Brasília, uma realidade

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Estão prosseguindo, em ritmo acelerado, as obras de construção de Brasília. Os espíritos otimistas que tem oportunidade de visitar a futura Capital voltam com o entusiasmo que os grandes empreendimentos sempre despertam. De fato, a implantação da nova Capital no interior do país significará a redenção de extensas áreas esquecidas e abandonadas. O Rio, como sede política da nação, já realizou a sua tarefa, tal como a cidade de Salvador, no período colonial cumprira a sua. Terminou, praticamente, o período de civilização litorânea. Estímulos mais vigorosos determinam novos rumos e dessa maneira é que começa o interior do país a viver sua própria vida em toda a sua plenitude. É certo que o nosso ‘hinterland’ já teve acentuada importância em nossa vida econômica e política que alcançou sua maior significação no drama da inconfidência. Mas deve-se notar que esse progresso se baseava na transitória exploração das riquezas minerais. A mudança da Capital, na segunda metade do século presente significa o prestígio do Brasil no interior.

Localizada no planalto central, Brasília terá diante de si a paisagem imensa da Amazônia cujo integração à nossa vida econômica é de inegável necessidade e responsabilidade para o país. Os vales do Tocantins e do Araguaia deverão ser os primeiros a receber os benefícios da proximidade da nova Capital. A investigação das riquezas, que devem existir em extensas áreas, deverá ser procedida com intensidade cada vez maior. Não se trata apenas de levar a populações que vegetam à margem dos rios e também à margem do progresso, o incentivo e também possibilidades reais para o aproveitamento dos recursos que até agora, permaneciam inúteis embora estivessem sempre ao seu alcance. Há alguns espíritos mais conservadores e, por isso mesmo, descrentes nas modificações que afinal traduzem a revolução da vida em sua mais variadas manifestações, que não encaram o empreendimento com o sentido realista que o mesmo merece. E há até mesmo os que não podem raciocinar com serenidade sobre o fato do Rio vir a deixar de ser a Capital do país. São saudosistas que se antecipam a uma necessidade histórica. O Rio, conforme acentuamos, cumpriu a sua missão como Capital brasileira. Mas isso não quer dizer que tenha cumprido o seu destino. A idade das grandes cidades se mede por milênios. Pela sua situação invejável continuará a desempenhar uma função da mais alta importância na vida do país. Não continuará apenas a ser o grande centro industrial, comercial e distribuidor que é presentemente. A industrialização do vale do Paraíba e igualmente do interior de Minas continuará a fazer desta cidade um grande escoadouro e um grande empório. Ao mesmo tempo, as tradições sociais, de cultura, de arte continuarão a fazer do Rio uma capital espiritual do Brasil.

O Brasil tem possibilidades para erguer em seu interior uma grande Capital e fazer, ao mesmo tempo, com que a antiga continue progredindo. E a esse respeito é elucidativo o fato que se observa na Bahia, onde a velha cidade de Salvador também cresce rapidamente e tende a se desenvolver mais ainda, principalmente se tivermos em vista o desenvolvimento de novas riquezas, entre as quais avulta o petróleo.

Quem viaja o interior do país verifica facilmente o entusiasmo que desperta a nova Capital. Mineiros, goianos, matogrossenses, nordestinos, amazônicos, encaram Brasília como um fato que se fixará nas páginas da história e como a incorporação de vastas áreas esquecidas à riqueza e ao patrimônio da nação.

Traduzirá, um dia, o reconhecimento das gerações futuras pelo esforço e pelo sacrifício da geração de hoje. Marcará a fase de transformação econômica do Brasil, a era da nossa industrialização e eternizará, como um de seus grandes feitos, o governo do presidente Juscelino Kubitschek.

Deputado Geraldo Mascarenhas
Extraído da revista “Brasília”, da Novacap, edição de fevereiro de 1958, número 14.

 


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