Canção da fábula inicial (Brasília)

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Só havia noites e manhãs.
Com o avançar dos dias
as máquinas chegando.
Não se podia saber
mas o certo é que elas
tinham uma importância
maior que os homens,
e também a madeira.
Havia sulcos já cortes na crosta
angustiada; cerrados, caminhos,
estradas, árvores partidas,
terra solta, animais fugindo.
As máquinas sempre chegando.
Os caminhões de madeira
e gente.
Com espaço de alguns dias
a terra na sua superfície
lembrava restos de tempestades.
Era chão batido, chão sulcado, chão ferido.
Mas ainda não era nada. As
máquinas devoravam o chão, cortavam riachos,
trituravam árvores.
Noites de negrumes estranho.
Os longes e as tardes coloridos,
mas ninguém olhava. As casas de madeira
apareciam. Parca, a vida que nelas começava
mas começava. A terra
podia estar aceitando o domínio do homem,
mas ninguém olhava. Nem a dor
de um e outros se pressentia.
Os homens, tanto como não se esperava,
chegavam; vinham, apareciam
mais do que as máquinas e utensílios,
não eram previstos.
Nem pensavam no velho e no muito velho
e novo corpo, nem
se avaliavam. Eram iguais
aos retorcidos troncos do cerrado.
As roupas iam-se desfigurando
e não percebiam, e as pequenas feridas
apareciam na pele e não eram vistas e cuidadas,
nem as mãos e os cabelos
eram lembrados.
Em tudo começavam um movimento,
fora ou dentro da hora,
porque tudo era lícito
tudo estava fora do lugar,
criava e recriava a vida.
As casas aumentando,
mas nelas ruídos não se ouviam,
só a vida no largo chão de sol e lua.
 
2
Uma primeira lua passou
e ainda tudo era o mesmo.
O que se modificava era
a terra com suas feridas.
Chão batido e chão claro.
Já um e outro tiveram fome,
e pegaram a lembrar de alguma
coisa que ficou para trás.
Chegava o momento em que o homem
redescobria-se. E assim ele podia olhar
em redor e fazer amizades,
porque tudo isso é de sua tradição.
Ele olhava a terra
e pôde com a fome olhar as estrelas
e pegar numa árvore, observar a água,
e amar sua aventura.
E, ao mesmo tempo que andava
para agir contra a fome,
também podia pensar.
E começava a miúda afeição
de um e de outro pelo sítio,
do homem pela máquina,
do povo pelas estrelas e caminhos.
 
3
Um dia a mulher chegou.
Alguns homens, velhos e novos,
tiveram logo a notícia.
Era a primeira que vinha
a terra. As máquinas, os
homens, depois ela.
(…)
 
4
A terra viu o crime.
Foi no acampamento da
"Pacheco Fernandes".
Os operários encurralados,
reclamavam direitos.
Eram dez horas no pla-
nalto.
        Foram metralhados.
        A madeira curtida
pelo sol
e pela chuva
foi feita em pedaços
(eles amoitavam-se
nas casas de tábuas),
feita em sangue.
No caso não mais se falou.
Havia-se iniciado a vida no ermo.
Tudo agora diluía-se
no emaranhado de humanidade
que despontava de esquinas
de matos e encostas.
Sinais humanos,
terra ferida.
 
5
Como se faz uma cidade?
Com vidas e argamassas?
Como se faz uma cidade?
Com operário se conta?
É a mão do homem quem sabe.
Como se faz uma cidade?
Com a mão se faz o sonho
(…)
 
José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 


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