Bernardo Sayão, herói-pioneiro

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Em plena selva amazônica, esmagado pela árvore que ajudara a derrubar, morreu o engenheiro Bernardo Sayão Carvalho Araújo. Teve a morte que pediu a Deus, lutando para abrir na floresta virgem a grande rodovia Brasília-Belém do Pará, sonho que o empolgava todas as horas do dia, convertendo-se, por último, na razão de ser de sua vida.

Sayão era uma espécie de visionário prático, com o ardor dos pioneiros. Seduzia-o a conquista do novo e do desconhecido, bem como a dominação dos obstáculos, mais que a realização do objetivo. Entretanto, como excelente engenheiro que era, escondido na modéstia de seus hábitos e atitudes, tinha sempre os olhos pregados no objetivo, sabia como planejar as etapas e atingir os fins, sempre grandiosos, a que se propunha. Mas Sayão, antes de tudo, acreditava no Brasil. Sua morte foi um ato de fé nos destinos deste país, um edificante exemplo a ser lançado em rosto aos derrotistas, que procuram em vão retardar a marcha da história, vendo no Brasil uma reserva colonial das nações superindustrializadas do Ocidente.

Cai o incansável lutador no momento preciso em que se unem as duas pontas da estrada por ele ideada; cai em plena batalha com a "jungle" no ponto em que se levantará dentro em pouco, o monumental aos que fizeram a rodovia por onde se comunicarão o Extremo Norte e o Extremo Sul do país. Esse monumento recordará o triunfo e a queda do novo bandeirante, ou seja a morte na hora exata em que, como Fernão Dias, tinha diante dos olhos a visão da vitória.

No dia em que se deu início à construção de Brasília quando lá chegava o primeiro comboio de caminhões com operários e material, encontramos Sayão no aeroporto de Goiânia, trepidante de entusiasmo, alegre como uma criança, apressando-se em dar-nos a notícia pois cruzara com os transportes nas cercanias de Luziânia. À tarde, quando baixamos de teço-teco na pista por ele construída, lá estava Sayão no seu jipe, para levar-nos à Fazenda do Gama. Contou-nos em pormenores as ocorrências do dia que ele considerava "um dos mais felizes de sua vida" porque se dera começo à construção da futura capital, causa por que ele se havia tenazmente batido.Logo que viu iniciada e em boa marcha os trabalhos da capital, Sayão passou a sonhar com a Brasília-Belém e não descansou senão quando, com os recursos da Valorização da Amazônia, pôs mãos à obra ciclópica, sempre amparado e encorajado na realização de seu sonho pelo presidente Juscelino Kubitschek. Graças a este nada lhe faltou para que se pudesse dedicar integralmente à obra. Sayão ajudava a abrir picadas, a pregar piquetes, a desatolar e desenguiçar os veículos e tratores. De sorte que contagiava com o seu entusiasmo engenheiros e operários, dos quais se tornara um verdadeiro ídolo, impondo-lhes, pela camaradagem e pelo exemplo, os maiores sacrifícios.

Este homem que acaba de tombar na batalha pelo desenvolvimento nacional, o herói modesto e desinteressado, cujo nome se deve ensinar às crianças das escolas para que aprendam a amar e servir com paixão ao seu país.

(Diário Carioca, 17.1.1959. Inscrito nos Anais da Câmara dos Deputados a pedido do Deputado Berbert de Castro).

 


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