Canção da fábula inicial (Brasília)

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Canção da fábula inicial (Brasília)
 
Só havia noites e manhãs.
Com o avançar dos dias
as máquinas chegando.
Não se podia saber
mas o certo é que elas
tinham uma importância
maior que os homens,
e também a madeira.
Havia sulcos já cortes na crosta
angustiada; cerrados, caminhos,
estradas, árvores partidas,
terra solta, animais fugindo.
As máquinas sempre chegando.
Os caminhões de madeira
e gente.
Com espaço de alguns dias
a terra na sua superfície
lembrava restos de tempestade.
Era chão batido, chão sulcado, chão ferido.
Mas ainda não era nada. As
máquinas devoravam o chão, cortavam riachos,
trituravam árvores.
Noites de negrume estranho.
Os longes e as tardes coloridos,
mas ninguém olhava. As casas de madeira
apareciam. Parca, a vida que nelas começava;
mas começava. A terra
podia estar aceitando o domínio do homem,
mas ninguém olhava. Nem a dor
de um e outros se pressentia.
Os homens, tanto como não se esperava,
chegavam; vinham, apareciam
mais do que as máquinas e utensílios,
não eram previstos.
Nem pensavam no velho e no muito velho
e novo corpo, nem
se avaliavam. Eram iguais
aos retorcidos troncos do cerrado.
As roupas iam-se desfigurando
e não percebiam, e as pequenas feridas
apareciam na pele e não eram vistas e cuidadas,
nem as mãos e os cabelos
eram lembrados.
Em tudo começavam um movimento,
fora ou dentro da hora,
porque tudo era lícito
tudo estava fora do lugar,
criava e recriava a vida.
As casas aumentando,
mas nelas ruídos não se ouviam,
só a vida no largo chão de sol e lua.
 
(continua amanhã)
 
José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 


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