Arquivo do Autor

Os minotauros

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Entre as muralhas do labirinto
multidões de seres intermédios
cruzam-se sem cessar.
São cegos – não podem ver-se.
São surdos – seus mugidos
perdem-se para sempre, inauditos
Entre as muralhas do labirinto.
Nós, Édipos
Não perguntes à Esfinge
que espécie de animal és tu.
Mira-te no espelho
e prepara os instrumentos
para a execução dos olhos.

Poemas de Tristão Botelho, poeta mineiro, natural de Paracatu.
Transcritos do livro “Metamorfoses”, 2010

Brasília

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Alvorada

Coluna do Palácio da Alvorada: cálculos de Joaquim Cardozo.
A forma e o símbolo

Mais de cinquenta anos após a sua inauguração, Brasília ainda desperta reações de todo tipo nos seus visitantes, do horror ao encantamento, provocando elogios generosos e criticas virulentas, justificando a célebre sentença de Oscar Niemeyer sobre a cidade: “Você pode gostar ou não de Brasília, mas jamais terá visto coisa parecida”. Essa diferença, essa especificidade da imensidão que integra formas e volumes de forte impacto simétrico e organizado faz de cada habitante da cidade um ser especial, alguém que convive diariamente com o impacto da clareza do método e da ousadia da criação estética.

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A Forma e o Símbolo

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Por Marcus de Lontra Costa
Joaquim Cardozo fez os cálculos das colunas de Niemeyer

Joaquim Cardozo fez os cálculos das colunas de Niemeyer (Foto de 1960)
Mais de cinquenta anos após a sua inauguração, Brasília ainda desperta reações de todo tipo nos seus visitantes, do horror ao encantamento, provocando elogios generosos e críticas virulentas, justificando a célebre sentença de Oscar Niemeyer sobre a cidade: “Você pode gostar ou não de Brasília, mas jamais terá visto coisa parecida”. Essa diferença, essa especificidade da imensidão que integra formas e volumes de forte impacto simétrico e organizado faz de cada habitante da cidade um ser especial, alguém que convive diariamente com o impacto da clareza do método e da ousadia da criação estética.

 

Arquivo Público

Foto: Arquivo Público do DF.

Até a construção de Brasília a referência visual brasileira era essencialmente geográfica. A forte simbologia da arquitetura de Brasília criou uma iconografia que identifica todo o país. Qualquer criança brasileira identifica e repete as principais formas arquitetônicas da cidade; todos nós nos reconhecemos nesses elementos arquitetônicos de forte conteúdo simbólico. O modernismo, em Brasília, estabelece tensões interessantes entre o espírito construtivo e a provocação surrealista; a atmosfera metafísica da Praça dos Três Poderes comunica-se com as paisagens de De Chirico, a forma orgânica estabelece instigantes diálogos com Matisse e Jean Arp, a evidência simbólica dessas formas parece convidar à apropriação, ready-mades a nosso dispor, delicioso banquete duchampiano a ser consumido por designers, artistas plásticos, estudantes e a todos os interessados na ação e na pesquisa estética. O vinho, essencial em qualquer refeição completa, é o afeto…

 

Em Brasília, criança, eu aprendi que é brincar de pique com a chuva, levava buquês de flores secas para a minha mãe, colecionei cristais de rocha que se não me renderam a riqueza que esperava, proporcionaram-me fortuna maior: viver a vida como um garimpeiro, sempre a descobrir a beleza no cascalho da vida cotidiana. Eu vi uma cidade nascer da terra vermelha do cerrado, como um jardim. Por isso, ainda hoje, olho os edifícios de Niemeyer como árvores e os painéis do Bulcão como flores, ao mesmo tempo em que entendo o paisagismo do Burle Marx como uma bela arquitetura, tudo muito bem organizado nas linhas e canais do Dr. Lucio, urbanista e agricultor. Essa bela fazenda é, ao mesmo tempo, uma metrópole contemporânea que exige propostas e soluções adequadas ao mundo pós-industrial em que vivemos. O desafio consiste em preservar o espírito original da construção da cidade, essencial para sedimentação cultural de seus grupos humanos e, ao mesmo tempo, incentivar o surgimento de novas propostas que incorporem em seu discurso estético, as tecnologias e conceitos contemporâneos identificadores da cidade com o mundo dos dias atuais.

Arquivo Público do DF

Foto: Arquivo Público do DF.
Eu adoro Brasília. Uma cidade é muito mais do que um movimento artístico, um plano diretor de urbanização ou mesmo uma arquitetura. Uma cidade é o local onde vivemos a nossa vidinha, onde trabalhamos, amamos, criamos nossos filhos, alimentamos nossos sonhos. Quando chego à cidade, o céu continua lindo, a cidade ajardinada, a arquitetura deslumbrante e arrojada. Vejo o prédio do Congresso e sonho com o dia em que seus ocupantes sejam dignos de sua arquitetura; entro na Catedral, converto-me imediatamente, rezo para Burle Marx e para Dr. Lucio, beijo a alma de Athos e acaricio o corpo frágil de Oscar – Brasileiros ilustres que dedicaram seu talento e a sua inteligência a essa cidade. Os problemas, enormes, de Brasília, dizem respeito ao mundo contemporâneo, às suas incertezas, suas desigualdades e devem ser enfrentados com boa dose de audácia e de ternura, comprometidos com o passado sem temer superá-lo. Eu sonho com uma grande praça no marco zero da cidade, ocupada pela população, os carros em túneis subterrâneos ligando a asa sul e a asa norte, liberando a paisagem, e uma construção de três andares, em escala adequada, reunindo acervos de diversos museus brasileiros e formando um amplo e diversificado painel da nossa formação artística e cultural. Nesse momento, então, Brasília encontrará a sua verdadeira vocação: mais do que uma cidade administrativa, a nova Capital foi – e sempre será – uma extraordinária intervenção artística criada por uma linda geração de artistas brasileiros. Enquanto isso, eu atravesso o lago e fico olhando de longe, em silêncio, a cidade da minha infância. Um menino de bicicleta passa por mim, sorri, eu retribuo, a paisagem se torna um espelho e a vida continua.

Texto publicado no álbum “50 anos de Arquitetura”, Editora Anual e Sistema Fecomércio – SENAC.

Flor do Cerrado

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Todo fim de ano é fim de
mundo e todo fim de
mundo
É tudo que já está no ar,
tudo que já está
Todo ano é bom todo
mundo é fim, você tem
amor em mim?

Todo mundo sabe e você
sabe que a cidade vai
sumir por debaixo do
mar
É a cidade que vai
avançar, e não o mar,
você não vê
Mas trago uma flor do
cerrado pra você
Mas da próxima vez que
eu for a Brasília
Eu trago uma flor do
cerrado pra você
Mas da próxima vez que
eu for a Brasília
Eu trago uma flor do
cerrado pra você

Tem que ter um jeito e
vai dar certo e Zé me diz
Que ninguém vai
precisar morrer para ser
Para tudo ser eu você

Todo fim de mundo é
fim de nada é
madrugada
E ninguém tem mesmo
nada a perder
Eu quero ver, olho pra
você, tudo vai nascer
Mas da próxima vez que
eu for a Brasília
Eu trago uma flor do
cerrado pra você

Caetano Veloso
Poema transcrito do encarte “Brasília – a capital de todos os sons”
Correio Braziliense, 21/04/2013

Brasília utópica/distópica

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Brasília
visualizada por
místicos e revolucionários,
é ícone da ruptura
do passado colonial;
utopia de uma nova sociedade
mais humanitária e igualitária,
e expressão singular da
arquitetura modernista,
minimalista,
onde só o essencial é traçado.

Raiz
dos Guayases,
Brasília acolhe tribos
de todas as nações.
É cidade porto e cidade parto
de uma nova civitas,
eclética em seitas
que a todos abriga
esotéricos e racionais.
Sonho/realidade erguido
a partir de uma encruzilhada
por peregrinos que consolidaram
a etnologia tupiniquim, orgulhosa
de sua genialidade e miscigenação
de múltiplos matizes, enriquecida
por mosaicos culturais globais.

Ao sopro inicial
em um 21 de abril,
primeiro dia de Touro,
signo de terra e de realização,
consolidou-se após
o arrojo inicial do Carneiro,
que crê nos sonhos impossíveis
e a tudo enfrenta
para os concretizar.

Sua
mitologia é do novo,
do pragmático e do imaginário
arquitetônico fundidos na criação
de uma realidade monumental
inspirada no tarô egípcio e
na cabala hebraica,
subvertendo o óbvio
que a tantos confunde
por só reconhecerem como belo
a miragem das urbis convencionais.
A esses, o cerrado, inusitado,
assusta,
enquanto aos que admiram sua
originalidade,
Brasília encanta.

Indo além do convencional de
moradia, trabalho e circulação,
Brasília é espaço vivo,
alterando continuamente
sua topografia e
estabelecendo novos topologias,
urbanas e humanas,
na entropia em que está inserida.

Lúdica,
Brasília assume novas direções no
fluxo continuo dos processos sociais
transformadores de planos pilotos
que são desfeitos
para outros serem criados
mas preservando sua insígnia
futurista, mesmo repetindo
cartesianos passos pretéritos,
posto que,
se por mitos foi concebida,
por humanos é forjada,
e destes se retraem
as asas do arrojo
para saltar no desconhecido
de novas alvoradas.

Interiorização
e equilíbrio
nos convidam Brasília.
Suas largas vias e
horizonte amplo
purificam o ar e remetem
os corpos ao movimento e
as mentes a olharem
a plenitude do
Planalto Central.
Suas tesouras não cortam,
unem caminhos.

Anos,
décadas, séculos e milênios
terminam e iniciam,
e a vida segue seus passos
construindo um novo futuro.
Nesse pulsar eterno, Brasília,
com sua magia plural,
como somos em nosso painel de
diversidade geográfica, cultural,
étnica e religiosa, continuará a
abrigar renovadas auroras, em um
convívio utópico/distópico a ser
(re)construído.

Roberto Rodriguez
Poema transcrito da Revista do Correio, 21/04/2013

Às tesourinhas!

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Essa maravilha da engenharia
Contemporânea, este ícone
Arquitetônico de quem os vê
Fica até atônito.
Essas incríveis tesourinhas
Que parecem
Até asas de borboletinhas
Ou qualquer outro desenho de criança
E que nas imagens aéreas nos encanta
E não há outra semelhança.
A genialidade deste e a funcionalidade
De quem os fez
Proporcionou aos usuários
A acessibilidade de vez.
Lucio Costa deveria estar
Iluminado com áureas infantis
Ao projetar as tesourinhas
Tão emblemáticas e tão sutis.
É lindo de se ver e saber
Que na nossa capital federal
Tal projeto, não há outro igual.
Parabéns, Brasília!
Dos candangos heróis.
Parabéns Brasília!
Das eternas e únicas tesourinhas
Que se enchem de orgulho todos nós.

Carla Duarte
Poema transcrito da Revista do Correio, 21/04/2013

Brasília

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Desenhada por Lucio Costa, Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecumênica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas

Brasília despojada e lunar como a alma de
um poeta muito jovem
Nítida como Babilônia
Esquia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitetura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

No centro do reino de Artemis
– Deusa da natureza inviolada –
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergue sua cidade, ordenada e clara
como um pensamento
E há anos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

Sofhia Mello Breyner Andresen, poetisa portuguesa.

Luiz Paiva de Castro

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Luiz Paiva de Castro situa-se entre os autores que mais lograram captar a alma da cidade. Em vários (e longos) poemas soube, como poucos, retratá-la, e pouquíssimos a viram tão amplamente, no bojo da história, anunciada, prenunciada, prometida na fluência dos fatos, dos acontecimentos de que ela acabou por emergir. Em “Fundação de Brasília”, temos o navegador, o símbolo da fé plantado na terra, o que do solo começou a nascer (as coisas e pessoas), depois o sonho do alferes de Minas e, bem mais tarde, “além das Tordesilhas”, a cidade. Assim, se encerra a “Anunciação cabralina”. A segunda parte do poema tem como epígrafe texto sobre a “profecia” de Dom Bosco. Mas se detém mesmo é na aventura do “pau-de-arara”, nos edifícios nascentes, no inexistente mel; e o leite paradisíaco vaticinado é apenas funda interrogação. A seção número três do poema é uma toada onde se reúnem águas, palácio, um candango vitorioso, amante, navegador. Palavras de Oscar Niemeyer, em tom de queixume, denunciam o destino dos “bons e dignos companheiros”, os operários que sustentaram nos ombros a metrópole embrionária – e elas são tomadas como ponto de partida para mais uma seção do extremo poema. O autor rememora aquele que “comeu farinha, carne-de-sol, colheu raízes/na cicatriz do solo adormecido” e findou por deitar-se “para ser mais longo nos rios que cortam a paisagem”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Uma cidade como por encanto

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Por Joaquim Cardozo

A cidade de Brasília foi construída praticamente em três anos e meio. A história da sua construção não foi ainda examinada em todos os seus detalhes, não somente naqueles que se referem aos materiais de diversas naturezas que nela foram usados, mas também nos que dizem respeito às tentativas e incertezas que surgiram no seu inicio, dadas as circunstâncias que provieram da sua situação em lugar deserto, a muitos quilômetros de distância dos centros tecnicamente organizados.

As primeiras obras construídas, em estrutura metálica e em concreto armado, respectivamente, foram o Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada. Cidade, como dissemos, erguida em pleno deserto, a estrutura do hotel foi transportada com extrema dificuldade; do mesmo modo, nada se sabia, para a construção em concreto armado, dos locais de existência de material inerte (pedra e areia), indispensável a este tipo de construção. Aos poucos foram sendo encontradas algumas minas de areia e de seixos rolados (quartzitos), que são ainda hoje as fontes deste material em todos os trabalhos.

O desenvolvimento atual da cidade, que atinge presentemente bom nível no setor da construção civil, continua baseado na areia de mina e no seixo rolado de quartzito, tornando-se, porém, mais fácil a aquisição do aço e do cimento, em virtude das boas estradas asfaltadas posteriormente construídas; nos primeiros anos da formação da cidade, estes últimos materiais (aço e cimento) eram transportados, trabalhosamente, sobre caminhões por estradas em precaríssimo estado de conservação.

Foi na base desse concreto construído por um material inerte anteriormente desconhecido, mas cuidadosamente examinado e qualificado em institutos de pesquisas tecnológicas, que se construíram os grandes vãos com vigamento e pilares de uma esbeltez extrema, para isso usando-se, é verdade, cimento e ferro de superior qualidade, conseguindo-se desse modo as taxas de trabalhos necessários.

Brasília foi construída em três anos e meio, repito, a partir de novembro de 1956, inicio das fundações do hotel e do Palácio da Alvorada, até 21 de abril de 1960, data em que foi inaugurada, com todo o centro cívico construído: Palácio do Governo, Palácio da Justiça, Parlamento, edifícios dos Ministérios, além da Catedral, estação rodoviária, do edifício da Imprensa Oficial, Museu da Cidade, das escolas médias e escolas-parques etc., como também, evidentemente, inúmeras vias, além da Praça dos Três Poderes, tinham naquela data o seu asfaltamento concluído, cumprindo, porém, assinalar que os edifícios dos Ministérios são de estruturas metálicas, importadas dos Estados Unidos.

Os materiais usados nos revestimentos foram os mais variados, em grande parte de origem ou de construção brasileira: as cerâmicas, os mármores (que revestem os pilares do Alvorada, Palácio do Governo etc), os azulejos que revestem várias paredes dos edifícios são todos brasileiros, como brasileiros são em grande parte os vidros, os ferros das esquadrias, a madeira dos móveis etc. Não somente o arquiteto Oscar Niemeyer, como o presidente da República na época, Sr. Juscelino Kubitschek, se empenharam para que Brasília fosse uma obra que representasse a expressão e cultura brasileiras não somente na sua arquitetura – que revela uma forma moderna e original, de nenhuma influência estrangeira, pelo contrário, trazendo no conjunto dos estilos modernos uma designação especial como o “estilo de Brasília” -, não somente na arquitetura, dissemos, como também nos materiais usados, de criação brasileira, que possibilitaram esse estilo novo; brise-soleil de fibra-concreto, granitos de variados tipos, combogós (material para formar paredes ajourées, que é um sistema de vedação intermediário entre a parede completamente fechada e aberturas semifechadas com brise-soleil); as próprias madeiras que não são genuinamente brasileiras como “fórmicas” são pelo menos de fabricação em São Paulo.

Brasília oferece assim um exemplo de uma cidade nova, de uma cidade construída de súbito, como por encanto, uma cidade, portanto, que não começou em torno de um burgo ou castelo feudal ou de uma catedral, ou, ainda, de uma praça de mercado; em torno de um pouso de peregrinação ou de um rush para a conquista do ouro etc. Surgiu no deserto, pelos meios únicos e modernos adequados ao seu surgimento. Surgiu, se expandiu, se desenvolveu das margens das pistas de um aeroporto, porque foram estas as primeiras obras reais da sua origem, as razões do seu milagre.

Além disso, o arquiteto Lucio Costa, encarregado da sua urbanização, procurou nela utilizar tudo o que era então apenas teoricamente conhecido como possível para o bom funcionamento de uma cidade de acordo com as necessidades modernas, orientadas as suas ruas de modo a evitar cruzamentos perigosos, alcançando assim os trevos nos cruzamentos o pleno êxito que agora se constata. O arquiteto Oscar Niemeyer e sua equipe procuram formar um conjunto de edifícios fugindo à monotonia de fachadas sempre iguais e repetidas; basta olhar-se para as formas apresentadas no Palácio da Alvorada, no do Planalto, no Congresso, na Catedral, no Teatro, no Museu etc., para se ter a sensação de uma cidade-museu, em que cada peça vale por si e comunica uma sensação diferente ao visitante.

A construção da barragem sobre o Paranoá se fazia quase que como um trabalho à parte, mas obedecendo a cuidadosa investigação do terreno em que repousa, e, hoje, o lago artificial é um dos encantos da cidade; o lago, como toda a cidade, é um prolongamento das pistas do aeroporto, cabeça de Brasília, que representa a síntese das possibilidades brasileiras no campo da tecnologia e da cultura.

A parte correspondente às estruturas de concreto armado, utilizadas para manter o equilíbrio desses edifícios de Brasília, oferece aspectos novos. A cúpula correspondente ao Senado, no Parlamento, é um paraboloide de revolução apoiado sobre as vigas da grande plataforma da cobertura; a que corresponde, no mesmo edifício, à Câmara dos Deputados é um conjunto constituído – enumerando-se de baixo para cima – de uma casca limitada pela superfície de uma zona de elipsoide de revolução, abaixo do equador; tangente a esta primeira está uma segunda, limitada pela superfície de um tronco de cone invertido; no ponto de tangência das duas, para sustentar o forro do plenário da Câmara, insere-se uma terceira casca limitada por uma calota esférica. Não só a que tem a forma de uma zona de elipsoide como a de calota esférica ofereceram várias dificuldades, sendo que esta última, extremamente rebaixada (relação flexa/corda de 1/14), foi calculada pela fórmula de Gravina para este tipo de casca.

A estrutura da Catedral é constituída de seis elementos de forma estranhíssima, são verdadeiros arcobotantes, não mais escorando uma abóbada, mas escorando-se entre si: têm, ao rés do chão, um anel de tração, e, na junção que fazem, ao alto, um anel de compressão que fica escondido dentro dos próprios elementos construtivos da estrutura. Estes arcobotantes sustentam ao alto uma laje de cobertura de forma circular com 16 metros de diâmetro, assim como sustentarão lateralmente grande esquadria de vidros; a forma da catedral está teoricamente envolvida por uma série de superfícies tangentes: tronco de cone, zona de pseudoesfera, duas zonas de toro (internas), e, na parte mais alta, uma zona de hiperboloide de uma folha, e de revolução.

Todos os outros edifícios – Palácio da Alvorada, Palácio do Planalto e mais recentemente o “Palácio dos Arcos” (Itamaraty de Brasília) – ofereceram dificuldades não pequenas na constituição estrutural.

A cidade de Brasília foi, assim, a obra de um grupo de homens de boa vontade, desde o presidente da República até o candango, servente de pedreiro.

Texto, sem data, publicado no livro “Poesia Completa e Prosa” (2007), pela Editora Nova Aguilar e Fundação Joaquim Nabuco.

Transcrito da Revista “O Pioneiro” (abril de 2013), sob o título “A Construção de Brasília: Uma cidade como por encanto”.

O Catetinho

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Os amigos de JK se cotizam. Menos de um mês depois, o Catetinho surge no meio da mata.

O primeiro palácio de Brasília fica pronto menos de um mês depois da entusiasmada primeira visita presidencial.
Endereço: clareira no meio do mato, fazenda do Gama.
Descrição: palácio tosco, de tábuas, sustentado por grossos troncos de madeira de lei.

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Flor do Pequi

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Flor do Pequi - Por Roberto Castello
Uma estrela assim formosa
Que nasce aqui no cerrado
Do pequizeiro é a rosa
E seu fruto é afamado.

Esta flor é bem sensível,
Não se pode apertar não
Sua reação é incrível,
Ela murcha e cai no chão.

O seu fruto é saboroso
Quem o come não esquece.
Sem espinhos é gostoso,
Vem provar, se não conhece.

Hull de La Fuente, poetisa mato-grossense.
Transcrito de “Tantas Palavras”, Correio Braziliense.

Estrela Cadente

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“Numa noite de junho de 1979, eu estava indo para o Colégio Planalto, na 908 Sul, quando uma imensa estrela caiu. Clareou tudo ao redor e fiquei fascinado com o acontecimento. Fui para a sala de aula e não conseguia me concentrar em nada. Agoniado, resolvi voltar para casa e escrever algo. No meu quarto, peguei caneta e papel e escrevi de primeira: ‘Cai dos ares, vem dizer/O caminho da esperança/Vem deixando rastros/como um feixe de luz…’ Na hora me lembrei do amigo Edbert Bigeli, meu colega na Escola de Música, e na mesma noite ele fez a melodia”

Paulo Maciel, Mel da Terra

Ouça a música:

Menina na inauguração

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Por Ana Miranda
 
21 de abril de 1960 era o grande dia, esperado, sonhado. A cidade ia ficar pronta. Eu não duvidava,  meu pai não duvidava. Ninguém duvidava, e meu pai ria quando lia num jornal que alguém duvidava. Gente besta. Gente invejosa. Era simplesmente natural que ficasse pronta, como uma árvore cresce e fica pronta. Já estava quase pronta. Já está pronta! Foram anos vendo as matas derrubadas, a água enchendo o lago, esqueletos de prédios, de um dia para o outro, mudando o nosso caminho, valas se abrindo, fechando, ruas se abrindo, sendo asfaltadas, piche na sola do sapato, lojas novas, uma confeitaria, palácios, escolas novas, novas casas, a água jorrando nas torneiras, a luz acendia, cada dia uma nova família morando na quadra, crianças novas na escola. Você é de onde? Sou de Araguari. Sou de Patos. Sou de Uberlândia. Sou de Quixadá. Sou do Rio. Tudo aparecia naturalmente. Aquilo era o mundo, o mundo era assim. Vai ter uma festa.

Agora os ensaios na escola. Ao som de uma banda, ensaiávamos o desfile, marchando com nossos pezinhos frágeis, indecisos, mas estávamos orgulhosos. A festa era nossa. Em casa, mamãe preparava o uniforme de gala. Fomos à plissadeira, para marcar as pregas no tecido das saias novas, a máquina de plissar soltava fumaça, fazendo um barulho de sopros, e lá estava mamãe à máquina de costura, pregando cós, fazendo bainha, comprimento abaixo dos joelhos, alfinetando, vamos  fazer a bainha da saia, ponto atrás, um aqui, um ali, mamãe cortando e costurando as blusas. Provas dos uniformes. Compramos meias e sapatos novos. Doíam nos pés. Ouvíamos, e corríamos para ver os aviões ensaiando no céu. A cidade se enchia de carros, ônibus, caminhões. Era mais difícil atravessar a W3, sempre tão vazia. Agora precisava esperar. Esperar. Cuidado para atravessar a rua!

As lembranças de uma criança, eu tinha então oito anos, são difusas, misturadas, feita de relampejos. Na escola veio um fotografo a tirar chapas de cada aluno, para um diploma de testemunha da inauguração. As tranças cortadas…Lembro Juscelino na frente do palácio do Planalto, bem distante, pequenino, ladeado por outras pessoas, as duas mocinhas filhas dele, eu até sabia o nome delas, Márcia e Maristela, que lindas! O pai fazendo um discurso na frente de todo mundo. Lembro soldados desfilando, de roupas estampadas, com bandeiras, cachorros. Tratores no asfalto. Os jatos no céu finalmente se apresentando, soltando fumaça, voando baixo, mergulhando, parecia que iam cair, será? O nosso desfile, meu coração batendo forte, concentrada para não errar o passo, segurando uma bandeira, os tempos fortes dos tambores. E o sol da liberdade em raios fúlgidos…

Onde está mamãe? Um homem de cartola, que chapéu mais engraçado, parecia um mágico de livro. Uísque caindo dentro de um copo cheio de gelo, mamãe de sapatos altos, sim, as mulheres eram elegantes, iam assistir a uma festa de multidão em sapatos altos, o vestido justo nos quadris. Papai de terno, com a mão no peito, uma lágrima escorrendo pelo rosto. Tiros de canhão! Um homem via ser morto, meu Deus! Usa um vestido branco comprido e tem uma corda no pescoço, sei que é Tiradentes, um balé na frente das torres, entre as cuias iluminadas, um balé de gente pequenina, uma miniatura de balé, índios! Índios! a pluma na cabeça de um soldado, carros de corrida na rodoviária, um atropelamento, dizem que a moça ficou com os cabelos arrepiados, de arrepiar, Juscelino desce de um helicóptero, no meio do balé, o céu de noite iluminado por fogos, fumaça, que encanto! Fachos de luzes cruzando o céu, e um momento de magia, o momento mais nítido na memória, um longo instante, formando-se perto do horizonte as letras J e K, e o rosto de Juscelino! Numa chuva de estrelas. Como era possível fazerem aquilo? Deitada na cama, com sono, como era possível fazerem aquilo? Fazer a cidade.
 
Texto transcrito do Correio Braziliense, 07/10/2012.

Luís Martins da Silva 

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Luís Martins da Silva vê Décio Pignatari na “Plataforma superior da Estação Rodoviária”, a contemplar pela primeira vez a praça dos Três Poderes, em 1965, quando teria exclamado: “Mas é Atenas! Uma Atenas marciana…”. Só a ausência dos deuses causaria estranheza! O poeta (em “Pulsações de um planalto central”) refere a ausência: “Nem acrópoles/Nem Pirâmides//Nem eram Atenas/Nem era cidade”. A Brasília em construção (ainda) oferecia alguma compensação: “Eram apelos cifrados/Aos astronautas de Nazca” (ou Nasca: cidade do Peru, centro comercial e turístico, situado no local de um centro de civilização pré-colombiana). Os “apelos cifrados são as siglas e abreviações características da Capital Federal: SQN (Salvem Quem Necessita)//SQS (Socorro Queremos Socorro)//SOS (Save Our Souls)”, etc. O poeta fala dos “Navegadores noturnos”, os boêmios e os vagalumes [(“Pirilampos (De Beirute)”]. Não se trata da cidade, mas do bar, local tradicional de encontro de escritores. É onde “os sonâmbulos da cidade”/ “(…) sobrevivem aos naufrágios. Luís Martins revela a existência de “Árvores-relógios”: “Cá existem espécies que são relógios, não árvores”. “Flores são cronômetros, copos, mostruários.”// “Se é outono, são bromélias, camélias, azaleias, dálias”// “Se é verão, fogo ardente, flamboyants, radiantes, carmins”. “Estranhas  florações” retornam de certo modo a ideia, e revelam: “Não parecem flores, não parecem frutos,//Estranhas formas, cada estranha criatura!//Exóticas floras, estranhas formosuras”. O fogo é fogo (principalmente no cerrado), apresenta-nos o “Bruxo bruxuleante”// “Bicho fúlgido e fugidio,”//famélico/carburante”. Brasília é “Patrimônio (cultural) da humanidade”, desde o governo José Aparecido de Oliveira. O poeta recomenda: “Não joguem pontas de cigarro no gramado!”. E revela: “Mas, agora, deve-se fazer o registro:/As maiores riquezas naturais dos Cerrados são: céu (…), O céu a doer nos olhos,//Em todos os lados do olhar” vem “(…) de cima da Torre” (que) “mais parece cabine”, conforme observa o poema “Primeiro passeio turístico”. “3×4” nos faz volver ao tempo dos tranquilos “lambe-lambes”. “Passagem de pedestres” leva o leitor pelas “Tardes fugidias” na “Água mineral”, parque por muitos  eleito como ponto de lazer e turismo.
 
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.
 
 

POEMA DO AMOR SEM EXAGERO

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Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto Corpo!
Mais ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua de pérola
Do teu corpo de nuvem.
 
Joaquim Cardozo, poeta pernambucano. Foi o engenheiro
calculista dos principais palácios de Brasília.

Brasília: ou reflexões sobre o poder

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A
o poder é boquirroto
e às vezes aborto
de um parto arrevezado.

o poder é falácia
se assentado em mapas
de areias movediças.

o poder é farsa
quando a mão que o traça
já nasce corroída.

B
no trato
com o poder
o cuidado com o bote
                                no fundo
                                do pote.

no trato
com o poder
                                 o destino
para o boi de corte.

no trato
com o poder
                                  a vocação
para bobo da corte.

Adão Ventura, poeta mineiro.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”
Correio Braziliense, 3/4/2008

O segredo da Senhora

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Conceição Freitas

Minha Senhora, conte-me seu segredo. De onde a Senhora tira tanta majestade, tanto vigor e tamanha beleza e altivez em dias tão áridos, donde nos falta o ar apesar da imensidão do céu e da multidão de áreas verdes? Me conte lá, por favor, como a Senhora consegue ser tão exuberante, viçosa, verdejante.

Toda Brasília deste setembro insano está coberta por um tapete amarelo-acinzentado, a grama murcha há muito pede clemência. (Exceto, claro, a Brasília que não tem medo da conta de água). Nessa Brasília esturricada, a Senhora surge lindamente vestida em seus muitos tons de verde, cabeleira black-power sustentando-se num tronco rijo que transmite segurança e mistério. De onde mesmo a Senhora tira tudo isso?

Sabemos todos os que a acompanham há décadas que a Senhora tem vários momentos de esplendor ao longo do ano e ao longo dos anos, sem que jamais tenha se deixado levar pelos ventos mais ou menos tormentosos da vida. Se chove, tudo bem, se não chove, do mesmo jeito.

A Senhora tem uma capacidade de suportar a espera, de florescer em qualquer circunstancia. Quando fica mais feia (grave injustiça, porque feia a Senhora nunca fica), quando a Senhora fica menos bonita, deposita plumas ao seu redor.

Agora, por exemplo, Brasília inteira está com a pele trincada, mas a Senhora exibe uma textura sedosa. Depois, todas as suas folhas vão cair e a Senhora ficará nua em pelo – com uma beleza de desenho de nanquim. Ficará longilínea e ereta como uma top model.

Quem não a conhece não sabe o que é aprender com o seu sábio silêncio. Pode começar, então. A Senhora, aviso a seus futuros fãs, vive há quatro décadas em frente ao Palácio da Justiça, do outro lado do Buriti. Esse é um bom momento para conhecê-la porque a Senhora está garbosamente verde.

São muitos os seus admiradores, caso disso não saiba. E são fiéis e leais à Senhora. Nenhum deles, porém, conhece mais a Senhora nesta Brasília do que Ozanan Coêlho, o eterno diretor de Parques e Jardins da cidade. Ele a admira tanto e tanto que já disse aos seus que, morto, quer virar cinzas e quer que elas sejam espalhadas em quatro pontos da cidade: na copaíba da 309 Sul, no buriti em frente ao palácio, no balãozinho em frente à sede da Polícia Federal e…na paineira em frente ao Tribunal de Justiça. A Senhora receberá então um pouco da substância que deu vida ao doutor Ozanan, o jardineiro de Brasília.

Ele conta que a Senhora era uma menina quando a viu pela primeira vez, em 1967, durante a construção da Praça da Municipalidade, que a produção rebatizou de Praça do Buriti. A idéia era limpar o terreno para construir a região administrativa de Brasília. Ozanan decidiu poupá-la, nem  sabia exatamente a razão. Hoje, sabe. A Senhora é uma paineira singular. Chega a florescer duas vezes ao ano, comportamento não muito comum à sua espécie. “Ela é toda cheia de lero”, diz Ozanan. E é protegida por lei.

Texto transcrito de “Crônica da Cidade”, de 22/09/2007.

O Segredo da Senhora

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Capa Sem Comentários

Paineira

Foto: Marcos Brandão
O Segredo da Senhora

Minha Senhora, conte-me seu segredo. De onde a Senhora
tira tanta majestade, tanto vigor e tamanha beleza e altivez
em dias tão áridos, donde nos falta o ar apesar da imensidão
do céu e da multidão de áreas verdes? Me conte lá, faz favor, como a Senhora consegue
ser tão exuberante, viçosa, verdejante.

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