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Arquitetura Nascente

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(…) Mansão. Castelo. Catedral.
Marmórea manhã subindo
Arbórea ascenção votiva Cingindo a
cidade imortal.
Volume a se conter bem perto,
Espaço a se expandir tão longe,
Mar aberto a proa do navio,
Trens Coleando rampas nos montes…
Ponte pênsil: raiz aérea
Transpondo a beleza abissal,
Avião a jato projetando
O abismo em vôo monumental.

Joaquim Cardozo, poeta pernambucano

Paulo Porto

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Paulo Porto, como informa sob o título de “O sonho de D. Bosco (I)”, inspira-se em “uma mensagem de Pessoa”. Trata-se evidentemente de “Ulisses”, que assim se inicia: “O mito é o nada que é tudo”. Daí sua conclusão, segundo a qual “O mito é a palavra dada/que se fez mundo”. “O corpo morto de Deus” (4º verso da mesma estrofe 1ª), do lusitano, recria-o Paulo Porto e temos, então: “O horto mudo de Deus”. “Sem existir nos bastou/Por não ter vindo/E nos criou.” (4º e 5º versos da estrofe 2ª) transmuda-se e torna-se “Este mito que aqui germinou (…)//Por não ter vivido/Foi ouvido e nos ergueu”. Com habilidade, o jovem poeta, o único autenticamente brasiliense desta coletânea, apossa-se da voz de Fernando Pessoa, e a funde à expressão profética ou lendária (“Ele é lenda que se fez palavra” – 3º verso do 3º quarteto) do sacerdote salesiano. Na exegese que faz de “O sonho de D. Bosco (II)”, diz Paulo Porto que “o poema aborda, de maneira ficcional, o que teria sido a visão do Novo Milênio. Minha narrativa acrescenta à tal visão outras, como o envilecimento do sonho de JK pelos militares, durante os anos da ditadura”. O ‘rio humano’ do poema seriam os pioneiros que foram sinalizados (no sentido camoniano”: ‘as armas e os barões assinalados) pelo sonho de uma cidade até então mítica, profética; porém não vieram para a construção. Deste rio humano escolhido mas que não vingou, vieram afluentes, outras pessoas (estes, sim, pioneiros) que acreditaram no sonho de JK. Estes ‘toscos eleitos’ (pois eram rudes em sua maioria) se tornaram os ‘construtores do amanhã’, os candangos”. O poeta faz analogia entre a civilização egípcia e a nossa, daí a referência ao Templo e ao edifício do Congresso Nacional.
Texto transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

A revelação do cisne na concha acústica

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Por Ana Miranda

Tento desvendar minha memória: papai estaciona a Rural Willys ao lado de um monte de carros, é preciso atravessar a pé um mato baixo de cerrado para chegarmos à concha acústica, que ainda está em obras. Estava em obras? Mas era uma imensa concha de cimento com uma sutil madrepérola do luar, diante do espelho de prata das águas do Paranoá, o luar é uma lembrança de minha irmã. Sons da orquestra afinando os instrumentos…memória ou imaginação?

Muita, muita gente, mas conseguimos sentar, bem no alto. Talvez fosse maio, junho de 1960…A paisagem noturna era misteriosa, o fundo da cena era o próprio céu, a lua do cenário era a verdadeira Lua, o escuro era a noite, as luzes talvez fossem…estrelas. E o nome do balé evocava fantasias para as crianças que se achavam patinhos feios. O lago dos cisnes. Sei que assistimos ao Lago dos cisnes em Brasília, e minha irmã tem certeza de que foi na concha acústica. Eu lembro das bailarinas levíssimas, flutuando num chão imaginário e perdido. Então…

Surgem os cisnes, lindas cisnes fêmeas com seus braços que são asas, flexíveis, ondas, iguaizinhas, os tutus de tule franzido são plumas, a concha é lago, nadam, flutuam no meu sonho infantil. O príncipe precisa escolher uma esposa, quando vê os cisnes, e enfeitiçado pela beleza das aves vai caçá-las, o lago pertence ao mago do mal, que enfeitiçou a princesa. E surge a princesa encantada em cisne, mulher belíssima na pontinha dos pés. Salta, flutua, ondula, cai nos braços do príncipe.

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O Povoamento Poético de Brasília

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Por Anderson Braga Horta

Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo da Poesia: Literatura em Brasília”:

A ideia de uma cidade atravessa os séculos encoberta pela névoa da Profecia, que se clarifica no sonho-visão de Dom Bosco. A Palavra – o Logos, o Verbo – está associada a ela, em particular a Criação, a Poesia. E Brasília surge, em verdade, como um Farol de autoconhecimento, de auto-realização, de integração nacional e supranacional, de fraternidade.

O planejamento e a implantação, no cerrado quase deserto, de uma cidade moderna, destinada a ser a capital de um país em ascensão – melhor ainda: a cidade nascida de uma ideia progressista, de um pensamento generoso – mexeu com o País e provocou o interesse do mundo. Natural que estimulasse a imaginação de alguns poetas. Pois, como disse e gosto de repetir, Brasília nasceu sob o signo da Poesia.

Os grandes poetas que primeiro cantaram a nova cidade foram Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida. Vinicius na “Sinfonia da Alvorada” (música de Tom Jobim), Cassiano Ricardo na “Toada para se Ir a Brasília”, Guilherme na “Prece Natalina de Brasília”.

Brasília está, com essa espécie de batismo poético, desde o nascedouro ligada à melhor literatura nacional. A rigor, desde antes, e muito antes, se pensarmos em tudo quanto se escreveu – em tudo o que se sonhou! – sobre a interiorização da capital brasileira. Recordo, a propósito, o caso curioso de Osvaldo Orico, que publicou, no livro “Dança dos Pirilampos”, de 1923, o poema “A Cidade do Planalto”, que lhe parece cair – premonitoriamente – como uma luva.

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Eduardo e Mônica

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“Eduardo e Mônica é de 1980, da época do Trovador Solitário, personagem criado por meu irmão.

Algumas das citações da letra tinham a ver com o dia a dia dele, que fazia natação na AABB, gostava de cinema de arte, lia bastante e fazia seguidas audições de discos.
Embora nunca tenha revelado quem era o Eduardo e a Mônica cantados na letra, deixava no ar a ideia de que poderia ser algum dos casais do seu ciclo de amizade, como o formado pelo diplomata Fernando Coimbra e pela artista plástica Leo Coimbra”.

Carmem Teresa, irmã de Renato Russo

Prometeu do concreto

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Vida atada ao monte da memória,
Sinto no peito o fogo da angústia
Das profecias que em vão cumpri,
Lume de estrelas que um dia perdi.
A gênese do homem, estacionada
Na terra tépida, reflexo vítreo,
Lembra a ambição longínqua, corroída
Pela insidia do Olimpo, vil arbítrio.
 
A ânsia dos restos envilecidos
No cimento do sonho, combalida
Nos versos, sim, e vertendo verdades
 
Que cobrem, nuas, o chão do cerrado,
Erguendo equívoca realidades,
E, ainda assim, fecundando a vida.
 
Ah, a utopia entalhando, moldando
Puras visões na argila da vontade,
Ditando o silencio do vazio
Do mundo povoado pela cidade.
 
Oh, tais são os meus prantos combatidos
No fogo, ardor do riso reduzido
À certeza de mil dúvidas, vida
De degredado, cárcere da carne.
 
Mas a espera é o predestino,
E o presente dos deuses, falácia
De todos os dons: onde Pandora fica
 
Sobrevive, lúgubre, a audácia.
Breve o tempo destila o acintoso
Sonho e ao meu ventre logrado bica.
 
Paulo Porto, poeta brasiliense.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

Pai nosso que estais no céu de Brasília

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O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios de água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.

Ronaldo Costa Fernandes, poeta maranhense, natural de São Luis

Arte e Poesia nas paradas de ônibus

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por Guilherme Pera
 
As paradas de ônibus da W3 Norte são acompanhadas de livros há quase uma década, com as Estações Culturais, idealizadas e promovidas pelo proprietário do Açougue Cultural T-Bone, Luiz Amorim. Nos últimos tempos, uma mudança é visível: as páginas, agora, estão acompanhadas pelos versos de Vicente Sá e as ilustrações de Ribamar Fonseca.

Inspirados na iniciativa do açougueiro e agitador cultural, o poeta e o ilustrador unem os trabalhos e os colocam em paradas da cidade. Até agora, foram três edições do projeto “Poesia de Quinta” (como o nome sugere, sempre às quintas-feiras), sendo a última na semana passada, entre 707 e a 709 Norte. Hoje, amanhecem estilizados os pontos de ônibus da L2 Norte, perto do Hospital Universitário de Brasília (HUB), entre a 405 e 407 Norte.
A ideia é simples: levar a arte ao espaço público, convidar as pessoas do Plano Piloto, habituadas a viverem ilhadas em carros, a andarem pela cidade, verem que há vida nas ruas da capital. É, segundo Vicente Sá, um projeto “de presente” para a paisagem urbana, que, na visão do artista, carece disso.

O poeta lembra casos como do Café da Rua 8, fechado por não poder tocar música, e cita o bloco carnavalesco Galinho de Brasília, impedido de ter o ponto de partida na 405 Sul. “Alguns moradores estão impedindo as pessoas de ocupar a cidade”, afirma. “A capital deve ser de quem anda pelas ruas e não dos que ficam trancados em casa vendo novela”, dispara.

A vontade da dupla é ocupar as paradas de ônibus toda semana. Após 10 edições, Vicente Sá pensa em fazer algo maior. “Quero guardar o material que produzirmos para fazer uma exposição nas paredes do Buraco do Tatu. Em um domingo de manhã, vamos chamar os artistas da cidade e, por ali, aumentar a ocupação das ruas”, explica.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 22 de fevereiro de 2014.

Cyro, o poeta e Brasília

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Por Conceição Freitas
 
Peça preciosa chegou via postal, delicadeza do leitor Pedro Rogério Couto Moreira. Trata-se de cartas trocadas entre o escritor Cyro dos Anjos, em Brasília, e o poeta Carlos Drummond de Andrade, no Rio. Entre o subchefe do gabinete civil da Presidência da República no governo Juscelino Kubitschek e o colega de repartição de Lucio Costa.

Em 23 de maio de 1960, o autor de “O amanuense Belmiro” escreve ao amigo e compadre que, declaradamente, estava inconformado com a mudança da capital.

“Meu caro poeta, esta não é ainda a carta que lhe quero escrever, dando noticias de minha nova morada. Envio-lhe apenas umas linhas para acompanhar a do seu afilhado, escrita do próprio punho e lavra, salvo quanto às anedotas do criado-mudo e do candango que fala no edifício como uma cuia pra riba e outra emborcada – parte em que valeu da colaboração do João Carlos.

Estou gostando muito da terra, e uma das razões deve ser a de que burro velho aprecia capim novo. Mas há outra:
1 – uns crepúsculos fabulosos (das auroras ainda não posso dar noticias, mas qualquer dia madrugarei só para vê-las);
2 – um horizonte imenso, abarcante, que se insinua por toda a parte, enfiando-se pelas casas e até pelas almas adentro. O qual horizonte é tão dilatado e sereno, que a gente é conduzida a todo instante a matutar no Sumo Arquiteto – esse que faz, nas nuvens, palácios mais leves do que os de Oscar Niemeyer – e a conversar sobre temas como a imortalidade da alma, etc., tal como sucedia, em tempos idos, na Praça da Liberdade, às 3 da manhã, ao se encerrar uma serenata;
3 – noites estreladas em que ouve, de verdade, a pitagórica música das esferas;
4 – a terra é praiana, chã e formosa, com pequenos outeiros mui disfarçados e algumas veredas mui graciosas.

Por outro lado, sinto-me devolvido à minha paisagem de infância, neste tabuleirozinho, meio campo, meio cerrado, onde bodoquei passarinho (sem acertar nenhum) nas orlas de Montes Claros. O ar é seco, à noite vem o friozinho de Belo Horizonte, outro motivo de retrospectivas ternuras. Seu velho compadre, Cyro.”

Vinte e dois dias depois, Drummond responde: “Eu já soubera, por algumas fontes, que você se aclimatara bem no planalto, o que me causou satisfação, pois não haverá muitos dramas superiores ao de nos sentirmos estranhos e sobrando numa cidade. Acredito que a identificação com paisagens da infância e crepúsculos belo-horizontinos ajudou a coisa; já eu não teria maior facilidade em incorporar-me ao ambiente, por faltarem aí as tenebrosas montanhas de ferro da minha região e também porque, a essa altura dos acontecimentos e da vida, sinto que vendi minha alma ao Rio.”

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, de 21 de fevereiro de 2014.

Prece natalícia de Brasília

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Agora e aqui é a Encruzilhada Tempo-Espaço.
Caminho que vem do Passado e vai ao futuro;
caminho do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste:
caminho de ao longo dos séculos,
caminho de ao longo do mundo:
– agora e aqui todos se cruzam
pelo sinal da Santa Cruz.
Ave, Cruz! Tanta cruz pelos caminhos,
através de tanto tempo e tanto espaço!
Deus de braços abertos para os homens,
do broquel dos Cruzados estampou-se,
potentéia, de goles e vazada,
no velame das naus da Descoberta.
Do Restelo veio ela ao Mar Ignoto
e, seguindo “por este mar de longo”,
na passagem de linha, à noite, quando
mergulhou no horizonte a Tramontana,
o céu de lua-nova persignou-se
no Cruzeiro do Sul de Mestre João,
Vera Cruz, Santa Cruz – chamou-se a terra
achada, e “em tal maneira graciosa”
que deu árvore sua à cruz chantada
para a missa, e que foi padrão de posse,
armoriada de quinas e castelos.
Crucifixo foi a arma que, nas selvas,
contra as flechas ervadas empunharam
Ad majorem Dei gloriam as missões.
Signo heroico daqueles que partiam
do cruzeiro dos adros aos sertões,
foi o gesto, na gesta das Bandeiras,
do que elevou a mão para benzer-se
e levou-a depois à cruz da espada.
Presidiu o amoroso cruzamento
dos três sangues que as redes e as esteiras
conheceram nas ocas e senzalas.
Subiu a um cadafalso de ignomínia
para o beijo final de um sonhador.
Sobre a esfera-armilar de uma coroa
e no centro estelar de uma bandeira
foi o fulcro supremo do poder.
E da intersecção de auroras e poentes
– setas em cruz sobre os arcos retesos –
partiram os dias, partiram as noites,
cruzaram os ares, cruzaram as terras,
por séculos e anos e luas e…
…E, um dia inaugural,
num alvo papel pregado à prancheta
a cruz sempiterna pousou sua sombra
e – um traço, outro traço –
“do gesto primário de quem assinala um lugar”:
dois riscos cortando-se em ângulo reto, e, pois, de uma cruz
nasceste, Brasília!
E, sublimação do “gesto primário”,
ponto de encontro das fundas raízes do Tempo e do Espaço,
emerges da terra em forma de cruz.
E, porque és Cruz, és Fé; e, porque és Fé, Brasília,
sozinha no plaino serás a intangível, a ilesa:
na sombra, a teus pés, não se há de tramar
o torvo conluio dos quatro elementos,
nem contra os teus muros as fúrias adversas prevalecerão.
Chuva que te inunde,
vento que te açoite,
sol que te incendeie,
bruma que te ofusque,
astro que te agoure,
raio que te toque:
– tu secarás a chuva,
abaterás o vento,
apagarás o sol,
dissiparás a bruma,
conjurarás o astro,
embotarás o raio!
Ai estás, Brasília! E como está vivendo
belamente este instante que é, de todos
os teus instantes, o eternizador!
Ai estás, Brasília! E, como estás, pareces
ave de asas abertas sobre a terra:
voo pousado para alçar-se, altivo!
Aí estás, Brasília do olhar de menina! Menina-dos-olhos
olhando sem mágoa o Passado e sem medo o Futuro,
sem ver horizontes na terra e no céu porque eles recuam
ao impacto impetuoso das tuas pupilas;
com teu meridiano que foi Tordesilhas:
corda torcida que os teus ancestrais distenderam
para que aos quatro ventos soltasses agora o teu gesto de setas
– és tu, juvenília, “non urbs sed civitas”,
o centro da Cruz, Tempo-Espaço,
plantada no teu Quadrilátero,
com suas quatro hastes que são quatro séculos,
e são quatro pontos cardeais,
e são quatros ciclos de ação:
o da Descoberta, o do Bandeirismo,
o da Independência e o da Integração.
Feita do fluxo e refluxo das forças que dão o poder,
centrípeta para tornar-se centrífuga,
Brasília, é a tua Cruz da Quarta Dimensão, e Tetragrama
do Milagre Novíssimo que és tu;
a que dirá “Presente”, impávida, ao chamado
do fasto e do nefasto; a que é o Marco Zero
das vias todas, da mais ínvia à mais viável;
o imã para a limalha de aço do Trabalho;
a ponta do compasso autor da Equidistância;
Brasília, a tua Cruz que é Presépio também
e a cujos pés a ti, no teu Natal, rogamos:
– Barca de esperança,
Carta de marear,
Rosa-dos-ventos,
Vela de conquista,
Figura de proa,
Bandeira de popa,
Torre de comando,
Estrela de mareante,
Porto de destino,
Âncora de firmeza,
Portal do sertão,
Corda de arco,
Farpa de flecha,
Doutrina na taba,
Foice de desbravamento,
Clareira na selva,
Clarinada no ermo,
Bateia no garimpo,
Diadema de esmeraldas,
Crisol de raças,
Ara de liberdade,
Trono de império,
Barrete frígio,
Toque de alvorada,
Meta das metas:
                                      – Vive por nós!
 
Guilherme de Almeida, poeta natural de Campinas (SP).
Poema transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira  

Clarice ao infinito

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Por Severino Francisco
 
“Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Em Brasília não há por onde entrar, nem por onde sair. Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza.” Quem lê as duas crônicas que Clarice Lispector escreveu sobre Brasília costuma perguntar: “Que droga essa mulher tomou?”. Não tomou nenhuma: foi tomada de assombro pela espacialidade da capital modernista. Ela era lisérgica pela própria natureza e não precisava de aditivos químicos para ter iluminações: “A inspiração não é loucura: é Deus”, escreveu.
Se, ao visitar Brasília, Nelson Rodrigues se ateve aos fatos pateticamente triviais, às moças fazendo xixi detrás das moitas nas estradas, ao pó do Planalto – que ela declarou sagrado -, Clarice dirigiu o olhar para o céu, ao mar de ponta-cabeça em movimento silencioso, ao cinema transcendental das nuvens, à luminosidade prateada dos dias, à magnitude das noites brasilianas e ao silêncio visual da cidade. Ela não fez muitas menções explícitas ao céu, mas ele está implícito em quase tudo que escreveu. Repete, frequentemente, o fato de Brasília ser uma cidade redonda, construída na linha do horizonte, assolada pelo esplendor de uma luz branca. É o espanto em face do espaço aberto que desencadeia as epifanias brasilianas de Clarice: “Aqui eu tenho medo, esse silêncio visual que eu amo.”

Se alguém quiser saber o que é Brasília, para além do cartão-postal ou da chapa-branca, precisa consultar os artistas. Eles revelaram a capital modernista, mesmo quando a passagem pela cidade foi fugaz. Em vez de frases feitas ou ideias prontas, sempre interagiram com a cidade, se deixaram marcar e imprimiram a marca do seu olhar. Clarice só veio a Brasília duas vezes, uma em 1962 e outra em 1974. No entanto, ela captou como ninguém a alma metafísica da cidade. Rubem Braga não gostava das crônicas de Clarice: “Ela só é boa em livro”, teria dito o capixaba. Mas ele se equivocou, não percebeu que Clarice inaugurou uma vertente original: a da crônica metafísica.

O próprio Braga reconheceu que operava com antenas de radinho Galeno, mas Clarice tinha um arsenal mais poderoso de varredura e prospecção. Ela chegou a Brasília armada de ondas curtas, radares e satélites e captou a alma metafísica do Planalto, a sua natureza fluida, aérea e celeste: “Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. (…) “(Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.”)

A escolha do altiplano, com 360 graus de visão, pertinho do céu, foi o ato de criação mais genial de Brasília. Esse aspecto da natureza não passou despercebido a Lucio Costa e Oscar Niemeyer, arquitetos-artistas, que pegaram carona nesse presente dos deuses e conceberam uma cidade para realçar e inaugurar a paisagem: “Ao contrário de outras cidades, que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado de céu imenso, como em pleno mar, a cidade criou a paisagem”, escreveu Lucio Costa. Clarice percebeu com agudeza o projeto dos arquitetos: “Construções com espaço calculado para nuvens”.

Clarice tinha na alma sibérias glaciais, desertos incomensuráveis, paisagens lunares, silêncios milenares e solidões de descampados. Por isso, identificou-se e assombrou-se tanto com Brasília; ela era a imagem de sua alma: “Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo do meu sonho. O mais fundo do meu sonho é lucidez. Brasília é uma estrela espatifada. É linda e nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável”.

O mais surpreendente é que identificamos perfeitamente a cidade real e concreta revelada por sua visão lisérgica: “A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. (…) Eterna como a pedra. A luz de Brasília – estou me repetindo? – a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.”

O céu de Brasília em sintonia com a arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer despertou o misticismo de Clarice: “Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que é também a ideia que eu faço da eternidade.” A espacialidade de Brasília convida ao voo, ao exercício da liberdade e a respirar fundo: “Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira, começa a querer. E querer, é que não pode. Não tem. Será que vai ter?” Em outra crônica, escreveu que “respirava Deus”. Clarice revelou Brasília, mas Brasília também desvelou Clarice. Em nenhum outro lugar, ela respirou Deus tão profundamente: “Brasília é um pacto que eu fiz com Deus.”

Texto transcrito da edição especial “O céu de todos nós”, do Correio Braziliense, em 21 de abril de 2014.

BRASILIA NASCEU SOB O SIGNO DA POESIA

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“Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar – É uma praia sem mar -.”

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Prece Natalícia de Brasília

Agora e aqui é a
Encruzilhada
Tempo-Espaço.
Caminho que vem do
Passado e vai ao futuro

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Cyro e Drummond:
Brasília nas cartas trocadas

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Poesia nas Paradas

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Foto: Orlando Brito

Arquitetura moderna do amor

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Mônica é do plano

                         Fernando de Brazlândia

                                                         Seus caminhos fizeram
                                                                                            t

                                    e 

                                              s

                                                    o

                                                u

                                          r

                                   i

                             n

                       h

                             a

                                na estrutural

Numa tarde de c

                        h

                        u

                         v 

                         a 

lado a lado na zebrinha 

moto parcelada dele deu pau

Trocaram watzaps

combinaram de ver o por do sol na praça do cruzeiro

Mônica chegou tarde

Fernando não sabia o que fazer além de tirar fotos

o sol, no monumental, se foi

restou rodoviária do plano e um dissabor meio ponte Costa e Silva para ele

para ela, um pouco da coloração psicodélica de um fim de tarde na primavera

Combinaram novamente de se encontrar

parque olhos d’agua

caminharam e cruzaram a ponte do rio verde

entrequadras 

se entrelaçaram 

beijo com sabor de flor do cerrado e beleza de pé de pequi

perderam o eixo

esqueceram as setecentas e se perderam nas novecentas

tiraram fotos na igrejinha

e se amaram na concha acústica

terminaram em plena seca, quando floriram os ipês

voltaram junto com os flamboyants e viram a primeira chuva da janela.

 

Post Patrick Mariano

Viver é bom

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Chego a Brasília,
– Que calor é esse, meu Deus,
Tem uma lua linda,
Lua nova soprando brisa fresca.
Que venham as noites frias
Da estação das secas
E que se abra a florada
Exótica do Cerrado.
Brasília,
Acho que é um poema
Que me nasce agora,
Vem cá, dá-me um abraço,
Minha cidade linda.
Deixa-me admirar-te,
Flor digital.
Na imensidão do Planalto.
Deitada à rede de casa,
Penso que é bom viajar
E que voltar
É melhor ainda.
Viver é bom, afinal.

Post Amneres, poetisa paraibana
Poema inédito

Não há

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Não há

Dia mais curto que aquele…
Manhã mais longa que a mal começada…
Não há neste mundo…
Caminho sem volta
Pedido sem resposta
Olhar não devolvido
Pior sentimento que o da entrega…
Culpa maior que a dor…
Dor maior que a solidão…
Desejo maior que o da carne…
Coração vazio de amor…
Maior cego que o de olhos abertos…
Ou alegria maior que ver o SOL…
Mesmo que numa noite sem fim!!!

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Face do Planalto

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Face do Planalto

 

Sob as faces do Planalto

Novo tempo que começo

A espera de um milagre

Doce fato que aguardo

Meu afeto por você

 

Andarilho como sou

No aguardo do momento

Nova vida vim buscar

sob as faces do Planalto

 

E do instante que perdi

Novos olhos me guiaram

Ao abraço permanente

Nova vida estruturou

 

Sob as faces do Planalto

Doce vida vim buscar

Novo tempo que construo

Ao instante permanente

Leite mel a derramar

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Brasília de Mim

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Brasília de Mim

 

A doce terra do leite e mel

Planalto central de mim

Aos olhos de um novo tempo

Um novo passo se faz

 

Das curvas de concreto

Em um esboço e papel

Ergo minhas suplicas ao céu

Brasilia de mim

 

Do sonho que um dia apaguei

O cerrado do tempo os refez

Ao reflexo de um espelho

Que um dia ousei olhar.

 

E do caco que um dia fui

Sincero momento de gozo e prazer

Ao caminho que hoje trilho

Brasília de mim

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

SENHORA BRASILIA

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SENHORA BRASILIA

 

Eu já sou senhora

Tenho quarenta e sete anos

Mas me sinto jovem

Forte e bonita

Sou conhecida

Nos quatro cantos

Do mundo

Não tenho orgulho

Acolho brancos, negros

Pobres e ricos

Todos que me veem

Se encantam

Admiram-se

E se apaixonam

Imponente para o mundo

Fui sonhada

Fui planejada

Hoje sou amada por todos

Sou a Capital do Brasil

Eu sou Brasília!!!

 

Post Francisco Pereira, poeta potiguar, natural de Natal.


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