Candango, pioneiro, brasiliense

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Candango,
pioneiro,
brasiliense
Por Conceição Freitas
 
São dois os gentílicos de Brasília, candango e brasiliense. Some-se a eles um quase-gentílico, pioneiro, que tem sentido próximo no dicionário da capital inventada. Cada um tem sua singularidade. Há pioneiros que não gostam de ser chamados de candangos – ou, pelo menos, não gostavam, ao tempo da construção de Brasília.
Candango era o peão de obra, o oreia-seca que pelejava até 18 horas seguidas. Usava chapéu, calça e camisa de tecido, botina puída e, muitos deles, carregavam um canivete e um caneco de alumínio amarrados ao cinto.
Pioneiro era o arquiteto, o engenheiro, o funcionário da Novacap ou das construtoras, o comerciante da Cidade Livre. Mas, lato sensu, pode designar quem chegou à cidade nos primeiros anos. Embora, entre os mais antigos, haja uma disputa. Para alguns, pioneiro é aquele que chegou antes de 1960. É tanto que há duas entidades que representam os que aqui chegaram no começo dos tempos: a Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília e o Clube dos Pioneiros de Brasília. A primeira só aceita quem chegou até 1960. O segundo é mais elástico.
Candango trazia o ranço etimológico. Era o nome que africanos escravizados davam aos portugueses. Segundo Nei Lopes, em Cuba, o termo ‘candanga’ significa “bobalhão, mentecapto, doentio, enfraquecido”.
Desde que ficou consagrado pelo uso, os dicionários acrescentaram a nova acepção ao verbete ‘candango’. Qual seja: “Nome que designa cada um dos operários que trabalharam nas grandes construções da cidade de Brasília, geralmente oriundos do Nordeste do Brasil”. Por extensão, “cada um dos primeiros habitantes de Brasília”.
Como a realidade é muito mais rica e mutante que o conteúdo de um dicionário, candango também designa o nascido em Brasília e aquele que habita a cidade. Tudo depende do gosto do freguês. Se alguém diz que é candango, logo se entende que ele é da capital do país.
O gentílico brasiliense é mais palatável, porém destituído da força presente em ‘candango’. Brasiliense é o natural e/ou habitante de Brasília, e de Brasília de Minas e de Brasiléia, no Acre. No século 17, brasiliense era gentílico do Brasil. Depois, o nascido no país passou a ser denominado brasileiro.
Brasília é uma das unidades da Federação com dois gentílicos consagrados – candango e brasiliense. Santa Catarina é outra (catarinense e barriga-verde). Amazonas, idem (amazonense e baré). Espírito Santo, ibidem (capixaba e espirito-santente). E Rio Grande do Norte (potiguar e rio-grandense-do-norte). E ainda Rio Grande do Sul (gaúcho e rio-grandense-do-sul).
Vê-se que gentílico não derivado do nome da unidade da Federação é mais forte, mais pleno de significado. Em Brasília, porém, há beleza, sentido e viço nas duas formas, candango e brasiliense.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 07/04/2015

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