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Anotações para os 55 anos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Conceição Freitas

Brasília é um ato de vontade.
Brasília é o atrevimento de um presidente.
Brasília é a exasperação do urbanismo moderno.
Brasília é a revelação de uma paisagem.
É a mistura dos Brasis, Brasília.
Brasília é uma provocação; é um segredo a ser revelado a quem se dispuser a conhecer uma outra lógica, uma nova razão.
Brasília é o sonho sonhado e o possível realizado.
É o enlaçamento da arte com a arquitetura.
Brasília são os vazios convidando cada um a inventar um sentido à solidão dos ermos.
Brasília é um deus tendo de lidar com suas imperfeições.
Brasília é a capacidade de cada um criar a própria Brasília, tantas são as perturbações que ela provoca em seus habitantes.
Brasília é tão grandiosa que sobrevive às mais terríveis investidas dos políticos e da especulação imobiliária.
Brasília é uma cidade, mas é também uma invocação do belo.
Brasília é também o que não queriam que ela fosse.
Os arquitetos projetaram a Brasília ideal. Os candangos inventaram a Brasília que eles queriam para si.
Brasília seria triste, rançosa, viciada, elitista não fossem os brasileiros que bagunçaram a maquete e fizeram dela uma cidade de verdade.
Brasília queria ser só uma, o Plano Piloto. Quando muito, duas ou três, com os lagos e o Park Way.
Brasília são 31. Brasília são as cidades-satélites que vieram quebrar a monotonia das coisas perfeitamente organizadas.
Brasília é a arqueologia recente de um Brasil que estava dando certo.
Brasília é também o desconforto do Brasil consigo mesmo. Tão inventivo e tão desigual; tão trabalhador e tão corrupto. (Para construir Brasília, os candangos ralavam até 16 horas por dia).
As superquadras de Brasília são o modo de viver confortável, ecológica e democraticamente nas cidades. São os anticondomínios. As superquadras são o futuro que se realiza no passado.
Brasília está ao alcance da mão, apesar da investida voraz dos que querem sugar sua riqueza até os ossos.
Brasília ainda é uma promessa. E uma inspiradora realidade.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense de 25 de março de 2015.

Geografia sentimental

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Severino Francisco

Climério Ferreira é um dos habitantes do silêncio de Brasília. Fez doutorado na Austrália, mas cultiva a simplicidade e o anonimato com unhas e dentes. Sempre vi os irmãos piauienses (Clodo, Climério e Clésio) na condição de índios yanomamis, índios da festa e da paz. No momento, Brasília oferece poucos motivos para a gente gostar dela, mas Climério mira a cidade com a devoção que só o olhar amoroso pode revelar. Em “Entre as manias que eu tenho”, ele diz: “Eu não sei quando adquiri/Essa mania doente/De gostar da terra da gente”.

Ele sempre me mandava por e-mail versinhos e poemínimos. Não é pretensão; a sua língua é a do lirismo. Ele é do século 19, conquistou todas as namoradas com um soneto. Se a gente traçar uma geopoética brasiliense, o pedaço que cabe a Climério é a Asa Norte. Aparentemente distraído, ele é muito atento ao que acontece na cidade e, principalmente, em aldeia. Em ‘Meados de novembro’, faz uma crônica dos dilúvios que costumam se abater sobre a cidade durante o período das chuvas: “Carros anfíbios mergulham nas tesourinhas/Os passageiros dos ônibus nadam afoitos/Árvores são arrancadas das raízes/As quadras da Asa Norte naufragam/A arquitetura moderna sobreviverá ao mês/Mesmo que o arquiteto morra”.

Nas décadas de 1970 e 1980, a 312 Norte foi uma quadra de muitas agitações e conexões culturais. Os irmãos Ferreira moraram naquele território e estabeleceram parcerias muito ricas. Por lá, passaram Glauber Rocha, os compositores Fagner e Petrucio Maia; e o pintor pernambucano Vicente Rego Monteiro. É esse o tempo que Climério evoca em ‘SQN 312’: “Lembro-me de Glauber já doente sentado na escadaria do bloco/Eu, Clodo e Zeca Bahia tramando futuras canções no F/Luiz Amorim sonhando um açougue cultural/Gera de Castro armando um show coletivo/Clodo e Petrucio Maia compondo ‘Cebola Cortada no Cavalo Negro’/Fagner mostrando em primeira mão o arranjo de Hermeto para Cebola/O som do pandeiro de Pernambuco percutindo na quadra/Enquanto Vicente do Rego Monteiro pintava figuras godas/A 312 era o Vietnam do Norte”.

A 209 Norte é um dos temas de sua geografia sentimental brasiliense, constituída a partir da que ele e seus amigos fazem da cidade: “Umas frutinhas no Oba/Leitura na quadra de esporte/Guido Heleno na lotérica/Bené Fonteles caminhando/Paulo José Cunha no Sinhá Moça/Fausto e Manoel todo sábado/Eu&Helô no Mineiro/Sobremesa no Rappel/O traço de Lucio Costa não previa tudo isso”.

Mesmo quando está indignado, Climério prefere soprar uma ironia lírica delicada em vez de dar um berro. O comentário que ele faz sobre o excesso de zelo pelo silêncio nas superquadras com bares que apresentam música, em Banho de lua, estabelece um contraponto divertido dos tempos românticos com os tempos pragmáticos em que vivemos: “Acredite, havia donzelas/E existiam rapazes desafinados/Que faziam serenatas nas janelas/Cantando boleros apaixonados/Acredite, ninguém atirava/Nem chamava a policia/Uma bacia d’água era derramada/Para aplacar no cantor a euforia”.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense 29 de junho de 2015.

O poema da curva

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Por Oscar Niemeyer

Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual. A curva que encontro nas
montanhas do meu país, no curso sinuoso
dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo
da mulher amada.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein.
 

Foto: Roberto Castello

Na cidade das retas, as curvas feitas pelos pés do povo encurtam a distância entre dois pontos

Geografia sentimental
Severino Francisco

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Anotações para os 55 anos
Por Conceição Freitas

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As profecias que não se cumpriram
Por Silvestre Gorgulho

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Era um rabisco, e pulsava
Por Carlos Drummond de Andrade

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UMA CANÇÃO PARA NIEMEYER

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UMA CANÇÃO
PARA NIEMEYER

A minha vida é sempre assim…
É como a flora do cerrado…
São galhos tortos postos
sobre estes troncos torturados…
Mas preparei flores para ti…
E frutos bem adocicados…
Cajus, cagaitas e pequis…
Mangas colhidas com cuidado!

Retas perseguem setas e rotas nunca dantes experimentadas…
Eu vi um ângulo impossível furar o vão e virar escada!
Era uma mão ou era uma asa aquela concha tão desvairada?
E aquele vão onde passam vans…? E aquele voo por sobre o nada?!

E aquele círculo em espiral e aquela curva tão concavada!
E olhem só que palmas esguias! E estas formas enfileiradas…
Esteta louco! Não vê que cai! Este experimento vai dar em nada!v
Vejo que ri atrás dos bigodes e da prancheta endiabrada!
(…)

Paulinho Dagomé
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

BRASILIA FUTURA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Poemas para Brasília Sem Comentários

Lua cheia
no meio do Brasil
a construção de tudo: a cidade
No princípio é moldura do nada
sobe mais de 1.000 metros no ar
nem um morro contorna a vista
no alto o plano piloto vira escultura
A primeira fase é candanga
ligação de Brasis
com o mundo
Os pés sobre a terra finavermelhácida
pele de asfalto
corpo de concreto e vidro
mãos ao norte e sul do fazer
O rosto da cidade fica conhecido
sai do papel
escala o pico do impossível
em recorde de inauguração
A cidade criança engatinha
abre os braços para toda gente
parece com a mamãe e o papai
traços da filosofia socialista e de Le Corbusier
anda com a burocracia e suas primas Poesia e Lazer
Infância de sonhos
cidade encontro de céu e chão
asas de último tipo
A dimensão Brasília
face humana do cerrado e arquitetura
fundidos em habitantes-raízes da utopia
Brasília
marco zero da ocupação do interior
voo de raças e quereres
seta ao vento da miscigenação
Aqui não tem mar, não tem esquina
nem trem ou tradição…
ter nascido cidade-capital é destino
de gente, espaço e tempo
Oscar Niemeyer e Lucio Costa
criaram os rumos da modernidade brasileira
largo gesto de autoria
de casas e palácios das mudanças
Tem palavra que é Brasília escrita e pronunciada
mudança é uma delas
muda de lugar e hora
transmuta e marca a história.

Delei
Poema transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital

Um aeroporto vermelho

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Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”

Reynaldo Jardim

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Reynaldo Jardim, em “Planaltiana”, exalta sua musa, que “se dança molhada” e “me agasalha em Planaltina”. O poeta não diz, nem está no seu dever dizê-lo, o porque de associar “essa menina de mim” a vegetais aromáticos como alecrim, hortelã, coentro. Ficam no ar o bom aroma e as razões do poeta… Em “Anjo” os versos giram em torno da que é “ainda casta corrompida amante”, sempre esperada como se apresenta no primeiro terceto do soneto: “Do Lago Sul, à beira da piscina,/ou de um quarto alugado em Taguatinga,/ela virá em sonho ou de verdade”. O seu “Hino ao Brasil” foi o texto vitorioso em concurso promovido, no final de 1987, pelo maestro Jorge Antunes, da UnB, para “escolher novo hino nacional” (428 votos contra 90, dados ao segundo colocado). A linguagem (o vocabulário) é simples, despida de metáforas; os versos (hexassílabos) e o texto curtos; em ordem direta a construção das orações. Os primeiros versos: “Da paisagem ferida/da criança lesada/Da mulher soluçando/homem triste na estrada/Desta terra traída/pobre gente humilhada/Há de bela explodir/a nação libertada (…)”.

Texto extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

Brasília, par ou ímpar?

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Entre as curiosidades – ou excentricidades – propiciadas pelo traçado urbano de Brasília, uma é a confusão entre par e ímpar.

Os brasilienses, quando tentam explicar as particularidades da capital, como a numeração das quadras, dizem bem assim:
– De um lado ficam as quadras pares, do outro ficam as ímpares.

Eu mesmo, com três dias aqui, procurava a 309 Norte e fui parar na 209, depois na 409, mas nada de achar a 309.
– Flávia, já passei pela 209, pela 409, e não achei a 309!
– Você entrou errado! – ela disse. – Aí são as pares.
– Mas 209 e 409 são ímpares!!
– Não, 209 e 409 ficam nas pares…
– Mas elas não são ímpares?
– Não, são pares!

Parecia conversa de bêbado: ela dizendo par, eu falando ímpar, até que a bateria do celular arriou, mas, antes, ainda pude ouvi-la dizer:
– Querido, é a lógica da cidade. Brasília é organizada, planejada. Aqui tudo tem uma lógica…

Sem celular, desisti da visita a Flávia. E passei uma hora para acertar o caminho de casa, no Sudoeste.
No dia seguinte, os colegas se revezavam em explicações sobre essas “lógicas da cidade”.

Lucio Costa – e não Niemeyer – desenhou Brasília com dois eixos, formando o sinal da cruz, que lembra a imagem de um avião.
É nos “braços” dessa cruz onde fica a área residencial, sendo que de um lado ficam as quadras que começam com dígito par (200, 400) e de outro ficam as que começam com dígito ímpar (100, 300).

Ocorre, porém, que nos dois lados há pares e ímpares. Nas quadras 100 temos 102, 103, 104, 105… Nas 200 temos 202, 203, 204, 205…
Porém, a simplificação – “lado par” e “lado ímpar” – faz com que 304, 506, 708 sejam ditas ímpares, mesmo sendo pares; e 203, 405, 607 sejam ditas pares, mesmo sendo ímpares.

Complicado, não é?

Para o brasiliense, que nasceu e se criou sob essas coordenadas, tudo parece simples, fácil, óbvio até. Mas para o visitante, é tudo diferente.
Brasília é complicada e perfeitinha. É onde o par pode ser ímpar e o ímpar pode ser par.

Texto de Marcelo Torres, cronista

Adoro minha quadra

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Por Conceição Freitas

O leitor Edson Shimabukuro escreve, a propósito da diversidade de produtos e serviços das entrequadras comerciais do Plano Piloto:

“Minha quadra também é cosmopolita. Temos um legítimos restaurante grego, uma crossanteria que não deve às de Paris, uma bela padaria estilo às de São Paulo, um boteco com nuanças pernambucanas, o churrasquinho de gato do Eliomar, o bar do Mocó que fica escondido, e que só os iniciados frequentam. Também temos a distribuidora de bebidas do Paixão, que herdou do falecido Cezar das faixas provocativas e que virou bar tal como o depósito do Piauí na Asa Sul. Adoro minha quadra”.

Na memória descritiva do Plano Piloto, Lucio Costa cita, a título de exemplo, o comércio das entrequadras: mercadinho, açougue, venda, quitanda, casa de ferragem, barbearia, cabeleireiro, modista, confeitaria. Quase 60 anos depois (o projeto de LC é de 1956), a modista foi substituída pela costureira que faz pequenos consertos, o açougue foi engolido pelos supermercados, mas a variedade ficou ainda mais rica.

Há de um tudo nas entrequadras: de lojinhas de candomblé e umbanda a sex shop. De pet shop a serviço de depilação. De biscoito mineiro a chope belga. De restaurante nordestino a bistrô francês. Pizzaria, espagueteria, crossanteria, creperia, padaria, cafeteria, choperia, barbearia, torteria, tapiocaria.

Loja de calçados, de colchões, de cortinas, de cine-foto. Loja que conserta tênis, loja que conserta roupa, que conserta brinquedo, que conserta eletrônicos, que conserta celular, que recupera artigos de couro.

A alta gastronomia e o PF estão representados nas entrequadras. O cassoulet e a feijoada borbulham, calóricos, no comércio local do Plano Piloto. A comida natural e o churrasco reforçam o espírito democrático das lojinhas entre as superquadras.

Os serviços de beleza, cada vez mais especializados, estão à disposição das clientes e dos clientes nas entrequadras: SPA, sauna rejuvenescimento facial, terapia da água, ofurô, sauna, desenhos pubianos, design de sobrancelha.

Calçados ortopédicos, para diabéticos, calçados magnéticos, calçados artesanais, calçados de grife, calçados com numeração especial. Os mercadinhos japoneses estão concentrados na Asa Sul. Nem a chegada dos mercados gourmet tirou-lhes a freguesia de décadas.

Nas entrequadras de Lucio Costa,as lojinhas da década de 1960 (Casa das Meias e Pizzaria Dom Bosco, dois lendários exemplos) assistem, da janela da história, às mudanças continuas na vizinhança. Pode-se arriscar a dizer, sem nenhuma aferição sistemática, que os estabelecimentos modestos tem mais longevidade que as iniciativas mais ousadas. Raras são as entrequadras que não tem um pé sujo devidamente estabelecido há mais de década.

As entrequadras compõem, com as superquadras, o melhor da invenção de Lucio Costa.

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, de Conceição Freitas, de 27 de novembro de 2014.

Festa na quadra

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Por Glaucia Chaves

Viviane Oliveira, 38 anos, especialista em comunicação institucional, dispensou os valores altos de locais para festas infantis e organizou o aniversário de 8 anos do filho na entrequadra da 104/105 Sul. O plano inicial era alugar um campo de futebol society, já que o futebol é uma das paixões do menino Vinicius. Mas o aluguel do espaço não sairia por menos de R$ 700. A reforma da entrequadra veio na época da festa e Viviane pensou que seria uma boa maneira de comemorar sem limitar a quantidade de convidados e sem gastar demais. “Antes, havia muitos usuários de drogas, mas consertaram a quadra de esportes, colocaram bancos e campo de areia”.

Faltava pensar em como organizar uma festa de aniversário ao ar livre. Algumas pesquisas na internet depois, Viviane teve uma ideia das providências indispensáveis: saco de lixo, canga, toalha de piquenique, bandeja para o bolo. “Contratamos duas carrocinhas, uma de pipoca e uma de cachorro-quente, que não precisavam de energia elétrica”. O toque final foi dado pela cama elástica e pela comida extra para os curiosos e os passantes. “A inauguração da entrequadra reformada foi no mesmo dia, então muita gente achou que a festinha do Vinicius fazia parte do evento. A cama elástica foi usada por crianças que a gente nem conhecia.”

Viviane acha que os “convidados adicionais” deram justamente o clima que ela queria para a festa: algo participativo, na cidade, para todos. “Mostrou que a quadra está sendo usada pelas pessoas e que a gente está dando valor às melhorias que foram feitas.” Em Brasília há quatro anos, a carioca acredita que sair mais de casa deveria ser uma vontade de todos que vivem na cidade. “Aqui é um lugar bastante criticado por ser muito automobilístico. Cabe a nós mudar isso.”

Em 2010, Daniela Perdigão Lima, 37 anos, também viu no verde da 416 Sul a chance de comemorar o aniversário de 1 ano do filho de uma maneira charmosa e, ao mesmo tempo, barata. A experiência foi tão boa que, este ano, o quarto ano de Tito também foi celebrado embaixo das árvores, desta vez, na 402 Sul. E o pessoal ainda tinha a estrutura do apartamento do meu sogro, que fica na mesma quadra.”

Daniela e o marido montaram mesas com sanduíches, bolo e brigadeiros. No convite, os convidados foram orientados a levar toalhas, brinquedos e o que mais quisessem para um dia ao ar livre. Era chegar, esticar a toalha na grama e curtir uma tarde sem paredes. Algumas crianças da quadra, curiosas com a movimentação, apareceram. “Levamos lembrancinhas a mais, fomos preparados.” Para Daniela, a iniciativa foi só vantagens: é o lugar mais barato da cidade, é lindo e não faz bagunça em casa. “Muitas vezes, deixamos o lugar mais limpo do que quando o encontramos. Já cortamos a grama e tiramos as guimbas de cigarro antes da festa.”

Texto reproduzido da Revista do Correio, Correio Braziliense de 16 de fevereiro de 2014.

Se esta quadra fosse minha

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Por Theresa Negrão de Mello

Desatar os derradeiros nós daquela precoce e frustrante união implicava deixar o apartamento no qual provisoriamente me instalara para, enfim, com o que me coubera na partilha da casa em São Paulo, dar entrada em nova moradia por aqui.

Não obstante breve,  aquela etapa de primeiro contato com a cidade havia sido suficiente para consolidar a ideia de permanecer em Brasília, cuja hospitalidade se incumbira de descartar os estereótipos que davam suporte aos longos discursos norteados por uma retórica de dissuasão.

Das cartas, telefonemas e encontros eventuais afloravam, com frequência, as marcas de representações de uma cidade “sem alma”, “sem esquinas”, “sem gente nas ruas”. Na verdade, tais sintomas de uma “brasilite negativa” evidenciavam, em não poucas vezes, uma desconcertante contaminação, não associada a qualquer contato ou conhecimento mais efetivo, nutrindo-se do sopro eficiente de enunciados que, “legitimando-se” pela repetição, constituem o celeiro propício dos preconceitos.

Sem querer esmiuçar antigas polêmicas, e apenas visando a contextualizar vetores de representações engendradas em uma conjuntura especifica, cabem aqui as considerações de Holston, cuja pesquisa ressalta uma primeira geração de migrantes que cunhou a expressão “brasilite”, para sinalizar a um só tempo impactos positivos e negativos desencadeados pelo encontro com a cidade nova.

Os aspectos negativos da “brasilite” estão ligados a uma rejeição das intenções desfamiliarizadoras contidas na concepção de Brasília. Rejeitam a negação do Brasil urbano, tal como comumente expresso na organização e na arquitetura da cidade.

(…) Sem a agitação das ruas, Brasília lhes parecia “fria”, embora a separação especial entre as funções de trabalho, moradia, lazer e tráfego produzisse uma clareza na organização urbana (…)

(…) Desse ponto de vista, os migrantes usavam o termo “brasilite” para se referir a uma vida cotidiana destituída de prazeres – as distrações, as conversas, os flertes e os rituais da vida nas ruas em outras cidades brasileiras.

Tendo sido outras as condições, até porque minha vinda não se situa nas primeiras levas de migrantes e, ademais, nada teve de compulsória, a síndrome da “brasilite negativa” não prosperou como suporte das minhas representações sobre a cidade que escolhi para”começar de novo”.

Nesse sentido, a sempre alegada monotonia das superquadras não deu conta de obscurecer uma seleção que, na oportunidade da compra, desde o inicio, privilegiou a 205 Sul. Assim, não sem uma certa angustia, envidei esforços para que o meu, então recente, “trocando em miúdos” me possibilitassem arcar com a entrada, o ágio, o dilúvio de documentos e sei lá mais quantas providências lembradas por uma legião de corretores tagarelas.

Aliás, a todos eles parecia escapar tão peremptória preferência pela “205 Sul com vista para o lago”, e, de fato, meus argumentos não iam além de uma difusa simpatia pelo lugar como um todo, pois sequer os blocos residenciais eu conhecia. Enfim, tais motivações, não se confinando ao racional, são capazes, entretanto, ou bem por isso, de mobilizar-nos. Em tais casos, a mais trivial preferência ganha no representacional foros de aspirações insubstituíveis, daí o titulo desta pesquisa “Se esta quadra fosse minha”, fragmento do repertorio popular, pleno de significações.

Quando finalmente surgiu o esperado “imóvel”, como se esmerava em soletrar o corretor quase gordo, preenchi ali mesmo, durante a visita, o cheque referente ao sinal, com direito à vista belíssima para o lago e, de quebra, à grotesca visão de absurdas paredes rosa, literalmente “choque”, pedindo, quando menos, caiação urgente. Tudo bem, o corretor negociaria a pintura, o que me fez sair faceira, estalando com os saltos das sandálias as dezenas de tacos descolados. Em menos de duas semanas cá estava eu instalada, uns poucos móveis, os inseparáveis discos e livros, “começando de novo”, agora como membro da comunidade da 205 Sul.

Hoje percebo que a comunidade, não se confundindo com a ideia de superquadra enquanto concepção administrativa e urbanística, circunscreve um cenário ampliado que, ao incorporar espaços contíguos, multiplica lugares de comunicação e socialidade.

Assim, pessoas que cotidianamente se cruzam na quadra e suas imediações, não raro se conhecem e se relacionam, de modo a evidenciar um sentimento comum de pertença que extrapola, por exemplo, as práticas ritualizadas do simples cumprimento. Trata-se, como diria Maffesoli, de uma socialidade que se exprime também na partilha dos afetos, no lúdico, na emoção, enfim, no interacionismo simbólico perpassado de transfigurações imáginárias.

Tais elementos concorrem, sem dúvida, para a construção “…dessa identidade perceptível que se chama cidade, bairro, quadra, etc.

Ao considerar a comunidade no âmbito de um cenário ampliado, constato que se a ideia de quadra não a contém, a de bairro igualmente não a traduz. Entendo, ao final das contas, que a quadra em que moro e suas adjacências, este espaço do lado de baixo do Eixo Monumental até a L 2 Sul, muito se assemelha a uma espécie de quartier fincado no planalto Central. Dialogando com Bresciani, suas ideias fornecem-me interessantes pistas:

Há, porém, ainda uma outra percepção da rua que forma algo bastante pessoal, daí subjetivo, e ao mesmo tempo tecido num fio que permite algo  que se aproxima da comunidade perdida: o percurso diário para as compras e demais tarefas domésticas, um mesmo açougue, a mesma quitanda, sapateiro, jornaleiro, palavras trocadas entre pessoas para as quais a civilidade aprendida e um laivo de interesse pessoal se mesclam no bom-dia, como vai?

Exatamente aquilo que faz um francês e uma francesa se referirem ao lugar onde moram como mon quartier, não inteiramente traduzível por bairro. Um recanto que às vezes pouco lembra o recorte administrativo do bairro, mas é composto pelas ruas percorridas, pelos locais visitados, pelas pessoas encontradas.

E é bem o que aqui ocorre, sobretudo nas manhãs de sábado, nos bares, confeitarias, lojas, butiques, padarias e farmácias. Ali, o simples “bom dia” acaba emendando um dedo de prosa entre pessoas que geralmente se conhecem pelos nomes e mesmo apelidos. Ali se realizam as conversas sem consequência “sobre a saúde, o tempo que passa, a meteorologia, as emissões televisivas, o esporte e tudo o mais. Ali, “tudo se sabe”, e é naquela espacialidade que se ensejam “as varias ocasiões em que se vive, conjuntamente e sem brilho, o crucial problema do tempo que passa”.

Na verdade, o mesmo quadro parece reproduzir-se nos blocos residenciais na comunicação diária entre vizinhos. “Seu” Diamantino, meu vizinho de porta, desde a minha chegada jamais se limitou à glacial polidez do cumprimento. A ele devo a mediação com “seu” José, uma espécie de mestre-de-obras oficial da quadra, e o sindico, logo às primeiras semanas da minha instalação no sonhado “imóvel na 205 Sul com vista para o lago”.

Deixar o imóvel com a minha cara, até meio excessivamente personalizado, significou percorrer uma saga de mais de uma década, pontuada por três inesquecíveis reformas, com o mesmo modesto orçamento, fosse qual fosse o novo apelido da moeda da ocasião.

Tão inoportuna quanto inadiável, a primeira obra que se impôs envolveu também o condomínio, e mesmo com as despesas assim partilhadas, não consigo apagar da memória o discurso do entusiasmado corretor que, ciente ou não, me vendeu também, além da vista para o lago e do enfatizado sossego de um imóvel no último andar, uma inesperada goteira, apenas evidenciada com as fortes chuvas que fechavam o verão brasiliense. Com um balde de plantão logo à entrada, eu tentava poupar, em março, o carpete colocado em fevereiro.

Segundo meu solidário vizinho, em breve teríamos a seca e, com ela, a possibilidade de cuidar da imprescindível impermeabilização do teto. Se a propalada secura brasiliense jamais me incomodara, naquele momento, mesmo prevendo despesas, eu contava os dias para dar-lhe as boas-vindas.

Enfim, sempre vi, com o devido desconto ao exagero, os discursos que a cada estação elegem como “o pior dos últimos anos” o clima do nosso Saara federal, com seus baixos índices de umidade relativa do ar, sobretudo como um bom pretexto para os breves temas acionados na tentativa de vencer o secular silêncio que se segue ao cordial bom-dia do elevador.

Com a chegada da seca chegou também “seu” José, cuja historia de vida remonta aos tempos da construção da quadra da qual ele participou, como tantos nordestinos que aqui chegaram, compondo o exercito de candangos recrutados e seduzidos com o trabalho na cidade nova. Orgulhoso, “seu” José afirma ter na cabeça a planta dos antigos imóveis, e tem mesmo. Por ocasião das reformas, ele dá conta da localização de colunas e passagens de canos com a intimidade de quem teve a experiência da construção. Morando em uma cidade-satélite, “seu” José frequenta a quadra há décadas e, como “seu” Edmundo, o marceneiro, faz parte da nossa comunidade.

Além dos serviços que nos prestam, esses trabalhadores articulam suas historias pessoais à memória da quadra. Seus relatos desenham no quartier uma historia local, naquele entendimento que lhe confere Souza Martins:

“Nela o tempo e o espaço não podem ser separados. Por isso é uma historia local. A historia do cotidiano não tem sentido quando separada do cenário em que se desenrola. Por isso, é quase uma historia intimista, de vizinhanças e pequenos grupos”.

É sobre essa historia local e seu arquivo de memórias, sobre as representações que dela fazem seus atores, e sendo eu mesma uma das personagens, que direciono um dos meus trabalhos atuais.

Estudando o bairro de Copacabana, lugar onde passou grande parte de sua vida, o antropólogo Gilberto Velho lembra o desafio por ele enfrentado ao propor uma pesquisa que, deslocando-se dos convencionais estudos “dos outros”, se propunha a estudar o “nós”.

Também no caso da investigação aludida, reflito sobre um tema que, sem perder o compromisso com os sempre lembrados paradigmas científicos, trará ao final as marcas das minhas representações sobre o cenário ampliado da 205 Sul e, é claro, uma esparramada carga de subjetividade. Conforta entender com Morin que “o campo real do conhecimento não é o objeto puro, mas o objeto visto, percebido e co-produzido por nós”.

Nas providências preliminares dessa co-produção, venho elecando alguns atores da quadra. Seus depoimentos constituem uma exuberante fonte onde miríades de sentidos possíveis podem ser consideradas. Paulistas como eu, paraibanos como “seu” José, piauienses como “seu” Edmundo, baianos como o zelador, cariocas como “seu” Diamantino e tantos outros dos mais diversos lugares oferecem, na multiplicidade dos enredos sobre como aqui chegaram e que representações fazem do quartier, articulações que, pinçadas desse universo empírico, darão vida aos estudos teóricos enclausurados nas obras cujos autores se dedicam ao simbólico, ao imaginário e ao cotidiano que os engendra.

Pretendo ouvir moradores antigos e recentes dos diferentes blocos residenciais, trabalhadores tais como empregadas domésticas e funcionários dos blocos. Penso também no contingente constituído pelo pessoal ligado ao comercio das entrequadras, bem como nos trabalhadores do setor informal, protagonistas dessa prática tão brasiliense de chamar, para os mais variados pequenos serviços de casa, os fazedores e furos e colocadores de varais. Pacientemente, chova ou faça sol, eles estão ali em grupos ou isoladamente, disponíveis para atendimento imediato. São, enfim, atores nos quais a condição de não-residentes nas superquadras não lhes retira o status de membros da comunidade, em seu cenário ampliado. É o caso de Walter e Josafá, que nos prestam pequenos serviços como eletricistas, bombeiros e são, porém, identificados como os “rapazes do varal”. É também o caso de Manuel, o jornaleiro da 205  que vimos crescer, de “seu” Nicácio, o verdureiro da Kombi, e de “seu” Jáder, que, com Maria e Zé Baiano, compõem o “setor” dos sapateiros. “Seu” Jader, na verdade, mudou-se para a Asa Norte, mas frequenta a quadra comercial com a mesma intensidade de antes. Impossível chamá-los a todos neste breve painel, onde tento apenas ilustrar com alguns personagens conhecidos a animação do quartier que, em certo sentido, poderia também, numa versão mais “tapuia”, ser identificado como “o pedaço”.

É que, com as devidas compatibilizações, a noção de “pedaço” utilizada por Magnani ao trabalhar o universo de um bairro periférico da grande São Paulo harmoniza-se com a ideia de cenário ampliado da quadra, pelo menos quando se retém na noção de “pedaço” a sua condição de lugar “onde se tece a trama do cotidiano e espaço de mediação entre o lar e o resto do mundo”.

Girando o dedo indicador ao lado da fronte, no gesto que na identificação popular traduz “uma coisa de doidos”, o jovem estudante interpela-me no estacionamento da universidade, entre perplexo e curioso: “Professora, é você que trabalha com o imaginário ?” Afirmando que sou uma delas, tentei resumir o que andamos fazendo em nosso grupo de estudos. Talvez por sincronicidade, ao buscar um exemplo, lembrei-me de minhas reflexões sobre o cenário ampliado da 205 Sul e acabei sabendo que o interessado aluno é um ator do “pedaço”, pois mora na 405 Sul. Com uma breve troca de palavras, tentei esclarecer os contornos de uma noção que, mesmo presumidamente entendida, não logrou escapar do gestual reproduzido durante todo o tempo. De todo modo, como membros do quartier, partilhávamos representações gestadas no imaginário comum e vivenciávamos experiências cotidianas análogas.

De volta das férias, e contando ainda com o espaço fora da sala de aula, ocupei-me com o presente texto. Na mesma ocasião tomava algumas providências que, uma vez iniciado o semestre, acabam sendo sempre adiadas. Pequenos consertos, uma revisão nos armários e mais uma estante, pois novamente se repetia a situação – as novas aquisições sempre “imperdíveis” faziam pilhas sobre a mesa de estudos e disputavam com os CDs mais recentes, igualmente imperdíveis, um lugar ideal.

Enfim, era preciso chamar “seu” Edmundo, o nosso marceneiro. Nos dias em que trabalhamos juntos, eu neste ensaio e ele nas estantes, o incômodo barulho das ferramentas não deu conta de obscurecer aquela sociabilidade de base que saía dos livros para ganhar visibilidade na pratica cotidiana. Nos “recreios”, partilhávamos o cafezinho e conversávamos. Há mais de uma década com “ponto” na 205 Sul, o discurso de “seu” Edmundo traz as marcas que naturalmente respondem a indagações da minha pesquisa, como que traduzindo, de modo singelo, os nexos entre espaço e socialidade e a fecundidade da sinergia que as preside.

Se, como ensina Barbero, o imaginário “no es sólo aquello de que trata un discurso sino aquello de que está hecho”, a prosa de “seu” Edmundo, carregada ainda de um forte sotaque piauiense e eivada de provérbios populares, parece legitimar, apesar dos percalços de sua luta diária, aquele “gosto muito de estar aqui”, tão bem trabalhado por Certeau em suas reflexões sobre lugares, espaços e práticas cotidianas.

Partilhando a experiência comum da quadra, alternando nossos relatos pessoais, desdobro com”seu” Edmundo fragmentos de enredos “empilhados em um lugar” que outro não é senão a quadra, daí as mesmas ressonâncias. É ainda Certeau quem resume:

“O memorável é aquilo que se pode sonhar a respeito do lugar (…) nesse lugar (…) a subjetividade se articula sobre a ausência que a estrutura como existência e a faz “ser-aí” (…) este ser-aí só se exerce em práticas do espaço, ou seja, em maneiras de passar ao outro”.

Não me surpreendi com a compreensão que “seu” Edmundo demonstrou ao naturalizar a justeza dos meus estudos atuais e percebi que, de algum modo, consegui passar-lhe meus propósitos. Com um sorriso significativo, ele meneou a cabeça como que discordando do gesto adotado pelo estudante, e que eu reproduzia ludicamente, para falar sobre o imaginário da quadra. Segundo “seu” Edmundo, “há coisas que mesmo a gente não explicando muito bem, a gente sente. Acho que é o caso nosso com a quadra”.

Ou muito me engano ou pelo menos na primeira parte da fala meu amigo marceneiro entrou em perfeita sintonia com o antropólogo Durand, a quem parafraseou. Para ambos, o imaginário, antes de mais nada, manifesta-se. Percebo que “seu” Edmundo e eu, por diferentes vias, chegamos às mesmas representações sobre a quadra e seu cenário ampliado. Claro que entrevistarei “seu” Edmundo. Naquele final de tarde prosseguimos conversando, e nossas impressões, ao confluírem, revelavam um mesmo “processo de captação espacial”.

Na janela, a festa cotidiana do lago iluminado mais uma vez homenageava, cúmplice e ritualisticamente, a quadra onde moro e seu cenário ampliado, como que referendando a minha escolha.

Texto de especialização da autora, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAC/UnB, organizado pela Professora Cremilda Medina: “Narrativas a céu aberto: Modos de ver e viver Brasília”, 2007.

Se esta quadra fosse minha

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Arquitetura Nascente

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(…) Mansão. Castelo. Catedral.
Marmórea manhã subindo
Arbórea ascenção votiva Cingindo a
cidade imortal.
Volume a se conter bem perto,
Espaço a se expandir tão longe,
Mar aberto a proa do navio,
Trens Coleando rampas nos montes…
Ponte pênsil: raiz aérea
Transpondo a beleza abissal,
Avião a jato projetando
O abismo em vôo monumental.

Joaquim Cardozo, poeta pernambucano

Paulo Porto

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Paulo Porto, como informa sob o título de “O sonho de D. Bosco (I)”, inspira-se em “uma mensagem de Pessoa”. Trata-se evidentemente de “Ulisses”, que assim se inicia: “O mito é o nada que é tudo”. Daí sua conclusão, segundo a qual “O mito é a palavra dada/que se fez mundo”. “O corpo morto de Deus” (4º verso da mesma estrofe 1ª), do lusitano, recria-o Paulo Porto e temos, então: “O horto mudo de Deus”. “Sem existir nos bastou/Por não ter vindo/E nos criou.” (4º e 5º versos da estrofe 2ª) transmuda-se e torna-se “Este mito que aqui germinou (…)//Por não ter vivido/Foi ouvido e nos ergueu”. Com habilidade, o jovem poeta, o único autenticamente brasiliense desta coletânea, apossa-se da voz de Fernando Pessoa, e a funde à expressão profética ou lendária (“Ele é lenda que se fez palavra” – 3º verso do 3º quarteto) do sacerdote salesiano. Na exegese que faz de “O sonho de D. Bosco (II)”, diz Paulo Porto que “o poema aborda, de maneira ficcional, o que teria sido a visão do Novo Milênio. Minha narrativa acrescenta à tal visão outras, como o envilecimento do sonho de JK pelos militares, durante os anos da ditadura”. O ‘rio humano’ do poema seriam os pioneiros que foram sinalizados (no sentido camoniano”: ‘as armas e os barões assinalados) pelo sonho de uma cidade até então mítica, profética; porém não vieram para a construção. Deste rio humano escolhido mas que não vingou, vieram afluentes, outras pessoas (estes, sim, pioneiros) que acreditaram no sonho de JK. Estes ‘toscos eleitos’ (pois eram rudes em sua maioria) se tornaram os ‘construtores do amanhã’, os candangos”. O poeta faz analogia entre a civilização egípcia e a nossa, daí a referência ao Templo e ao edifício do Congresso Nacional.
Texto transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

A revelação do cisne na concha acústica

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Por Ana Miranda

Tento desvendar minha memória: papai estaciona a Rural Willys ao lado de um monte de carros, é preciso atravessar a pé um mato baixo de cerrado para chegarmos à concha acústica, que ainda está em obras. Estava em obras? Mas era uma imensa concha de cimento com uma sutil madrepérola do luar, diante do espelho de prata das águas do Paranoá, o luar é uma lembrança de minha irmã. Sons da orquestra afinando os instrumentos…memória ou imaginação?

Muita, muita gente, mas conseguimos sentar, bem no alto. Talvez fosse maio, junho de 1960…A paisagem noturna era misteriosa, o fundo da cena era o próprio céu, a lua do cenário era a verdadeira Lua, o escuro era a noite, as luzes talvez fossem…estrelas. E o nome do balé evocava fantasias para as crianças que se achavam patinhos feios. O lago dos cisnes. Sei que assistimos ao Lago dos cisnes em Brasília, e minha irmã tem certeza de que foi na concha acústica. Eu lembro das bailarinas levíssimas, flutuando num chão imaginário e perdido. Então…

Surgem os cisnes, lindas cisnes fêmeas com seus braços que são asas, flexíveis, ondas, iguaizinhas, os tutus de tule franzido são plumas, a concha é lago, nadam, flutuam no meu sonho infantil. O príncipe precisa escolher uma esposa, quando vê os cisnes, e enfeitiçado pela beleza das aves vai caçá-las, o lago pertence ao mago do mal, que enfeitiçou a princesa. E surge a princesa encantada em cisne, mulher belíssima na pontinha dos pés. Salta, flutua, ondula, cai nos braços do príncipe.

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O Povoamento Poético de Brasília

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Por Anderson Braga Horta

Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo da Poesia: Literatura em Brasília”:

A ideia de uma cidade atravessa os séculos encoberta pela névoa da Profecia, que se clarifica no sonho-visão de Dom Bosco. A Palavra – o Logos, o Verbo – está associada a ela, em particular a Criação, a Poesia. E Brasília surge, em verdade, como um Farol de autoconhecimento, de auto-realização, de integração nacional e supranacional, de fraternidade.

O planejamento e a implantação, no cerrado quase deserto, de uma cidade moderna, destinada a ser a capital de um país em ascensão – melhor ainda: a cidade nascida de uma ideia progressista, de um pensamento generoso – mexeu com o País e provocou o interesse do mundo. Natural que estimulasse a imaginação de alguns poetas. Pois, como disse e gosto de repetir, Brasília nasceu sob o signo da Poesia.

Os grandes poetas que primeiro cantaram a nova cidade foram Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida. Vinicius na “Sinfonia da Alvorada” (música de Tom Jobim), Cassiano Ricardo na “Toada para se Ir a Brasília”, Guilherme na “Prece Natalina de Brasília”.

Brasília está, com essa espécie de batismo poético, desde o nascedouro ligada à melhor literatura nacional. A rigor, desde antes, e muito antes, se pensarmos em tudo quanto se escreveu – em tudo o que se sonhou! – sobre a interiorização da capital brasileira. Recordo, a propósito, o caso curioso de Osvaldo Orico, que publicou, no livro “Dança dos Pirilampos”, de 1923, o poema “A Cidade do Planalto”, que lhe parece cair – premonitoriamente – como uma luva.

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Eduardo e Mônica

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Posts, Subdestaques do Brasília Poética Sem Comentários

“Eduardo e Mônica é de 1980, da época do Trovador Solitário, personagem criado por meu irmão.

Algumas das citações da letra tinham a ver com o dia a dia dele, que fazia natação na AABB, gostava de cinema de arte, lia bastante e fazia seguidas audições de discos.
Embora nunca tenha revelado quem era o Eduardo e a Mônica cantados na letra, deixava no ar a ideia de que poderia ser algum dos casais do seu ciclo de amizade, como o formado pelo diplomata Fernando Coimbra e pela artista plástica Leo Coimbra”.

Carmem Teresa, irmã de Renato Russo


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