Caco a caco

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Um poema sobre a arte do mosaico, tão bem cultivada pelo colega e amigo Gougon, e seu grupo "Loucos de Pedra". Em anexo, algumas obras dele, que já se incorporaram à paisagem da cidade. Lá no final, algumas obras burramente demolidas pelo governo anterior de Brasília, com poemas de Cassiano Nunes e Nicolas Behr. E um mosaico com poema meu, em reação à imbecilidade dos demolidores, que também virou mosaico e hoje está plantado na parada de ônibus da 509 Sul.

Caco a Caco

Para Henrique Gonzaga Júnior, o mosaicista Gougon

Passo a passo
Gougon ajusta os cacos
e um mundo espedaçado
se organiza
pedaço
por
pedaço

Traços do mundo
seus destroços
se entrejuntam
caco a caco
até irromper do caos
um troço,
um traço,
um braço

Caco a caco
um mundo se inaugura
um novo sentido
se afigura,
e salta
e medra,
e a pedra, dura,
agora é frágil, pura,
e transfigurada
em palavra, bicho ou gente,
se repropõe
e se perdura,
eternamente.

Mosaico:

Urdidura meditada do estilhaço,
abraço de um caco noutro caco,
até que um naco de sentido
salte dos pedaços dessas pedras,
e reajuste o espaço além do vácuo

peça a peça
caco a caco.

 

Baseados no projeto Brasília Limpa do GDF, há pouco mais de dois meses, fiscais da Administração de Brasília derrubaram a marretadas alguns tótens poéticos instalados nas paradas de ônibus da avenida W3. Alegaram que as placas atrapalhavam o acesso aos ônibus. Mas desde quando esses funcionários entendem de acessibilidade, mobilidade ou qualquer coisa relacionada a transporte público? Não eram quaisquer pontos de embarque e desembarque de passageiros entregues a correria do dia a dia. Eram paradas poéticas. Ali existiam belos mosaicos com textos poéticos. Poesia cravada nas veias da cidade. Trabalho idealizado há quatro anos pelo artista plástico e líder do grupo de artistas e poetas, Henrique Gougon (61).

É uma lástima e uma tremenda burrice medida tão impopular e despropositada. Temos grandes e graves problemas no transporte público que estão sendo resolvidos. Mas desde quando poesia atrapalha a vida? O ir e vir de quem precisa tomar um coletivo? Os mosaicos não descaracterizavam a cidade e suas áreas tombadas. Muito pelo contrário, com suas mensagens contribuíam sim, para organização de um ideal de paz. Além disso somavam-se a construção da identidade de Brasília. Cidade que por ser jovem, e mesmo dispor de um sem número de elementos que a identifique, ainda é carente de referenciais desse tipo. A mesma poesia concreta que recebe o descaso das autoridades locais, enfeita com dizeres de Paulo Freire os jardins do MEC na Esplanada.


A foto que ilustra este post é um manifesto do grupo Loucos de Pedra contra a demolição dos mosaicos instalados nas paradas 509/510 Sul da W3. Na ausência das placas poéticas publicaram seus mosaicos nas calçadas. Versos de P.J. Cunha que emocionam àqueles que ali enxergam adiante. Longe da miopia de certos burocratas e "bem intencionados" de plantão. Tentem acabar com os mosaicos da W3, mas demolir o chão e a poesia incrustada nos corações dos que por ali vivem e passam, realmente não dá. Há mais o que se fazer, de fato, por esta cidade. (Vania Sousa, 2010)

 



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