BRASILIANAS

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Poemas para Brasília 1 Comentário

I
O céu se abre ao infinito
Teus espaços são a capital dos meus pensamentos
Sorri o busto que fundou esse sentimento monumental
De poder, nas tuas letras, estar agora, brasiliana

II
Inauguraram um monumento
Mas é a tua estampa
Que transforma meus pensamentos
Em traços curvos
Que nem Niemeyer sonhou

III
Tempo Estio
Em que corpo e alma tem mais sede
Embora muita água possa ver, em realidade
Não é fácil atingir teu lago
Mesmo assim,
Vou forjando uma orla
Pela beira –
Mar que, um dia, em sonhos verei

IV
Pesadelo alado
Que voa ao Norte
Mas é para o Sul que vertem tuas veias
No entanto, a alma, condor que vaga
Do alto vê: é um avião!
Quando enfim, ao leitor regresso
Eis que uma voz de metal me chama
Novamente ao teu aeroporto!

V
Ando em tua perspectiva
Por uma avenida sem fim e sem nome
Estonteante velocidade colorida
De sonhos em movimento
No rosto do menino
As luzes de uma cidade perdida
Olho para frente
O sinal deve abrir
(Qual será o caminho mais curto até o teu ser?)

VI
Abrindo picadas no teu seio
Pelo cerrado
Acreditando na visão
Vou quebrantando tua fé de pedra
Esse plano de gelo, bloco de certeza
De quem não quer me habitar
E sentir a paixão dos pioneiros
Com a força
E os sonhos
Nos quais sou operário
Que despenca de todos os andaimes

VII
Brasiliana tem olhos de gata
Iris de velha xamã
Com tuas seitas
Seus novos mistérios
Feiticeira do altiplano
De bruxa, de benzedeira
E não foi a cruz em sua fortaleza
Que lhe livrou desse feitiço
De possuir toda a gente
E a cidade
Que no inicio
Não tinha Deus
Não tinha amor, nem nada
Passou a crer mais na vida
E os templos: a natureza!

VIII
Na noite em que parti
Levantei poeiras e dúvidas
Na bagagem que juntei
Um mapa sem legenda
E o coração como bússola
Apenas na procura de teus jardins em mudança de estação
Porque meus pastores
São os pássaros que desenham em teu céu
As luzes coloridas desses dias

IX
O expediente
O calhamaço, o ouro e o calmante
O lilás de bocas trêmulas
De longe brilham e fazem fama
A Brasiliana que me engana
É uma miragem em reluzente deserto
Sinuosa, prematura e disfarçada
Que agora caminha distante
Batendo asas
Buscando a mortal travessia
Em saltos loucos
Nos meios-fios de Brasília

Marcelo Ferreira Carámbula, poeta gaúcho.
Poema transcrito da lista de ganhadores do “Prêmio Cassiano Nunes”

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Comentários (1)

  • Pedro Tavares

    |

    Original. Único. Sensacional.

    Responder

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