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Um telefone é muito pouco

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“Cheguei a Brasília em 1974, vindo de Salvador, para fazer uma exposição. Na época, carregava sempre comigo um uma boa foto que violão. Foi nele que compus Um telefone é muito pouco.  

Estava namorando uma menina que morava “Nas casas” (zona de prostituição, localizada depois do Gama). A comunicação com ela era dificílima, pela distância que nos separava e pela telefonia, que naquelaépoca era precaríssima. A musica virou sucesso já nas primeiras audições e tornou-se conhecida nacionalmente, depois da gravação de Léo Jaime”

Renato Matos

Fala, Dr. Lúcio

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“Eu tinha idealizado uma cidade assim, mais civilizada, que ocorreu em grande parte, e aí está esta cidade, uma cidade serena, uma cidade bela, uma cidade que é, enfim, diferente de todas as outras cidades brasileiras. E, como tal, é normal que ela seja diferente das demais cidades, porque é um caso singular, um caso único

O projeto todo de concepção de Brasília foi visando a isso, um projeto para fazer em três anos o arcabouço da capital definitiva do país. Nisso é que fui feliz. Estava imbuído de uma coisa mais digna, uma coisa para que cada brasileiro que venha a essa cidade nova e que venha de uma metrópole antiga, como São Paulo, Rio, ao chegar aqui não se sinta numa cidade de província, mas na capital do país, pelas dimensões, pela grandeza de intenção. Sentindo aquela nobreza de intenção, aquela dignidade que inspira um certo respeito. Eu estou aqui, gosto, não gosto, mas estou na capital. Ela, de saída, assumiu a posição de capital”.

Como conciliar esta escala ampla com a escala doméstica, a escala residencial, que é uma escala ao contrário, uma escala concentrada, limitada? Então, me vi diante dessa contradição. Aí surgiu a ideia de criar estes grandes quadrados, emoldurados de árvores. E como se uma moldura verde dentro desses quadrados que, por serem grandes, de 300 metros de lado, estavam na escala monumento do Eixo. Assim, eles se articulavam bem, estabeleciam uma unidade de composição e criação. E dentro do quadrado, então, construir os edifícios residenciais, limitados a este gabarito sereno, que é fundamental. E deixar a cidade explodir no encontro dos dois eixos, com esses edifícios altos, inclusive com duas barbaridades que eu gostaria de denunciar, o edifício do Banco Central e o segundo edifício do Banco do Brasil, feitos pelo mesmo criminoso. Foi coisa inconcebível que se fizesse aqueles dois edifícios cabeçudos, aquela coisa de uma pretensão, de uma vulgaridade que ofende a serenidade do ambiente de Brasília”.

Trecho da entrevista concedida ao repórter Omar Abudd, do Jornal do Brasil, em novembro de 1984.

 
 

Quando eu era menina em Brasília

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Por Ana Miranda

O meu amigo poeta disse que não gostava do hotel vermelho que fica perto do Palácio da Alvorada. Fiquei pensando nisso…Sempre fico pensando nas coisas que o poeta fala sobre Brasília, porque além de poeta ele é alguém que realmente conhece e ama a cidade. Mas ele não gosta do hotel porque é vermelho. E o que eu mais gosto naquele hotel é que ele é vermelho.

Claro, sei bem, de gustis ET coloribus non est disputand. Mas imagino aquele vermelho como o vermelho da terra de Brasília se levantando do chão, aquele vermelho das valas, das trilhas, dos rodamoinhos, vermelho da poeira, vermelho dos nossos lençóis e sobrancelhas, quando eu era menina em Brasília as minhas sobrancelhas e os travesseiros viviam vermelhos de poeira. Vermelho também das caliandras vermelhas que nascem absolutas no cerrado. Vermelho do sangue dos candangos derramado na construção da cidade e vermelho do coração do poeta que ama Brasília…vermelho da alvorada.

Mas ele também não gosta que o hotel fique tão perto do palácio, invadindo seus jardins e tirando a intimidade dos moradores. Bem, o palácio sempre foi aberto, já dizia o John dos Passos, “é um prédio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de águas claras. As divisões internas também são de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta”. Presidente não tem intimidade possível, a transparência e uns bons postos de observação serão sempre o olho do povo tomando conta de quem toma conta do povo.

O autor do projeto do hotel vermelho é Ruy Ohtake, arquiteto que tinha intimidade com Oscar Niemeyer, uma amizade grande e antiga. Eles se viam todos os anos, em data marcada. Punham os assuntos em dia. Oscar gostava das obras do Ruy, e deve ter aprovado de coração e ideologia a cor vermelha do hotel. Ruy é o arquiteto das cores, seus edifícios são azuis, verdes, roxos, róseos, palhas douradas…Ele tem mesmo um dos mais bonitos projetos de arquitetura que conheço, falando de arquitetura social. Um dia ele disse numa entrevista que Heliópolis era um lugar feio. E foi desafiado por líderes comunitários dali a tornar o lugar bonito. Heliópolis era um bairro pobre nos arredores de São Paulo, com todos aqueles problemas de bairros pobres e casas muito precárias, com fachadas sem reboco.

O arquiteto conversou com os moradores, e soube que queriam reboco e pintura nas fachadas das suas casas. Ruy desenhou a rua, casa a casa, num papel e apresentou uma cartela de tonalidades. Cada morador escolheu uma cor, ou várias cores. Com o patrocínio de uma fábrica de tintas, que também deu curso de pintura de parede a moradores desempregados, a pintura foi executada. E o resultado, surpreendente, alegre, maravilhoso, transformou a comunidade, mesmo interiormente.

Além disso, foi feito um projeto de arte e educação, construíram uma biblioteca, um cineminha, uma galeria de exposições, um centro de aperfeiçoamento profissional…Mas o que importa, agora, é a cor. Um morador disse: “Para mim o azul era azul e pronto, mas agora conheço tantos azuis diferentes…” O que leva a pensar, depois dessa disputa entre prosa e poesia, que continuamos sem saber a diferença entre vermelhos e vermelhos…”

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 06/94/2014, sob o título “Vermelho em Brasília”

Improviso Em Trequada

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Cevs Volpi, poeta carioca
Jóta Stilben, poeta brasiliense

Octavio Mora

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Octavio Mora situa-se entre os aqui já referidos que pensam na cidade “Antes do tempo”, em sua pré-história, em priscas eras. Os peixes antediluvianos, as águas das chuvas, os rios que haveriam de surgir. O protótipo da cidade “feita/de nuvens, como as nuvens, no ar”. As imagens que o poeta constrói, sutis, levíssimas, quase diáfanas, escapam ao nosso domínio, e se vão somando, para dar corpo ao poema. E, ao final, a revelação clara, categórica: “Surge a cidade, feita/de luz, onde se escondia./E antes de ser, já é: perfeita” (“A cidade”). O segundo poema de Octavio Mora, “Paisagem”, desenvolve-se no mesmo tempo. A terra, as águas, a luz, o mar extinto anunciam a cidade que “aos poucos surge”.

Texto transcrito da antologia poética, “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

UM RIO CHAMADO CORAÇÃO

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O rio não responde

quando lhe pergunto onde vai,

ele de meu coração não sai.

Meu coração é feito dessas pedras

que pelo rio vão rolando

como lágrimas

daqueles que o perderam.

Meu rio é feito dessas lágrimas

que salgam o mar de lama

que nos cerca.

Mas meu mar não é azul nem verde

ele tem a cor das raízes

das árvores que no leito do rio

vão tombando.

E com minhas lágrimas

meu rio vai secando

e meu triste coração murchando.

 

Nicolas Behr, poeta natural de Cuiabá.

Poema transcrito do Jornal “Ecoação”

BRASÍLIA

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Se fosse abraço

me fundiria em ti.

Se fosses luz

me esculpiria em tua sombra.

Se fosses orvalho

me derreteria em teus lagos.

Se fosses ilusão

te sonharia licenciosa.

Se fosses remanso

me embalaria nos teus côncavos.

Se fosses tudo

o que és,

Brasília dos mil poderes

mágica alucinação

do desafio

se fosses

então eu seria em ti.

 

Sofia Vivo, poetisa natural de Montevideo, Uruguai

Poema transcrito do acervo da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília

BRASÍLIA

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Beleza que contorna a norma brusca, e renasce

Se torna inumerável de vida

Faz do céu uma plataforma azul

Onde mora o mistério do simples e infinito.

 

Em anos, dias mais belos e puros

Dançarei nos seus frágeis outonos

Cúmplices de seus seios brancos

Sem medo ou fúria de falsos donos

 

Mas nessa primavera de tristezas,

Acalento todas nossas saudades desatinadas

ao som de todo nosso silencio amargo

Brincando fazer tuas esfinges de sol coroadas.

Amo mesmo tudo que não posso tocar, mas que me toca sem sentir.

Thais Lima Rocha

Poema transcrito do Concurso Nacional de Poesias

Quando saí do quadrado

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Post de Cevs Volpi e Jóta Stilben, via Facebook

Brasília revisitada

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Para Adirson Vasconcelos

Que sei de ti?

Que sei de mim?

Volto às origens de tudo: barro.

Tumulto e barro mal comprimidos

no largo espaço do meu espanto.

Vagas lembranças de um pé-de-vento

e o redemoinho varrendo sonhos.

Desde o começo desta epopeia,

homens e bichos se circunscreveram em puídos mapas,

em utopias de sonhadores do amanhã.

Volto ao passado,

Vejo o presente

e a solidão frutificada.

João Carlos Taveira, poeta mineiro

A marcha do Apocalipse

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Jogaram os homens lá fora

Jogaram os homens na rua

Jogaram as mulheres lá fora

Jogaram as mulheres na rua

 

Nasceram meninos lá fora

Nasceram meninas na rua

 

Jogaram os detritos lá fora

Jogaram os alimentos na rua

Jogaram os farrapos lá fora

Jogaram as vestes na rua

 

Nasceram mendigos lá fora

Nasceram mendigos na rua

 

Jogaram a justiça lá fora

Jogaram o marxismo na rua

Jogaram a fome lá fora

Jogaram a luta na rua

 

Nasceu a miséria lá fora

Nasceu a desgraça na rua

 

Jogaram Jesus lá fora

Jogaram Barrabás na rua

Jogaram o amor lá fora

Jogaram o ódio na rua

 

Nasceu a vida lá fora

Nasceu a vida na rua

 

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.

Poema transcrito do livro “Corpos de concreto”

Choro sorrindo

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O Clube do Choro

É um pedacinho do céu

Na noite de Brasília

É uma sonífera ilha

De sons-maravilhas

Sortidos & Alados

O Clube do Choro

É um bordado

Uma sinfonia

Usina de notas

Brasileiríssimas

Soltas no palco

Iluminado por carícias

Da citara de

Aveno de Castro

Lá, o não é nunca

E o sim tem o som

Sempre sincopado

Quando vou ao

Clube do Choro

Ahh, Chiquinha

Não vou sozinho

Vou sem medo

Quando não bebo

Bashô

Bashô

Bashô o santo

Agora todo Japão é banto

África

Olhai em si

O que não é haicai

É oriki

Teatro Nô

Em jogo de Ifá

My Butterfly

Vai piorubá

 

Luis Turiba, poeta pernambucano

Poema transcrito do livro “Qtais”, 7 Letras

CASTRO ALVES, FILHO DE BRASÍLIA

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Patrimônios, os dois, da humanidade;

deles são a petúnia, a sálvia, a gília

dos canteiros de flores da cidade.

 

Ambos buscaram (noites de vigília!…)

conseguir, preservar a liberdade.

Esse bem, garantia de família

e riqueza maior da sociedade.

 

“Cecéu”, um apelido da infância.

Por símbolo o condor – gênio entre as aves -,

para um gênio de andina culminância.

 

No céu da poesia ele é um astro:

Antonio Frederico Castro Alves.

A mãe: Clélia Brasília Silva Castro.

 

José Peixoto Júnior, poeta pernambucano

Poema transcrito da antologia poética “Sonetos de Bolso”, de

Jarbas Junior e João Carlos Taveira

Missão Cruls: 120 anos

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O homem que marcou o lugar

Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Em consequência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias (1854-1936); ministro da Fazenda e da Agricultura, (de 23 de novembro de 1891 a 23 de junho de 1892), por meio da portaria de número 119-A, de 17 de maio de 1892, organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, escolhendo para chefiá-la o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls (1848-1908), que, na época, era professor da Escola Superior Militar e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional. Ao comunicar essa designação, o ministro deu as seguintes instruções que deveriam nortear a demarcação da área, onde mais tarde, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976),  seria  construída Brasília, sem dúvida uma das mais belas capitais do mundo moderno:

“No desempenho de tão importante missão deveis proceder aos estudos indispensáveis ao conhecimento exato da posição astronômica da área a demarcar, da orografia, hidrografia, condições climatológicas e higiênicas, natureza do terreno, quantidade e qualidade das águas, que devem ser utilizadas para o abastecimento, matérias de construção, riqueza florestal, etc., da região explorada e tudo mais que diretamente se ligue ao assunto que constitui o objeto da vossa missão”.
“No decurso de tais trabalhos e tanto quanto possível, podereis realizar não só os estudos que julgardes de vantagem e utilidade para mais completo desempenho do vosso encargo, mas ainda os que possam concorrer para a determinação de dados de valor cientifico com relação à essa parte ainda pouco explorada do Brasil”.

Procedimentos

Para se ter uma ideia dessa missão, convém assinalar que, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos – tais como dois círculos meridianos portáteis, teodolitos, sextantes, micrômetros de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópicos, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneroides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação – a Comissão levou uma pequena oficina de aparelhos mecânicos, destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente. Todo esse material ocupou um total de 206 caixas e fardos que pesavam ao todo cerca de dez toneladas.

Em 8 de junho, foi concedida anistia a todos os cidadãos detidos e expulsos durante os conflitos ocorridos em abril. No dia seguinte, mais exatamente, no dia 9 de junho, ocorreu a partida da Comissão, do Rio de Janeiro para Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Desse ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxilio de animais cargueiros. Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de junho, tendo em vista todos os preparativos para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga, mas também na orientação das trilhas a serem percorridas. Uma greve dos ferroviários da Central do Brasil, em 22 de julho, paralisou os transportes, o que indiretamente motivou o pequeno atraso.

Todos os itinerários percorridos foram levantados cuidadosamente pelo processo americano de caminhamento, que consistia em se servir do podômetro, da bússola e do aneroide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha – adaptado aos animais, foi usado para determinar a distância por eles percorrida, uma vez que se conhecesse a extensão do passo dos diferentes animais, cujos valores, segundo Cruls, variaram dentro dos limites de 0,66 e 0,72m. Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneroides, a altura. Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, os astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas, com o objetivo de determinar as coordenadas geográficas, com o auxilio dos sextantes, por meio das alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Depois que deixaram Uberaba, a caminho de Pirenópolis, a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios e Bonfim, chegando em 1 de agosto ao seu destino. Em Pirenópolis, a 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o planalto, a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma – chefiada por Cruls – seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre d’Armas (hoje Planaltina), chegou em Formosa a 14 de setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudessem servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário. Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares – quer pela passagem da Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura -,  quer  por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento, faziam-se visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.

Ambas as turmas, em especial a segunda, determinaram, desde a sua partida de Pirenópolis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram no seu trajeto.

Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da Comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Uma delas seria adotar uma forma irregular, para a zona do futuro Distrito Federal, na qual tornar-se-ia para limites os sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seguiria o exemplo dos EUA, onde os limites dos estados da sua federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Imaginou Cruls que se fosse adotado o critério norte-americano, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos.

A primeira solução – a forma irregular – exigiria um longo tempo para a sua demarcação, em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, definitiva e absoluta, por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal – preenchia melhor a proposta. Tinha também a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que pudessem surgir entre os estados limítrofes. Na verdade, as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos, delimitam a área demarcada e tornam possível verificar, a qualquer momento, a posição exata no terreno dos limites da zona. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferoide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.
Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso, inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais, etc.

Com base nessas considerações, Cruls concluiu que a forma mais conveniente seria um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 quilômetros como arcos de paralelo e meridiano. De modo que o quadrilátero teria uma superfície de 14.400 quilômetros quadrados, como havia sido determinado na Constituição.

Texto transcrito do livro “Luiz Cruls: o homem que marcou o lugar”, Gráfica e Editora Qualidade.

Moacyr Félix

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Moacyr Félix vê a Taguatinga do tempo dos pioneiros, quando tudo era improviso e desconforto. O Lago Paranoá, projeto ainda, iria ao paulatino represamento, submergia vilas, i. e., as chamadas “invasões” (favelas) que hoje dormem no fundo de suas águas. Banhava o altiplano apenas a lua, que “era um lago podre”. Mesas de madeira, chão batido, moscas, salaminho, cachaça, constituíam o mundo do poeta. Então, em cenário mais ou menos de far-west, enquanto a noite caia “entre as garrafas”, os companheiros se transportavam para os “louros tempos”, a estabelecer os mais agudos contrastes entre uma civilização consolidada e antiquíssima e o mundo bruto a que vieram ter quando ainda terminava a década de 50.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

O império tapuia do cerrado

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Por Ana Miranda

O cerrado em quase todo o seu território foi povoado pelos índios jês, que eram tapuias, o que foi chamado por Paulo Bertran de “O império tapuia do cerrado”. Um império indígena. Bela a imagem com que Bertran homenageia os índios do cerrado, porque império, além do território governado por um imperador, significa estado muito importante ou vasto, de caráter mesclado. “Império sólido, rústico, incomunicável à língua-geral e aos modos comuns mais flexíveis…”

Tapuia foi o nome dado pelos índios que falavam tupi-guarani aos que se expressavam em outras línguas. Se falavam uma língua diferente, também os costumes eram diferentes, como o de morar em casas cavadas na terra e não naqueles casarões de palha. Os jês eram povos errantes, savaneiros, guerreiros bravios, caçadores, caceteiros, hábeis em quebrar crânios humanos. Avessos ao contato com o branco, com quem lutaram por longo tempo. Muitos são os nomes de famílias, grupos, tribos, etnias. Akwen, avá-canoeiro, tenetehara. Goiases, quirixás ou crixás do Planalto, régulos matadores, acroás. Carabás. Havia tapirapés nas margens do rio Tocantins e guajajaras e aricobés que eram ilhas tupis. Acoroaçus. Açus, xacriabás. Caiapós, xavantes, xerentes. Araés, abaixo do rio das Mortes. Os temidos canoeiros, e os apinagés que são timbiras ocidentais, e orientais os krahós. Os preguiçosos capepuxis no Araguaia e os arauaquis ou aroaquis e bilreiros. Javaés, xambioás…Bareris. Os carajás, carajaúnas, carajapitanguás, “moles e patifes”, dizia um capitão-mor. Xacriabás removidos. Cayapós de mossâmedes, gorotires, gradahus…Caiapós eram “o mais bárbaro e indômito de quantos produziu a América.”

Os goiases, ou goiazes, ou goyazes, que deram o nome a Goiás, eram comedores de caranguejos, goiá é caranguejo em tupi, diz Bertran. Da palavra Goiás derivam goianazes, goitacazes e talvez cataguazes. Dos goiazes derivam goianos e alguma gente de Brasília, com olhos puxados. Quem tem um espelho? Os goyazes eram bonitos, de pele clara, acolhedores, de trato ameno. Interessante, diz Bertran, no século 18 ocorriam casamentos de brancos com gente da terra, gentios, ou índios, quase não havia mulheres brancas e aconteciam esses casamentos, mesmo de senhores com índias, que davam ensejo à adesão da tribo aos interesses senhoriais, alguns senhores passavam a ter, pelo casamento com uma índia, poder parental sobre a gente indígena, e usavam esse poder para conseguir escolta durante viagens, conhecimentos de caminhos e geografias, de remédios, de alimentos, proteção a suas fazendas, descobertas de ouro e minérios, pois, se o índio não usava o ouro em suas artes, com certeza sabia onde encontrá-lo brilhando à madre das águas e entre cascalhos e rochas.

Casar-se com uma índia, revelou Bertran, eram muitas vezes um motivo de dignidade. Aumentava o poder senhorial com um exercito de guerreiros não inimigos. E Bertran imaginou colonizadores solitários a namorar belíssimas índias, tornando-se cunhados de guerreiros e senhores da natureza, a buscar recursos e sobrevivência. Ele se lembra, mesmo, de um decreto real estimulando a povoação do território, ainda que fosse com filhos de colonos com índias. Crianças e adolescentes indígenas iam se criar em lares vilarengos. Rapazes iam para Portugal, e voltavam padres. Índias “lindas, ainda moças, muito claras e benfeitas” eram mandadas de presente. Alianças nupciais com bandeirantes. Noites inesquecíveis de amores. Os catequisados fingiam que trocavam de crença. Não mais reinavam.

Acabou-se o império dos tapuias. Foi uma grande perda que a historia não soube evitar. Uns grupos ficaram reduzidos a poucos sobreviventes, ou foram habitar em outras matas. Vencidos, aldeados. Morriam famintos, acossados, ou de doenças brancas. Os pacíficos eram escravizados. Os bravios eram mortos. Matanças por séculos. De uns 30 mil restaram uns 4 mil, em meio século, o 19. O cerrado perdeu o seu império vermelho. Ficou a terra vermelha. Ficaram rios vermelhos, serras douradas…A musica indígena é rica, variada, única e universal. A cerâmica, a arte das plumas, as cestas, os grafismos, os mitos, as lendas, o modo de conviver com a natureza, as ciências e magias… tudo rico, variado, único e universal. Tudo nosso. Um tesouro que faz muito mais falta do que o ouro levado.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 5 de maio de 2013.


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