Brasília – Março de 1958

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

 

 

BRASÍLIA 1958
Março

 

Fala o presidente da Novacap


Foto: Arquivo Público do DF

Na Sociedade Mineira de Engenheiros, o Dr. Israel Pinheiro pronunciou uma conferência sobre a futura Capital Federal.

A palestra do presidente da Novacap atraiu grande massa de pessoas ao auditório da entidade, que ouviu com a maior atenção e interesse a explanação do ilustre conferencista. Inicialmente, o sr. Israel Pinheiro ocupou-se em explicar o projeto do professor Lucio Costa, vencedor da concorrência para a escolha do Plano Piloto de Brasília. Em seguida, o orador abordou plano rodoviário para a nova Capital, parte do qual está sendo atacado.

Revelou o sr. Israel Pinheiro também o lado humano de Brasília, referindo-se especialmente, ao entusiasmo, à fé inabalável dos trabalhadores e moradores da nova Capital no seu êxito. Entre outras coisas, pôs em relevo a grande funcionalidade de Brasília, cujos menores detalhes foram meticulosamente estudados pelo professor Lucio Costa e pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

Chamou bastante atenção dos presentes a grande missão do lago artificial de Brasília e que deverá ser de grande beleza panorâmica.

Aspectos como o acesso à nova Capital e o seu abastecimento foram amplamente focalizados também pelo conferencista. A fidelidade com que o orador soube narrar o que existe em Brasília e a forma como a cidade funcionará depois de concluída entusiasmou bastante os assistentes. Tanto que, após a conferência, numerosas pessoas mostravam-se dispostas a adquirir lotes na nova Capital para ali edificarem residências.

 

Três motivos

O escritor Plínio Salgado, em artigo publicado em “A Marcha”, estuda pormenorizadamente os três motivos em favor de Brasília: ocupação do território a oeste, defesa nacional na guerra atômica e recomposição no equilíbrio econômico.

Inicialmente o sr. Plínio Salgado comenta: “A fundação de Brasília e a mudança imediata da Capital do País para aquela cidade são imperativos do momento nacional e internacional em que vivemos. Além de persistirem os motivos tão eloquentemente expostos por Veloso de Oliveira, em 1810, por José Bonifácio, em 1823, por Thomaz Delfino, em 1891 – todos baseados na necessidade de afastar o Governo Central do bulício e das paixões das massas populares que se acumulam nas cidades de elevado índice populacional – outros surgiram, como razões do nosso tempo”.

Mas adiante o ilustre homem público escreve: “A mudança da Capital para Brasília vai influir no sentido de corrigir esse desequilíbrio, incrementando a economia de grandes zonas do nosso vasto território. O brado de alarme dado por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, mostrando o contraste entre a civilização do litoral e o completo abandono do homem brasileiro além da faixa privilegiada amplia-se hoje com uma ressonância jamais atingida, em face das consequências que se fazem sentir nos próprios centros de índices populacionais elevados. É a queda da produção motivada pela falta de dinheiro e de crédito, pela insuficiência de transportes, pela ausência de assistência técnica, de aparelhagem agrícola moderna, pelo abandono do homem rural. O encarecimento do custo de vida nas metrópoles hipertrofiadas liga-se diretamente a esse desequilíbrio orgânico da nacionalidade.

Assim, a mudança da Capital será o começo de uma descentralização dos recursos indispensáveis ao nosso interior, o primeiro passo para atingirmos um equilíbrio econômico, sem o qual o Brasil não poderá sobreviver.

Estes são os três motivos pelos quais Brasília se impõe ao entusiasmo de todos os nossos patrícios. O governo do sr. Juscelino Kubitschek, quando nada tivesse realizado, bastaria Brasília para consagrá-lo na História Política e Administrativa do País. E se tivermos em vista a audaciosa rapidez com que está criando a nova Capital e a firmeza com que tem enfrentado os argumentos dos que raciocinam sem visionar largos panoramas nacionais e internacionais, do presente e do futuro, mas adstringindo-se à paisagem reduzida de problemas de segunda ordem, então poderemos considerar Brasília como uma autêntica revolução da mentalidade nacional.

E assim como, em relação ao Rio de Janeiro, podemos dividir a história desta cidade em dois períodos: antes e depois da revolução de Oswaldo Cruz e Pereira Passos, também no futuro se dirá, já então com referência à vida econômica do Brasil, esta frase que honrará o atual Presidente da República: antes e depois de Brasília”.

Festa da cumeeira


Foto: Arquivo Público do DF

O Presidente Juscelino Kubitschek presidiu às comemorações do lançamento da cumeeira do primeiro edifício residencial do Instituto dos Bancários, em Brasília, das quais participaram o sr. Israel Pinheiro, o ministro Parsifal Barroso e o prefeito do Rio de Janeiro, Negrão de Lima.

Após a quebra solene de uma garrafa de champanha, o Presidente da República pronunciou palavras de entusiasmo, com relação às realizações do I.A.P.B., na futura Capital, salientando o fato de ter sido aquele edifício o primeiro, em Brasília, a alcançar o primeiro estágio de cumeeira.


Foto: Arquivo Público do DF

O Presidente ressaltou que o recorde atingido pelo IAPB deve servir de exemplo às demais autarquias, uma vez que ele representa uma contribuição inestimável para o plano de construção de Brasília.

Reiterou, a seguir, a afirmativa de que a transferência da nova capital se efetuará em 21 de abril de 1960.

O sr. Enos Sadok de Sá Mota, presidente da autarquia, declarou, na ocasião, que tem dado todo o empenho possível à execução das obras do Instituto dos Bancários, em Brasília, em cumprimento às instruções do Presidente da República.

O edifício do IAPB, de linhas modernas e construído sobre pilotis, está com toda a sua parte de estrutura concluída e já em fase de acabamento. Deverá ser inaugurado a 12 de setembro do corrente ano, data de fundação do Instituto dos Bancários. É o primeiro conjunto de 11 edifícios, com seis andares cada um, totalizando 456 apartamentos de dois ou três quartos, sala e demais dependências. Disporá o conjunto de um gerador e poço artesiano para abastecimento d’água.

Pretende o sr. Enos Sadok de Sá Mota, que de 60 em 60 dias, um desses prédios atinja a etapa das fundações e outro a etapa de laje. O projeto arquitetônico é de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, que previu a construção de parques ajardinados, numa área de 50 mil metros quadrados.

Justifica-se plenamente a existência do mencionado número de apartamentos para os bancários, pois Brasília contará com 32 bancos, de acordo com os cálculos da Novacap.

As inversões do IAPB, naquela cidade em nada sacrificam o ritmo de construções do Instituto no resto do país, visto que tais inversões ocorrem por conta da dívida da União para com essa autarquia.

Além do conjunto residencial, exclusivamente para os bancários e suas famílias, o IAPB construirá o edifício-sede, apartamentos para a administração e uma escola destinada aos filhos dos associados.

Tiveram início as solenidades de sábado com uma missa, celebrada no próprio local das obras, pelo padre Primo, vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Aparecida (Brasília). Seguiu-se o hasteamento da Bandeira pelo Presidente da República, a visita às instalações provisórias da administração e dos serviços, e a subida ao topo da construção, onde o sr. Juscelino Kubitschek deu como lançada a cumeeira. Acompanharam-no todo o tempo, os srs. Israel Pinheiro, presidente da Novacap; Parsifal Barroso, ministro do Trabalho; Negrão de Lima, prefeito do Distrito Federal; outras autoridades, jornalistas e numeroso público composto de convidados especiais, engenheiros e operários.

Visita de Rosemary Poter

Vinda de Londres, visitou Brasília Rosemary Poter. Essa visita teve um significado todo especial para a Novacap e para o Brasil, porquanto Miss Poter é bisneta do jornalista brasileiro Hipólito José da Costa que manteve, em Londres, na primeira metade do século XIX, o jornal “Correio Braziliense”, em cujas colunas se bateu pela mudança da Capital brasileira para o Planalto Central.


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