Brasília, 300 anos

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Por Paloma Oliveto
 

Naqueles tempos, eixo se referia à peça que ligava as rodas do carro de boi. Tesourinhas havia às centenas, mas essas voavam pelo céu do cerrado. Plano era cenário pelo qual passaram tantos escravos, bandeirantes, garimpeiros e tropeiros, para quem Norte, Sul, Sudoeste e Noroeste significavam apenas pontos cardeais apontados pela bússola. Brasília, porém, já estava ali.

Que ninguém se deixe enganar pelas linhas arquitetônicas modernas e os prédios de concreto da cidade. O Brasil colonial está entranhado no DF e no seu entorno. Seja nos pilares do altar da Igreja de São Sebastião, em Planaltina, seja na cicatriz deixada pelo garimpo em um morro da região de Saia Velha, a 35 km da Esplanada dos Ministérios, por toda parte, existem marcas de um passado com quase 300 anos, há muito tempo sufocado pelo sonho da capital futurista.
Essa Brasília da qual poucos se lembram corria o risco de ficar engavetada no Rio de Janeiro. No Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), há centenas de fotografias tiradas entre as décadas de 1940 e 1970 por arquitetos do órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Não se sabe por que os técnicos visitaram a região e fizeram registros fotográficos das edificações, mas é certo que o trabalho realizado, mais de meio século atrás, constitui um rico acervo, agora disponível no Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF).

Em maio, os historiadores Wilson Vieira Júnior e Elias Manoel viajaram para o Rio de Janeiro com a missão de digitalizar o conjunto de fotos que contém imagens inéditas, como as da antiga Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia, prédio do século 18 colocado ao chão na época da construção de Brasília. Até agora, só eram conhecidas fotografias da lateral do presídio colonial, erguido por volta de 1750, no então Arraial de Santa Luzia. Os pesquisadores resgataram, inclusive, a planta baixa do edifício de dois andares, que não tinha porta para evitar a fuga de presos: vereadores e detentos entravam por um alçapão, construído no teto, ao qual se tinha acesso por uma escada móvel.

Relíquias

A pista de que havia imagens raras do Planalto Central no Rio veio do diretor do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC) da PUC-Goiás, Antonio Cesar Caldas Pinheiro. Ele encontrou em um livro do Iphan a foto de uma parte do altar da igreja de Traíras, povoado que foi o centro da mineração goiana na primeira metade do século 18, mas, que, hoje, só restaram ruínas. “Fui ao Rio, e, no Iphan, disseram-me que tinha essa foto e outras imagens importantes de Goiás”, conta Pinheiro. Como costuma fazer parcerias de trabalho com a equipe de arquivistas e historiadores do DF, ele repassou a informação a Wilson, que entrou em contato com o Iphan. “Eles me mandaram uma listagem, e já vi que tinha muita coisa interessante”, relata Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF.

Em uma semana, os pesquisadores digitalizaram e trouxeram o farto material para Brasília. Há imagens referentes desde os três municípios que cederam território para a construção da capital – Luziânia, Formosa e Planaltina -, a localidades mais distantes, como Porangatú e Vila Bela da Santíssima Trindade, essa última localizada em Mato Grosso, mas com historia colonial interligada à da região onde hoje fica o DF. “Muitas cidades desconhecem essas fotos, que são relíquias de um tempo que não existe mais. Elas foram tiradas em uma época anterior a essa modernidade contagiante que marcou a época da construção de Brasília”, avalia Elias Manoel, gerente de Núcleo de Documentação Cartográfica e Iconográfica do Arquivo Público. Nas lentes dos arquitetos do Iphan, conservou-se uma cidade, que, nas décadas de 1950 e 1960, não interessava mais a população local, encantada pelo surto futurista da nova capital.

Importantes casarões e prédios públicos que existiam em vilas e fazendas desapropriadas para a construção de Brasília vieram abaixo no período da construção. Não por exigência da planta da nova cidade, mas porque prefeitos e moradores dos municípios vizinhos assim quiseram. Oficialmente, a Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia virou pó para a abertura de uma estrada que conectaria a cidade goiana à BR-040, dando acesso ao DF. Contudo, Wilson tem outro palpite: “Acho que as cidades ao redor procuraram se adequar ao ideal de modernidade da capital e começaram a derrubar tudo”, diz. Elias Manoel concorda: “A população via aquilo como um processo natural: abandonar o arcaico para se associar ao moderno”.

Resgate histórico

As fotografias resgatadas pelo Arquivo Público do DF integram o projeto Documentos  Goyaz, iniciado há dois anos: “A proposta é dialogar a construção da capital com o passado de Goiás, tendo como foco documentos de Formosa, Luziânia e Planaltina”, explica Wilson Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF. “Nós buscamos toda documentação do século 18, 19 e até meados do século 20 de forma a fomentar a pesquisa e facilitar o acesso de pessoas interessadas”. Entre os mais de 100 mil tesouros resgatados pelos funcionários do ArPDF, há diários, registros paroquiais e de terra, inventários; mapas raros, como o da Capitania de Goyaz, de 1750, recortes de jornais e a Ata da Expedição Cruls.

O manuscrito, colocado dentro de uma cápsula de vidro e enterrado pelos desbravadores, foi encontrado no Rio de Janeiro. A equipe do ArPDF também localizou no Museu do Ipiranga, em São Paulo, documentação a respeito da pedra fundamental, inaugurada em Planaltina, em 7 de setembro de 1922.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 1 de setembro de 2013.

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