Brasília já foi terra espanhola

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias..., Naqueles dias... 1 Comentário

Por Ana Miranda

Parece que a ideia de mudar a capital do Brasil para o interior é mais antiga do que se pensa. Consta que Capistrano de Abreu, nosso historiador e minucioso pesquisador de papéis velhos, num relato verbal mencionou que a primeira pessoa que teve a ideia foi certo senhor italiano, Francesco Tosi Colombina. Tosi veio para o Planalto Central em 1749, para desenhar mapas. Ele era um cartógrafo genovês e engenheiro militar, que trabalhava para a Coroa portuguesa. Os mapas, possivelmente realizados por ordem direta do marquês de Pombal, faziam parte de um plano do Tratado de Madri, a ser assinado um ano depois, 1750. A ordem era registrar o povoamento da área que pertencia à Espanha, pelo antiguíssimo Tratado de Tordesilhas, e que estava ocupada por colonos portugueses, e por índios – que nem eram considerados nesses tratados. Metade do Planalto Central pertencia à Espanha, ora vejam só, Brasília já foi terra espanhola! Ao menos nas abstratas leis, porque de fato pertencia aos índios e a alguns colonos com seus braços peludos e sua virilidade colonizadora lusitana.

Tosi já conhecia o Brasil, tinha andado pelo sul no comando de uma expedição, pelos Campos Gerais do Paraná, em 1734, apresentando depois um plano de ocupação das terras dos índios Guayanã, para mineração de ouro. Ele percorreu o Planalto Central, acompanhado de um ouvidor da capitania de Goiás; foram do interior de São Paulo até Vila Boa de Goiás: Vila Boa, ou Goiás Velho, onde muitos anos depois ia nascer a querida Cora Coralina, ah que saudades de sua poesia! No lombo de mula, numa viagem que sabemos como era árdua, Tosi foi até a outrora opulenta e cheia de ouro vila de Natividade, levantando uma Carta da Capitania de Goiás e Mato Grosso, mapa esse que foi entregue ao governador e capitão-general da capitania que era o conde dos Arcos.
Mas Tosi tinha sonhos arrojados. Conhecendo o território, tratou de conseguir licença para abrir uma estrada de carros, indo de São Paulo até as minas de Cuiabá, passando por Goiás. Ele teria o privilégio dos rendimentos da estrada por 10 anos, e ia receber uma sesmaria a cada três léguas ao longo da estrada. Seu plano foi aprovado em dezembro de 1750, mas ele não conseguiu organizar uma companhia para abrir a estrada, e a regalia caducou. Mas sempre fica alguma coisa boa, e no caso de Tosi, ficaram os valiosos mapas, assim como três desenhos de locais em Vila Boa: o largo do Rosário, com a casa do general e a igreja da Lapa; a praça do Jardim, com a rua Direita e a igreja do Rosário; e o centro da vila, com o rio Vermelho, a bela serra Dourada ao fundo.
Pombal não ouviu a opinião de Tosi, um pioneiro no conceito de interiorização do Brasil, e ouvindo a si mesmo resolveu mudar a capital da Bahia para o Rio de Janeiro, para onde depois se transferiu a Corte. Fico imaginando se a capital tivesse ido para o Planalto Central já nos meados do século 18. Brasília teria sido talvez construída com o ouro e o diamantes de Minas, em torno de uma igreja barroca, uma praça no centro, ruas estreitas, solares enfileirados, depois teria um palácio para o imperador, grandes edifícios para as artes e ciências, um jardim botânico com palmeiras imperiais, o sonho da Missão Francesa, condes, marqueses…Ia ser parecida com Diamantina, onde nasceu o JK.

Transcrito do Correio Braziliense, 30/06/2013, sob o título “Capistrano de Abreu em Brasília”.

Trackback do seu site.

Comentários (1)

  • Sonia Santos Figueiras

    |

    Esta cidade merece!

    Responder

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …