Cassiano Nunes

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Cassiano Nunes informa, tomado por mal encoberta nostalgia: “Sou de Santos”. E discorre sobre a população (a local e a flutuante) do cais nervoso, a ecoar passos e mais passos, envolto em burburinhos: “…marinheiros,/estrangeiros,/aventureiros”. Ele é de Santos, sim, nasceu embalado pelas vagas litorâneas, “como Ribeiro Couto”, e correu mundo. Na maturidade, a vida o transporta, por fim, à multissecular quietude do Planalto Central. Mas não se perde, nem regressa. Os “terrenos baldios” da Asa Sul tomam o lugar da amplidão do oceano, e “os guindastes das construções” comparecem como sucedâneos daqueles que, com odor de sal e maresia, ficaram junto ao cais de sua terra. O decano (depois de José Godoy Garcia, de 1918) que se tornou, dentre os veteranos, o mais popular dos poetas brasilienses, não é, porém, apenas de Santos… Sua “Ode a Oscar Niemeyer” enfoca “A arquitetura extraordinária” do “gênio inconteste,/com os seus mestres renascentistas”. E daí salta para o franco e inocultável engajamento, inusitado em sua lira habitualmente em sintonia com o amor, por vezes incomodo, constrangido, constrangedor, maldito, mas sempre expresso em boa poesia, sempre amor, queiramos ou não queiramos. (O poeta está presente em Poemas do amor maldito, de Ayala e Damata.) Cassiano, então participante, ergue a voz com exaltação e eloqüência contra os “(…) mitos/(…) da propaganda e da droga, (…)” e se solidariza com “(…) os nossos patrícios/desamparados (…)”
 
Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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