trás do concreto, no arrabalde das tuas
linhas retas, moram tuas contradições tupiniquins. São
muitas Brasílias, Brasília, porque são muitos os Brasis.
Tu és, para mim, a típica cidade brasileira.
 
Liziane Guazina, poetisa gaúcha.
Texto transcrito do livro ”50 anos em seis: Brasília, prosa e poesia”, Teixeira Gráfica e Editora

 

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qual o livro sagrado da mitologia can danga?

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qual o livro sagrado da mitologia can danga? por que
toda a mitologia can danga acontece em torno da
construção de Brasília, não incluindo revelações ou
ensinamentos espirituais? por que os deuses rivais, dos
cratas buro, escolheram a praça dos três poderes
como olimpo? por que JK não é considerado o filho de
deus, que morreu atropelado por nós para que
pudéssemos atravessar o eixão sem olhar para
os lados?
 
Nicolas Behr, poeta natural de Cuiabá
Poema transcrito do livro “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”, antologia organizada por Salomão Sousa

 

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A Imposição do Poema

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A Imposição do Poema
Dissimulado,
o poema se impõe:
aceso o coração,
iluminada a rua,
o poema dá as caras
nas frestas das janelas,
põe as manguinhas de fora,
cospe no prato
e, atrevido,
vai realizando,
meio tonto, meio sonso,
sua esfinge de cal,
sua natureza de vento,
sua estrutura de nada.
 
Inútil, o poema
compõe disfarces:
armada a cilada,
preparando o bote,
o poema primeiro dorme,
descansa seu corpo
de éter, sua alquimia,
na primeira pedra,
ao menor descuido,
para depois,
ágil e confiante,
estabelecer-se inteiro
na superfície rasa
do papel vencido.
 
João Carlos Taveira, poeta mineiro, natural de Caratinga.
Poema transcrito da antologia “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”
Organização de Salomão Sousa, Thesaurus Editora

 

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Menino presidenciável

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Menino presidenciável
(Fragmento)

 
Disseram-me: Homem não chora.
E eu, que queria ser herói, doutor, um grande aviador,
um famosíssimo escritor ou simples presidente,
perdi meu coração na aurora.
 
Eu ia ser presidente do Brasil
reeleito dez vezes
(depois, com a barba igual à do imperador
ia ser professor catedrático do colégio Pedro II
e ia construir uma catedral submersa
na Baía de Guanabara
onde só tocaria música de Bach, Haydn e Haendel
e uma estrada direta do Rio e Ubajara
só não sonhei Brasília, minha última namorada
e seus argentinos eucaliptos
e seus donos argentários
e seus espaços planetários
e suas sebes de ciprestes
separando esteticamente
os proprietários dos outros).
 
E como ainda seria pequeno
teria um carrinho do parque de diversões
como limusine presidencial
e em vez de moto, dois cavalos normandos
adestrados para trotar em ritmo de valsa
com penachos sobre as crinas
e uma baliza na frente, pernas de fora
fazendo acrobacias
pompa e elegância adequadas
a meu terno branco de primeira comunhão
com calças curtas e tênis de lona
alvejados com giz
(acho que, como presidente,
poderia comprar sapatos de verniz).
(…)
 
Esmerino Magalhães Jr, poeta natural do Rio de Janeiro
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Asas

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Asas

Brasília:
o chão a refletir o sol a clarear o céu
Esse vazio me enche.
 
Brasília:
o céu a refletir o chão a clarear o sol
Esse vazio me prende.
 
Brasília:
o sol a refletir o céu a clarear o chão
Esse vazio de chão.
 
Brasília:
o chão, o sol, o céu…
Esse vazio na gente.
 
Brasília:
por entre as quadras do grande pássaro
pulsam-me asas
Asas.
 
Sids Oliveira, poeta brasiliense
Poema transcrito do livro “Fincapé”, Coletivo de Poetas, Thesaurus Editora

 

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PostAis Brazilienses de um Neocandango

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PostAis Brazilienses de um Neocandango


Atropelado de Paixão
 
Um dia ele foi recitar poesia no Eixão
e quase morre
atro
      pelado de paixão
O brasiliense correndo no Eixão
alcançará a inflação?
 
Qual é a sua ascensorista da emoção?
Qual é a sua maioral?
 
Táqui  procê, oh!
manda-chuva do império!
Cagão!


Ela Pelo Avesso
 
Na Esplanada dos Mistérios
Toda Dasp toda Dasp eu te encontrei
 
Marcas de carimbos em tua face
Números de processos no teu ser
 
Toda Dasp
                                              toDasp
                                                           toDasp
 
Extinguiram minha URP e eu gritei berrei
Abaixo o rei! Abaixo o rei!
 
E na Esplanada SeMistérios
Toda EMFA
           toda EMFA
                       eu te desindexei
 
Menezes y Morais, poeta piauiense.
Poemas transcritos do livro “Fincapé”, Coletivo de Poetas, Thesaurus Editora.

 

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Coisa de Cinema

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Coisa de Cinema
 
Brasília, Brasília é um vivo poema
É coisa de
é coisa de cinema.
 
Brasília, Brasília ilha da fantasia
Mas tem, mas tem Poesia.
Brasília, Brasília mãe e filha
construindo pontes
Pontes da Democracia.
 
Tem Água mineral na Asa Norte
Os mirantes de Sobradinho são fortes
Tem Parque da Cidade na Asa Sul
No Plano Piloto o céu é sempre azul
Na Praça do Relógio vencemos o óbvio
Na Praça do DI em Taguatinga enterramos o ódio
No Gama antigo e novo produz o povo
Construiremos 50 anos em 5 de novo!
 
Em Ceilândia Morro do Urubu é passado
A paz e o amor de rostos colados…
Em Planaltina cachoeiras te convidam
A recarregar energias junto dos amigos!
 
Brasília, Brasília é um vivo poema
É coisa de, é coisa de cinema.
 
Sempre tem banda de rock
Sertanejo, forró, DJ e pagode!
Tanto faz, Lago Sul ou Norte
Quem vive na capital tem muita sorte!
 
UnB, Escola de Música, Clube do Choro,
Pontão, autódromo, Teatro Claúdio Santoro
Igrejinha, torre, gayrute e starnight
Não há vontade aqui que não se mate!
Octogonal e Park Way gente bonita
Quem vê Águas Claras bate e fica!
Samba em Samambaia, qualidade de vida
no Bambam e Candangolândia
Não é exagero se chegarmos a Brazlândia…
 
Brasília, Brasília é um vivo poema
É coisa de
é coisa de cinema.
 
Feira do Guará é incrível
Como a Aruc no Cruzeiro inesquecível
Passamos por Catetinho e Santa Maria
Não conhecer Brasília é mesmo uma fria…
 
Mesmo de longe é linda a Granja do Torto
QG no Setor Militar Urbano é um colosso…
Recanto das Emas também é dos poemas
Vila Planalto e Paranoá, nossa beira-mar…
Tem comércio e prainha
Perto de Brasília a cidade-luz é fichinha…
 
Pôr do sol em São Sebastião é estonteante
como na Ponte ou Memorial JK logo adiante…
 
Brasília, Brasília é um vivo poema
É coisa de
é coisa de cinema.
 
Hélvidio Nunes de Barros Neto , poeta e artista-polemista.
Poema transcrito do livro “Fincapé”, Coletivo de Poetas – Thesaurus Editora

 

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Brasília, Minha Casa

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Brasília, Minha Casa
 
Uma homenagem pelos 50 anos da Capital
 
Foi difícil amar Brasília, confesso.
Seu jeito de princesa pós-moderna,
tão longe da minha pequena cidade!
Suas retas sisudas,
embebidas em cimento queimado,
como se quisessem petrificar o horizonte.
Algumas curvas…Sim,
mas de aparência tão gélida,
que eu conseguia sentir seu frio na retina.
Mas pouco a pouco
suas facetas foram se mostrando
e eu fui me encaixando na textura do cerrado
e sendo tomada por um céu tão azul
que custava caber na palavra.
E os ipês então?
De fazer inveja aos girassóis.
Foi aí que me rendi
e hoje Brasília é a minha casa!
 
Basilina Pereira, poetisa mineira, natural de Ituiutaba.
Poema transcrito do livro "Fincapé", Coletivo de Poetas – Thesaurus Editora.

 

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INQUIETUDES DE HORAS E FLORES

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

INQUIETUDES DE HORAS E FLORES

desconstruo-me  neste cerrado de concreto construído.
entre as linhas suaves arquitetadas vejo o horizonte ao
longe.
respiro a aridez do clima em meio ao vazio dos espaços
entre-quadradados.
planos altos, centrais de costumes mesclados de todas as
partes do país.
danço a dança do frêmito entrecortar de palavras
moldadas,
enquanto espreito a inquietude dos dias e das noites
largos:
caliandras, cipós-de-são-joões, quaresmeiras, brincos-de-princesa, sempre-vivas.
(Raia-me fundo o sonho tua fala, 2007)

Marcos Freitas, poeta piauiense, natural de Teresina.
Poema transcrito da “Micro-Antologia”, Série Escritores Brasileiros – O Livro na Rua, Thesaurus Editora

 

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