Brasília, par ou ímpar?

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Entre as curiosidades – ou excentricidades – propiciadas pelo traçado urbano de Brasília, uma é a confusão entre par e ímpar.

Os brasilienses, quando tentam explicar as particularidades da capital, como a numeração das quadras, dizem bem assim:
– De um lado ficam as quadras pares, do outro ficam as ímpares.

Eu mesmo, com três dias aqui, procurava a 309 Norte e fui parar na 209, depois na 409, mas nada de achar a 309.
– Flávia, já passei pela 209, pela 409, e não achei a 309!
– Você entrou errado! – ela disse. – Aí são as pares.
– Mas 209 e 409 são ímpares!!
– Não, 209 e 409 ficam nas pares…
– Mas elas não são ímpares?
– Não, são pares!

Parecia conversa de bêbado: ela dizendo par, eu falando ímpar, até que a bateria do celular arriou, mas, antes, ainda pude ouvi-la dizer:
– Querido, é a lógica da cidade. Brasília é organizada, planejada. Aqui tudo tem uma lógica…

Sem celular, desisti da visita a Flávia. E passei uma hora para acertar o caminho de casa, no Sudoeste.
No dia seguinte, os colegas se revezavam em explicações sobre essas “lógicas da cidade”.

Lucio Costa – e não Niemeyer – desenhou Brasília com dois eixos, formando o sinal da cruz, que lembra a imagem de um avião.
É nos “braços” dessa cruz onde fica a área residencial, sendo que de um lado ficam as quadras que começam com dígito par (200, 400) e de outro ficam as que começam com dígito ímpar (100, 300).

Ocorre, porém, que nos dois lados há pares e ímpares. Nas quadras 100 temos 102, 103, 104, 105… Nas 200 temos 202, 203, 204, 205…
Porém, a simplificação – “lado par” e “lado ímpar” – faz com que 304, 506, 708 sejam ditas ímpares, mesmo sendo pares; e 203, 405, 607 sejam ditas pares, mesmo sendo ímpares.

Complicado, não é?

Para o brasiliense, que nasceu e se criou sob essas coordenadas, tudo parece simples, fácil, óbvio até. Mas para o visitante, é tudo diferente.
Brasília é complicada e perfeitinha. É onde o par pode ser ímpar e o ímpar pode ser par.

Texto de Marcelo Torres, cronista

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