Branca Bakaj

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Branca Bakaj remonta à “infância” longínqua, anterior à construção, quando a terra hoje metrópole pedia “para ser conquistada”. Depois dos bandeirantes, com seu espírito obcecado por ouro e pelas pedras preciosas (“…sonho de esmeralda”), chegam as máquinas. Conquistam a Terra Prometida, não a Canaã bíblica, mas a que dormia o sono profundo ao sul do Ocidente. E “…de seu ventre vermelho jorrou o leite”: a urbe moderna, a revolucionária arquitetura, os traços a fluir de mãos geniais, a consolidação da nova “marcha para o Oeste”, bem diversa daquela que navegou em sangue e estremeceu, aos brados e armas dos cowboys. Ao encontro das “…sedentas árvores, retorcidas, do cerrado comparece o pioneiro, impulsionado e retemperado na “…forte força de dar vida”. Mas o cordial e o romântico prevalecem. Tomam, por fim, o lugar do rude e áspero. E o fecho (e o ápice) do cenário (e do poema) é: “Brasília: sonho-realidade./Brasília: canto de amor”. Em seu mais recente poema – “Meninos, eu vi” -, especialmente escrito para esta antologia, Branca Bakaj traz para a poesia o enfoque do memorialista, dos cronistas (Joel Silveira e Jota Efegê, p. ex.) a recordar os seus dias de pioneira. “Vi alvoradas belíssimas (…)”, conta a mestra e servidora pública, que também foi testemunha de fatos espantosos, quando a convulsão social erguia a veemência de seus protestos. E mais: “Muita solidão eu vivi”, conta-nos a carioca que chegou para habitar praticamente entre canteiros-de-obras: “Meu marido trabalhando no edifício/do Congresso,/Dia e noite, noite e dia. (…)”. Aí a força, neste poema-crônica, do relato de uma privilegiada (e sofrida) testemunha ocular.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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