Belo e solitário

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Belo e solitário
Por Conceição Freitas

Dias terríveis viriam, ele sentiu pelo cheiro de terra mesclado de cheiro de óleo e de homens. Quando os tratores chegaram rugindo pressa e abrindo clareiras vermelhas no cerrado, um dos mais antigos habitantes do lugar desconfiou que dali em diante nunca mais seria a mesma coisa.

Foi um baita susto para uma população que, especulam os cientistas, habita o planeta desde o tempo das eras glaciais. Ele é parente dos lobos, dos cães e das raposas. É o maior dentre eles. Juntos eles compõem uma família – a dos mamíferos digitígrados, que tem esse nome porque andam sobre os dedos.

Tem família, mas prefere a solidão. Não gosta de turma, de bando, de multidão nem de conversê. Como os índios, necessita da imensidade da terra para caminhar, caçar, viver. Nos tempos paradisíacos, um único casal dava conta de percorrer uma área de 300 quilômetros quadrados neste cerrado infindo de meu Deus. Cercados pelos homens, pelas máquinas e pelas plantações extensivas e devoradoras de chão, abatidos pelos caçadores, atropelados nas rodovias, eles foram sendo dizimados.

Quem aqui chegou bem no começo da construção da nova cidade viu de relance o lobo-guará. Bicho arredio, dizem que muito tímido, não ataca o homem. Prefere seguir seu caminho trilhando a solitude das longas caminhadas noturnas. É monogâmico, mas não vive grudado na parceira. Os encontros acontecem somente para a procriação. São os mais belos entre os seus parentes próximos – o lobo, o cão e a raposa. Tem os pelos de cor laranja-avermelhada. Ao sol, a pelugem brilha que nem cobre ruborizado. As pernas esguias sustentam com impressionante elegância o corpo reluzente. O focinho afilado combina à perfeição com pelos e pernas, e dão a ele o garbo e a altivez próprios do lobo-guará.

Apesar da bocarra, parecida com a de um cão pastor-alemão, suas mandíbulas são suportam grandes esforços. Por isso, apesar de ser um bicho de porte considerável, o lobo-guará prefere um cardápio mais delicado: roedores, pássaros, ovos, insetos, frutas silvestres, peixes, rãs. Peixes, rãs? É o lobo-guará é um exímio nadador, ainda que aparentemente desajeitado, dadas as pernas muito finas e longas. Carne, ovos e frutas – dieta completa, a do bicho de lindos cor de quentura. Mas seu prato preferido é a lobeira, e há razões terapêuticas para a escolha. A fruta-da-loba age contra o verme-gigante-dos-rins, doença fatal para o lobo-guará.

O bicho cor-de-fogo mede até 1,45 metro de comprimento e 80 centímetros de altura e pesa não mais de 25 quilos, em média. Está na lista dos animais em risco de extinção. Ele não se reproduz facilmente em cativeiro. Pesquisadores tentam cloná-lo. Apesar de tão belo e tão único, nunca mereceu dos brasileiros a admiração dedicada, por exemplo, aos animais africanos. O lobo-guará é o animal que eu queria ser.

Transcrito do Correio Braziliense, 01/09/2009

 


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