FEIRA DE CEILÂNDIA (SENZALA)

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A feira de Ceilândia te oferece o que quiser
comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
E o cinto da moda

Sinto vontade, grande necessidade de
comprar
Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra
arrasar
Estilo colegial, brega, veste mal, vamos parar
(…)
Mas o que você precisa mais, na feira não se
pode encontrar:
Razão, consciência, senso, inteligência
Uma cabeça pra pensar
Isso só no shopping lá do centro você vai achar
Se tiver dinheiro pra comprar
Boa aparência pra entrar
(…)

Ellen Oléria
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

UMA CANÇÃO PARA NIEMEYER

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UMA CANÇÃO
PARA NIEMEYER

A minha vida é sempre assim…
É como a flora do cerrado…
São galhos tortos postos
sobre estes troncos torturados…
Mas preparei flores para ti…
E frutos bem adocicados…
Cajus, cagaitas e pequis…
Mangas colhidas com cuidado!

Retas perseguem setas e rotas nunca dantes experimentadas…
Eu vi um ângulo impossível furar o vão e virar escada!
Era uma mão ou era uma asa aquela concha tão desvairada?
E aquele vão onde passam vans…? E aquele voo por sobre o nada?!

E aquele círculo em espiral e aquela curva tão concavada!
E olhem só que palmas esguias! E estas formas enfileiradas…
Esteta louco! Não vê que cai! Este experimento vai dar em nada!v
Vejo que ri atrás dos bigodes e da prancheta endiabrada!
(…)

Paulinho Dagomé
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

Arquitetura Nascente

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(…) Mansão. Castelo. Catedral.
Marmórea manhã subindo
Arbórea ascenção votiva Cingindo a
cidade imortal.
Volume a se conter bem perto,
Espaço a se expandir tão longe,
Mar aberto a proa do navio,
Trens Coleando rampas nos montes…
Ponte pênsil: raiz aérea
Transpondo a beleza abissal,
Avião a jato projetando
O abismo em vôo monumental.

Joaquim Cardozo, poeta pernambucano

Improviso Em Trequada

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Cevs Volpi, poeta carioca
Jóta Stilben, poeta brasiliense

UM RIO CHAMADO CORAÇÃO

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O rio não responde

quando lhe pergunto onde vai,

ele de meu coração não sai.

Meu coração é feito dessas pedras

que pelo rio vão rolando

como lágrimas

daqueles que o perderam.

Meu rio é feito dessas lágrimas

que salgam o mar de lama

que nos cerca.

Mas meu mar não é azul nem verde

ele tem a cor das raízes

das árvores que no leito do rio

vão tombando.

E com minhas lágrimas

meu rio vai secando

e meu triste coração murchando.

 

Nicolas Behr, poeta natural de Cuiabá.

Poema transcrito do Jornal “Ecoação”

BRASÍLIA

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Beleza que contorna a norma brusca, e renasce

Se torna inumerável de vida

Faz do céu uma plataforma azul

Onde mora o mistério do simples e infinito.

 

Em anos, dias mais belos e puros

Dançarei nos seus frágeis outonos

Cúmplices de seus seios brancos

Sem medo ou fúria de falsos donos

 

Mas nessa primavera de tristezas,

Acalento todas nossas saudades desatinadas

ao som de todo nosso silencio amargo

Brincando fazer tuas esfinges de sol coroadas.

Amo mesmo tudo que não posso tocar, mas que me toca sem sentir.

Thais Lima Rocha

Poema transcrito do Concurso Nacional de Poesias

A marcha do Apocalipse

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Jogaram os homens lá fora

Jogaram os homens na rua

Jogaram as mulheres lá fora

Jogaram as mulheres na rua

 

Nasceram meninos lá fora

Nasceram meninas na rua

 

Jogaram os detritos lá fora

Jogaram os alimentos na rua

Jogaram os farrapos lá fora

Jogaram as vestes na rua

 

Nasceram mendigos lá fora

Nasceram mendigos na rua

 

Jogaram a justiça lá fora

Jogaram o marxismo na rua

Jogaram a fome lá fora

Jogaram a luta na rua

 

Nasceu a miséria lá fora

Nasceu a desgraça na rua

 

Jogaram Jesus lá fora

Jogaram Barrabás na rua

Jogaram o amor lá fora

Jogaram o ódio na rua

 

Nasceu a vida lá fora

Nasceu a vida na rua

 

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.

Poema transcrito do livro “Corpos de concreto”

PALAVRAS À CIDADE LIVRE (Hoje Núcleo Bandeirante)

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Há trinta anos,
quando aqui cheguei,
no Planalto Central,
em Brasília,
ainda te encontrei
intacta,
na tua verdade pioneira,
na tua realidade rude, mas fecunda:
áspera imagem
do “far-west” brasileiro,
ó Cidade Livre!
Livre! Haverá adjetivo
com mais oxigênio e gloria?
Tuas ruas comprimidas
de rústicos chalés,
barracos-bares,
lojas atulhadas de mercadorias, bugigangas,
em improvisadas armações,
o lôbrego, úmido mercado,
contudo,
tão cheio de produtos da terra
e sombrio pitoresco,
o restaurante original
com culinária selvagem,
que ostentava
todas as carnes de caça do Brasil:
até carne de jacaré ou de cobra…
Hoje estás mudada:
despiste o traje
semibárbaro,
e te mostras garrida e urbana
– mais que urbana, moderna –
com a toalete higiênica e pálida
da Civilização!
Estás destinada ao Progresso:
a sorte que não pára.
Que traz todos os presentes
e também o seu oposto,
porque a Lei da Vida
é sempre esta:
falhar, enfrentar dificuldades,
antes de se criar o Bem…
Chamaste hoje Núcleo Bandeirante.
Uns quiseram te conservar
em redoma de museu,
outros simplesmente te destruir
(haverá algo mais fácil – e terrível –
que a destruição?).
Bandeirante é vocábulo
que se ajusta bem a ti,
à tua origem,
a teu destino de constante mutação,
de mudança para o engradecimento…
Ah! o velho Brasil tradicional,
de imensas propriedades e da escravidão,
que se consolidou à custa do heroísmo
e da ambição
(mas também da violência,
da opressão e de nefandos crimes)
será assimilado
pelo Brasil Novo
da Democracia,
do Povo Vencedor,
do Novo Patriotismo,
que é fraternidade viva, carnal,
e não há símbolos abstratos
e palavras grandiloquentes,
sem sangue, sem dor, sem amor,
e tu, Cidade Livre ou Núcleo Bandeirante,
és uma célula viva, resplandecente,
do Brasil Novo,
que explode em Mato Grosso, Goiás e Pará,
Rondônia ou Roraima,
que se levanta e assimila
velhos Brasis,
cristalizados, superados ou carcomidos,
pois o Progresso é a Lei da História!

Cassiano Nunes, poeta paulista, natural de Santos
Poema transcrito da antologia “Brasília: Vida em Poesia”, de Ronaldo Alves Mourinho

OS OVOS DE BRASÍLIA

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Clarice Lispector escreveu:
“A luz de Brasília fere o meu pudor.
A solidão me deixa perdida.
O ar seco suga a minha pele.
Sugiro que coloquem, no centro, este símbolo:
um grande ovo branco”. Estas setas
não picaram a nova Capital,
mas  gongaram a minha descoberta:
os ovos que Brasília nos oferta.
O de codorna, no Memorial JK.
Em parêntese: Juscelino, novo
Colombo, botou o cerrado em pé.
Deve ser de dinossauro o principal,
servido em duas metades,
na mesa do Congresso Nacional.
O de pássaro da fé,
ao lado da Catedral.
O de cobra,  no Instituto Histórico
e Geográfico, enterrado no tempo.
Os dois bem duros para cozinhar,
na igreja Santa Edwiges,
padroeira dos endividados.
A casca fina só na aparência,
pois com proteção divina,
na Assembleia de Deus.
E o pedaço da casca que restou,
no Museu do Índio.
Aquece esta ninhada, de Dom Bosco
a voz premonitória: “E nascerá
ali a nova civilização”,
que alimentará o mundo obviamente
à força de seus ovos.
Por agora, Brasília aberta aos ventos
ouve os gemidos de reivindicação.
Sua luz assenta o foco na verdade.
Sua solidão pensa o futuro da dor.
E a seca ovoide enfim se quebrará
na omelete do amor.

Berecil Garray, poeta gaúcho, natural de Passo Fundo
Poema transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”, antologia de Ronaldo Alves Mousinho

Três poemas de Heitor e outros

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A Alain Robbe-Grillet
 
Eu converso
com minha
adega
com vinhos
          preciosos
Converso
com meu
guarda-roupa
cada camisa
cada calça
é um grande
          papo
Converso
com sandálias
e sapatos
e com minhas
            meias
Não gosto
de gravatas
por isso
deixo-as
escondidas
no covil
das etiquetas
Converso
com o chuveiro
e com o
vaso sanitário
A pia
sem dúvida
é a grande
estrela
do banheiro
Converso
com a estante
povoada
de grandes
      astros
Verdadeiro
universo
de deusas
e Deus
Converso
com as
frutas e
com todas
as manifestações
da natureza
Converso
com o lixo
industrial
com o maior
respeito
Enfim
converso
com tudo
que existe
As pessoas
não são tão
importantes
como pensam
com seus
         egos
monstruosos.
 

CONSISTÊNCIA

À memória de Rubem Valentim
 
Meu lirismo está repleto
de amor
Meu amor consiste em ser fiel
às varrições do mundo
Cada dia ergo uma nova ética
ao momento maior do meu coração
Meu cérebro é uma usina ardente
intransigente com leis
legislando o bloqueio dos homens
Meu código é o poema diário
que escrevo com eles
sejam eles quem forem
Meu poema é um poema vigoroso
porque está farto
de formas esquálidas.
 

PÁSSAROS

À memória de José Godoy Garcia
 
Nunca
deveríamos temer
o nunca mais
 
o desprendimento
nos faz pássaros
voando
 
eternamente
na mente
do cosmos.
 
Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.
Poemas transcritos do livro “O Cão Selvagem”, Siglaviva

Chuva de caju

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Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Por que eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.
 
Joaquim Cardozo, poeta pernambucano.

Bem no fundo

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Bem no fundo
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
 
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela – silêncio perpétuo
 
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
 
mas problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminski, poeta paranaense.

Garota do Parque

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Toda vez que
estou no parque
e você passa
no seu compasso de garça
todo parque se disfarça
em farta passarela
tudo pira tudo paira
a tua espera
do pedalar da sandália
ao coração da donzela
 
sopra o verde
sopra o parque
sopra o tempo
só para ela
toda ves que você parque,
Já era…

Luis Turiba, poeta carioca-brasiliense.

CONCLUSÕES DE UM NÁUFRAGO – A PARTIR DE UM DOMINGO ERMO

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Tem razão aqueles para quem Bras-Ilha até hoje pouco difere de um grande descampado, arte-finalizado e traduzido por um silêncio eloquente. O domingo que passou reforça a intuição que os canaviais e réveillon desertos já ensejavam: que Brasília é uma cidade alugada. Algo como o oposto daqueles municípios de regiões me-tropolitanas, batizados de cidades-dormitórios, que dão à luz, diariamente, um exército para trabalhar na respectiva capital – exercito que retorna à origem, moribundo e desfalcado, toda santa noite. Assim, por oposição, esta urbe inaugura a categoria cidade-escritório.
Arrisco uma imagem: Brasília é um sitio alugado para trabalho, para um seminário interno, de planejamento estratégico, com duração de quatro anos. Ao fim do período, conclui-se também o contrato de aluguel. Mas ele é eventualmente renovável.
na praça dos três poderes
existe um buraco, pequeno e raso,
formado pela falta de uma pedra,
dessas portuguesas, brancas,
de calçadas
 
o buraco fica perto do meio-fio
que dá  pro palácio
 
buraco que celebro neste poema
 

*
eu
teu eterno ex-poeta oficial
com estátua falsa
nome errado
pedestal caído
e sem placa
na praça-do-buriti-morto-
duas-vezes-favela

 
Pedro Biondi, poeta natural de São Paulo.
Poema transcrito do livro “50 anos em seis: Brasília, prosa e poesia”

Traição

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Teria o traço fingido
do funcionário público
escrevendo este poema?

Mão esquerda ao queixo
olhar de soslaio
compenetrado

o trabalho embaixo
escondido
fico aguardando a obrigação
comigo mesmo

demissão voluntária
atrás de um soneto,
apaixonado brinquedo
de trair a pátria.

Marcelo Baiocchi Villa-Verde, poeta goiano, natural de Goiânia.
Poema transcrito do livro “6 títulos, um poema”

Veraneio Vascaína (poesia punk)

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“Se eles vêm com fogo em cima,
é melhor sair da frente
Tanto faz, ninguém se importa se
você é inocente
Com uma arma na mão eu boto
fogo no país
E não vai ter problema eu sei
estou do lado da lei

Cuidado, pessoal, lá vem vindo a
veraneio
Toda pintada de preto, branco,
cinza e vermelho
Com números do lado, dentro
dois ou três tarados
Assassinos armados,
uniformizados”

Aborto Elétrico, banda brasiliense

Os minotauros

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Entre as muralhas do labirinto
multidões de seres intermédios
cruzam-se sem cessar.
São cegos – não podem ver-se.
São surdos – seus mugidos
perdem-se para sempre, inauditos
Entre as muralhas do labirinto.
Nós, Édipos
Não perguntes à Esfinge
que espécie de animal és tu.
Mira-te no espelho
e prepara os instrumentos
para a execução dos olhos.

Poemas de Tristão Botelho, poeta mineiro, natural de Paracatu.
Transcritos do livro “Metamorfoses”, 2010


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