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FEIRA DE CEILÂNDIA (SENZALA)

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A feira de Ceilândia te oferece o que quiser
comprar:
Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar
E o cinto da moda

Sinto vontade, grande necessidade de
comprar
Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra
arrasar
Estilo colegial, brega, veste mal, vamos parar
(…)
Mas o que você precisa mais, na feira não se
pode encontrar:
Razão, consciência, senso, inteligência
Uma cabeça pra pensar
Isso só no shopping lá do centro você vai achar
Se tiver dinheiro pra comprar
Boa aparência pra entrar
(…)

Ellen Oléria
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

SK8

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SK8
É
cultura
energia
pulsação
é um tipo de célula social
para construção de laços,
amizades, cidadania

antes da existência dos paralamas do sucesso
o Herbert e o bi conheceram-se através do SK8

cresci entre livros e idas de SK8
para a pista do clube dos 200 em Taguatinga

a chegada da pista na praça do D.I.
representou o desejo de toda uma geração

ontem,
diante dos olhos do administrador de Taguatinga,
nossa pista foi derrubada

a praça do SK8 é do povo
ontem meu coração foi dormir furado
ontem foi o meu pior role em taguatédio

querem acabar com as drogas?
derrubem polític@s ordinári@s

a fúria dos deuses
irá voltar-se
para os criminosos
da beleza

Paulo Kauim
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense, 07 de maio de 2015.

Ronaldo Cagiano

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Ronaldo Cagiano comparece com o verbo contundente, a mensagem politicamente engajada, que não tergiversa. Embora sem parentesco visível de natureza estética com Bertolt Brecht ou Ernesto Gardenal, são essas figuras exponenciais da poesia participante que ele nos faz lembrar. É verdade que se trata de composições de uma fase francamente panfletária de sua obra, quando, não por coincidência, como articulista Cagiano fustigava e enfurecia políticos da Província, ao execrá-los, merecidamente. Conquanto o tom de agora seja outro, o poeta optou por marcar aquele período de sua vida com os poemas denunciadores do “…cinismo caviloso das elites/, a ignomínia persistente dos canalhas”. Em “Prosoema”, ele é ainda explicito e prosaico, antes de seus versos mais depurados, mas metafóricos e menos circunstanciais, o que explica os seus vários destaques em certames literários, nos últimos anos. Sensível, solidário, político, irreconciliável com o oposto da ética ele também o é na “Crônica (da) cidade”: “do derradeiro pântano/emerge a cidade”. R.C. aponta para “(…) a cidade com suas veias abertas”: o seu sangrar é a dramática presença de homens e crianças na mendicância, condição que os ultraja pelas vias públicas da metrópole.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

As ninfas da construção

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Por Ana Miranda

Muitos dos escritores naturalistas do século 19 se debruçaram sobre a figura da prostituta, como Zola, Tolstói ou Dostoiévski. Matizaram e dramatizaram moças quase sempre arrastadas do campo para os becos sujos da cidade, empurradas pela miséria. Também nossa literatura se ocupou de personagens desse mundo assombroso, desde Lucíola, de José de Alencar, em que Lúcia é a mulher que “na perdição conserva a pureza d’alma”. Essas mulheres foram o antídoto ao culto da donzela, e a tolerância a sua atividade se baseou na crença de uma espécie de “proteção” às famílias. Em todos os eldorados, corridas de ouro, campos de trabalho ou locais de homens carecentes, elas estiveram ali aos bandos.

No tempo da construção de Brasília, foram atraídas para aquele canteiro de obras repleto de homens, muito deles jovens e solteiros, ou distantes de suas esposas. É possível se pensar que, se não fossem essas mulheres, a historia da construção da cidade teria sido bem mais violenta; elas eram um alívio para a virilidade dos construtores. Faziam parte dos segredos da cidade. Lembro que, quando se dizia as palavras sete quedas, as mocinhas ficavam coradas de pudor. Havia um bordel com esse nome.

Mais o mais famoso era o Veneza, que contava com um quadro de mulheres selecionadas entre as melhores em Minas, São Paulo, Rio, duas lindas cubanas e francesas. Havia uma decoração esmerada, com cortinados, luzes ardilosas, babados, flores, estátuas nos cantos do “salão de baile”. As moças usavam batom forte, vestido longo com decote arrojado, sapato alto, cabelo arrumado no salão de beleza. Não podiam repetir a roupa, deviam usar meias finas e estar sempre limpas. Umas andavam de charrete com cavalo branco, a saia rodada aberta sobre o assento.

As mais bonitas e jovens eram as mais caras. Ficava uma tabela de preços na porta do quarto; o dinheiro das mulheres era dado a elas, e o de casa, deixado na copa. Mas antes elas tinham de fazer sala, dançar, levar os homens a beber para dar mais lucro à casa. Ali iam políticos, engenheiros, os homens mais abastados, consta que até Juscelino frequentava o lugar, enquanto os seguranças ficavam esperando do lado de fora.

No inicio, os candangos iam para Luziânia ou Formosa buscar diversão sexual, mas dava “falha de serviço”, e a muito custo convenceram Israel Pinheiro a permitir um cabaré mais perto, na Cidade Livre, adiante do trilho do trem de ferro. Uma casa de tábuas, um quarto pequeno com cama e uma mesinha. Assim que recebiam o salário no fim de semana, peões, candangos, soldados tomavam banho, mas uns iam mesmo cheirando a suor. Um caminhão os despejava na frente do bordel, eles faziam fila na porta, encostados um no outro para não perder a vez, meio rindo, meio sem graça.
Uma prostituta contou que “passavam por cima” dela uns 80 homens num dia. Elas recebiam uma pomada para desinchar as partes, e eventualmente um descanso de uns minutos para se refazerem. Cada ato custava 30 cruzeiros: 15 para a chave, 15 para a mulher, que era descontada em cinco do álcool, sabonete e uso do banheiro.

Não tinham vida fácil essas moças. Se uma delas saía na rua, as de família chamavam a policia e elas eram presas. Se a GEB chegava, as menores de idade se escondiam debaixo da cama para não serem levadas. E quando acharam que não devia mais haver aquele bordel, um juiz deu ordem de fechar, um trator derrubou o barracão, e as mulheres foram mandadas de caminhão para Alexânia, Luziânia, ou largadas na estrada. Umas se saíram bem, casaram, compraram casas, mas a maioria continuou numa vida de pobreza e dificuldades.

As prostitutas do tempo da construção de Brasília ficaram esquecidas pela história, o que deu o titulo do filme de Denise Caputo, “A saga das candangas invisíveis”, em que ouvimos o depoimento de alguma delas, Yone, Auda ou Noeme Luís, com seus rostos maltratados, uma dose de amargura, traços de uma antiga beleza e um certo orgulho daquelas lembranças, sabendo-se tão pioneiras com outro qualquer.

Texto transcrito do Correio Brazilense, 22 de fevereiro de 2015.

As profecias que não se cumpriram

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Silvestre Gorgulho

Brasília nasceu predestinada. Sob o fogo cruzado da oposição, da elite e da mídia brasileira, Brasília nasceu também precocemente julgada e terrivelmente condenada. Estigmatizada!

Os brasilienses candangos sempre buscaram resgatar a historia da construção da nova Capital com muita emoção, com sentimento de humor e de alegria. Mas não foi bem assim para quem habitava o vasto e belo litoral brasileiro.

Não tenho dúvidas: no seu centenário, em 2060, os historiadores vão colocar a construção de Brasília como uma das três datas mais importantes do Brasil como Nação.

As outras duas seriam o Descobrimento e a vinda de D. João VI. A própria Independência ficará em quarto plano, como consequência da transferência da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Da mesma forma que, pela Brasília de hoje, desfilam heróis a começar pelo presidente Juscelino Kubitschek, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro, no final dos anos 50 e inicio dos anos 60, desfilaram, também, vários profetas do caos. E é muito bom conhecê-los.

Quem são os profetas do caos? São justamente aqueles que queriam abortar o sonho de interiorizar a capital. Pior: são aqueles que condenaram o sonho e teimaram em não aceitar a realidade.

Em 1974, ao falar no Senado sobre o desenvolvimento de Brasília, o autor do projeto urbanístico, Lucio Costa, não escondeu sua emoção: “É estranho o fato, esta sensação de ver aquilo que foi uma simples ideia na minha cabeça se transformando nesta cidade enorme, densa, imensa, viva, que é Brasília hoje. Peço licença aos senhores, me deem um pouco de tempo. Estou muito emocionado”. No plenário, um silêncio profundo. A emoção contagiou a todos.

Hoje talvez seja fácil justificar a obra, bendizer a epopeia de sua construção e se emocionar. Mas não foi assim. A verdade é que Brasília está indissoluvelmente ligada à teimosia e à ousadia de homens que ultrapassaram obstáculos aparentemente intransponíveis. Até mesmo antes da posse de JK.
Conhecer algumas das profecias que, felizmente, não se cumpriram, é também um momento de emoção.

“Não vou baixar nenhum decreto considerando a área do novo Distrito Federal de utilidade pública. Considero a medida intempestiva e uma providência utópica.” Ex-presidente Café Filho, abril de 1955, quando o Marechal José Pessoa, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital, levou para ele os estudos técnicos definindo a área do Distrito Federal.

“Afirma-se a necessidade da mudança da capital para garantir maior desenvolvimento econômico ao nosso hinterland. O argumento pró-mudança não tem nenhuma força.” Correio da Manhã (editorial), 14 de outubro de 1956.

“Brasília será a maior ruína da historia contemporânea. A diferença das outras é que nunca será habitada por ninguém, já que não ficará pronta”. Carlos Lacerda, 1957.

“Brasília será, para JK, o que as pirâmides são para os faraós: seu tumulo.” Carlos Lacerda, 1957.

“Afinal de contas para que tanta pressa? Para satisfação da vaidade? Bobagem. Quando se efetivar a mudança, daqui a 4, a 8 ou a 10 anos, far-se-á um obelisco monstro à entrada do El Dorado com a inscrição de que tudo aquilo é devido ao doutor Juscelino e dar-se-á o seu nome à Praça dos Três Poderes. Creio que assim ficará bem para a posteridade.” Editorial “Variações sobre a mudança” de All Right, no Correio da Manhã, de 8 de maio de 1958.

“O Brasil proporciona ao mundo o espetáculo ridículo do pobre que se apaixonou por uma atriz caprichosa e que se empenha, deixa os filhos com fome, que dá desfalques para comprar anéis e colares cobiçados pela amante insaciável. O Brasil está apaixonado pela cruel Brasília…” Gustavo Corção, jornal O Estado de São Paulo, 25 de maio de 1957.

“Antigamente era negócio da China: hoje se diz negócio de Brasília. Meta número um (Brasília) já está paralisada: falta dinheiro para obras. Três coisas estão prontas: 1) O palácio (do Presidente) 2) O hotel (dos turistas) 3) A cachoeira (que Deus fez).” Reportagem na Tribuna da Imprensa assinada pelo jornalista Adirson de Barros, 3 de setembro de 1958.

Silvestre Gorgulho, jornalista.
Texto transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital. Réalisation/Artetude Cultural.

Era um rabisco, e pulsava

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Por Carlos Drummond de Andrade

Dia ‘histórico’ para mim foi aquele em que Lucio me apareceu, discreto como sempre, botando em minha mesa uma folha de papel rabiscada às pressas, com palavras e um esboço de desenho que, aparentemente, pouco significavam. Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos do que a cidade de Brasília, inexistente e completa, como um germe contém e resume a vida de um homem, uma árvore, uma civilização. A primeira noção de uma cidade diferente de todas as outras até então imaginadas mostrava-se ali, nos traços rudimentais de uma cruz (ou um avião) plantada na terra ou alcançando voo. O plano-piloto de Lucio dizia bem pouco para um leigo habituado a ver cidades em funcionamento e não no papel, um papel nada luxuoso como o dos grandes escritórios de arquitetura. Falei em rabisco, e pulsava.

Sem entender, eu sentia a vibração das formas implícitas naquela folha de papel que mudava a historia do governo do Brasil e, em certa escala, a vida dos brasileiros. Comovi-me. Lucio também devia estar comovido por ter achado a solução quase mágica para o problema de conceber uma capital de país em termos absolutamente originais. Mas disfarçava?

Ou o seu pudor de aparecer era tão positivo que lhe permitia filtrar e decantar a emoção até o ponto de torná-la invisível?

Parecia o mais vago dos homens; entretanto, em dada ocasião deu-me um conselho que não segui e que, se fosse observador atento, me pouparia uma decepção política. Na realidade, era e é um observador atento e sagaz do mundo e da vida brasileira em particular. Se tudo parece escarpar-lhe, talvez o mais correto seja dizer que nada lhe escapa; se não dá mostras constantes dessa capacidade de observação e análise – uma análise quase sempre original, resultante do seu gosto, cultura e independência de espírito, e não de patrões estabelecidos de critica – isto se deve à sua inclinação natural para a penumbra, o bastidor, a ocultação de si mesmo. Lucio argumenta, julga, define-se mas desinteressa-se da ação prática que (e isto sucede com frequência) um detalhe das coisas lhe choque a sensibilidade, e ele investe contra a anomalia. No mais, que o deixem viver sossegado, reflexivo, quase uma sombra, na retaguarda dos que brilham e adoram brilhar com luz própria ou de empréstimo. Este nobre e humilde senhor não quer que o aborreçam. Será que o estou aborrecendo com estas lembranças do corredor onde trabalhávamos juntos e calados?

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 09 de abril de 2015.

Anotações para os 55 anos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Conceição Freitas

Brasília é um ato de vontade.
Brasília é o atrevimento de um presidente.
Brasília é a exasperação do urbanismo moderno.
Brasília é a revelação de uma paisagem.
É a mistura dos Brasis, Brasília.
Brasília é uma provocação; é um segredo a ser revelado a quem se dispuser a conhecer uma outra lógica, uma nova razão.
Brasília é o sonho sonhado e o possível realizado.
É o enlaçamento da arte com a arquitetura.
Brasília são os vazios convidando cada um a inventar um sentido à solidão dos ermos.
Brasília é um deus tendo de lidar com suas imperfeições.
Brasília é a capacidade de cada um criar a própria Brasília, tantas são as perturbações que ela provoca em seus habitantes.
Brasília é tão grandiosa que sobrevive às mais terríveis investidas dos políticos e da especulação imobiliária.
Brasília é uma cidade, mas é também uma invocação do belo.
Brasília é também o que não queriam que ela fosse.
Os arquitetos projetaram a Brasília ideal. Os candangos inventaram a Brasília que eles queriam para si.
Brasília seria triste, rançosa, viciada, elitista não fossem os brasileiros que bagunçaram a maquete e fizeram dela uma cidade de verdade.
Brasília queria ser só uma, o Plano Piloto. Quando muito, duas ou três, com os lagos e o Park Way.
Brasília são 31. Brasília são as cidades-satélites que vieram quebrar a monotonia das coisas perfeitamente organizadas.
Brasília é a arqueologia recente de um Brasil que estava dando certo.
Brasília é também o desconforto do Brasil consigo mesmo. Tão inventivo e tão desigual; tão trabalhador e tão corrupto. (Para construir Brasília, os candangos ralavam até 16 horas por dia).
As superquadras de Brasília são o modo de viver confortável, ecológica e democraticamente nas cidades. São os anticondomínios. As superquadras são o futuro que se realiza no passado.
Brasília está ao alcance da mão, apesar da investida voraz dos que querem sugar sua riqueza até os ossos.
Brasília ainda é uma promessa. E uma inspiradora realidade.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense de 25 de março de 2015.

Geografia sentimental

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Por Severino Francisco

Climério Ferreira é um dos habitantes do silêncio de Brasília. Fez doutorado na Austrália, mas cultiva a simplicidade e o anonimato com unhas e dentes. Sempre vi os irmãos piauienses (Clodo, Climério e Clésio) na condição de índios yanomamis, índios da festa e da paz. No momento, Brasília oferece poucos motivos para a gente gostar dela, mas Climério mira a cidade com a devoção que só o olhar amoroso pode revelar. Em “Entre as manias que eu tenho”, ele diz: “Eu não sei quando adquiri/Essa mania doente/De gostar da terra da gente”.

Ele sempre me mandava por e-mail versinhos e poemínimos. Não é pretensão; a sua língua é a do lirismo. Ele é do século 19, conquistou todas as namoradas com um soneto. Se a gente traçar uma geopoética brasiliense, o pedaço que cabe a Climério é a Asa Norte. Aparentemente distraído, ele é muito atento ao que acontece na cidade e, principalmente, em aldeia. Em ‘Meados de novembro’, faz uma crônica dos dilúvios que costumam se abater sobre a cidade durante o período das chuvas: “Carros anfíbios mergulham nas tesourinhas/Os passageiros dos ônibus nadam afoitos/Árvores são arrancadas das raízes/As quadras da Asa Norte naufragam/A arquitetura moderna sobreviverá ao mês/Mesmo que o arquiteto morra”.

Nas décadas de 1970 e 1980, a 312 Norte foi uma quadra de muitas agitações e conexões culturais. Os irmãos Ferreira moraram naquele território e estabeleceram parcerias muito ricas. Por lá, passaram Glauber Rocha, os compositores Fagner e Petrucio Maia; e o pintor pernambucano Vicente Rego Monteiro. É esse o tempo que Climério evoca em ‘SQN 312’: “Lembro-me de Glauber já doente sentado na escadaria do bloco/Eu, Clodo e Zeca Bahia tramando futuras canções no F/Luiz Amorim sonhando um açougue cultural/Gera de Castro armando um show coletivo/Clodo e Petrucio Maia compondo ‘Cebola Cortada no Cavalo Negro’/Fagner mostrando em primeira mão o arranjo de Hermeto para Cebola/O som do pandeiro de Pernambuco percutindo na quadra/Enquanto Vicente do Rego Monteiro pintava figuras godas/A 312 era o Vietnam do Norte”.

A 209 Norte é um dos temas de sua geografia sentimental brasiliense, constituída a partir da que ele e seus amigos fazem da cidade: “Umas frutinhas no Oba/Leitura na quadra de esporte/Guido Heleno na lotérica/Bené Fonteles caminhando/Paulo José Cunha no Sinhá Moça/Fausto e Manoel todo sábado/Eu&Helô no Mineiro/Sobremesa no Rappel/O traço de Lucio Costa não previa tudo isso”.

Mesmo quando está indignado, Climério prefere soprar uma ironia lírica delicada em vez de dar um berro. O comentário que ele faz sobre o excesso de zelo pelo silêncio nas superquadras com bares que apresentam música, em Banho de lua, estabelece um contraponto divertido dos tempos românticos com os tempos pragmáticos em que vivemos: “Acredite, havia donzelas/E existiam rapazes desafinados/Que faziam serenatas nas janelas/Cantando boleros apaixonados/Acredite, ninguém atirava/Nem chamava a policia/Uma bacia d’água era derramada/Para aplacar no cantor a euforia”.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense 29 de junho de 2015.

O poema da curva

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Por Oscar Niemeyer

Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual. A curva que encontro nas
montanhas do meu país, no curso sinuoso
dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo
da mulher amada.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein.
 

Foto: Roberto Castello

Na cidade das retas, as curvas feitas pelos pés do povo encurtam a distância entre dois pontos

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Severino Francisco

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UMA CANÇÃO PARA NIEMEYER

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UMA CANÇÃO
PARA NIEMEYER

A minha vida é sempre assim…
É como a flora do cerrado…
São galhos tortos postos
sobre estes troncos torturados…
Mas preparei flores para ti…
E frutos bem adocicados…
Cajus, cagaitas e pequis…
Mangas colhidas com cuidado!

Retas perseguem setas e rotas nunca dantes experimentadas…
Eu vi um ângulo impossível furar o vão e virar escada!
Era uma mão ou era uma asa aquela concha tão desvairada?
E aquele vão onde passam vans…? E aquele voo por sobre o nada?!

E aquele círculo em espiral e aquela curva tão concavada!
E olhem só que palmas esguias! E estas formas enfileiradas…
Esteta louco! Não vê que cai! Este experimento vai dar em nada!v
Vejo que ri atrás dos bigodes e da prancheta endiabrada!
(…)

Paulinho Dagomé
Poema transcrito da coluna “Fora do Plano”, Correio Braziliense, 13 de julho de 2015.

BRASILIA FUTURA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Poemas para Brasília Sem Comentários

Lua cheia
no meio do Brasil
a construção de tudo: a cidade
No princípio é moldura do nada
sobe mais de 1.000 metros no ar
nem um morro contorna a vista
no alto o plano piloto vira escultura
A primeira fase é candanga
ligação de Brasis
com o mundo
Os pés sobre a terra finavermelhácida
pele de asfalto
corpo de concreto e vidro
mãos ao norte e sul do fazer
O rosto da cidade fica conhecido
sai do papel
escala o pico do impossível
em recorde de inauguração
A cidade criança engatinha
abre os braços para toda gente
parece com a mamãe e o papai
traços da filosofia socialista e de Le Corbusier
anda com a burocracia e suas primas Poesia e Lazer
Infância de sonhos
cidade encontro de céu e chão
asas de último tipo
A dimensão Brasília
face humana do cerrado e arquitetura
fundidos em habitantes-raízes da utopia
Brasília
marco zero da ocupação do interior
voo de raças e quereres
seta ao vento da miscigenação
Aqui não tem mar, não tem esquina
nem trem ou tradição…
ter nascido cidade-capital é destino
de gente, espaço e tempo
Oscar Niemeyer e Lucio Costa
criaram os rumos da modernidade brasileira
largo gesto de autoria
de casas e palácios das mudanças
Tem palavra que é Brasília escrita e pronunciada
mudança é uma delas
muda de lugar e hora
transmuta e marca a história.

Delei
Poema transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital

Um aeroporto vermelho

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”

Reynaldo Jardim

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Reynaldo Jardim, em “Planaltiana”, exalta sua musa, que “se dança molhada” e “me agasalha em Planaltina”. O poeta não diz, nem está no seu dever dizê-lo, o porque de associar “essa menina de mim” a vegetais aromáticos como alecrim, hortelã, coentro. Ficam no ar o bom aroma e as razões do poeta… Em “Anjo” os versos giram em torno da que é “ainda casta corrompida amante”, sempre esperada como se apresenta no primeiro terceto do soneto: “Do Lago Sul, à beira da piscina,/ou de um quarto alugado em Taguatinga,/ela virá em sonho ou de verdade”. O seu “Hino ao Brasil” foi o texto vitorioso em concurso promovido, no final de 1987, pelo maestro Jorge Antunes, da UnB, para “escolher novo hino nacional” (428 votos contra 90, dados ao segundo colocado). A linguagem (o vocabulário) é simples, despida de metáforas; os versos (hexassílabos) e o texto curtos; em ordem direta a construção das orações. Os primeiros versos: “Da paisagem ferida/da criança lesada/Da mulher soluçando/homem triste na estrada/Desta terra traída/pobre gente humilhada/Há de bela explodir/a nação libertada (…)”.

Texto extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

Brasília, par ou ímpar?

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Entre as curiosidades – ou excentricidades – propiciadas pelo traçado urbano de Brasília, uma é a confusão entre par e ímpar.

Os brasilienses, quando tentam explicar as particularidades da capital, como a numeração das quadras, dizem bem assim:
– De um lado ficam as quadras pares, do outro ficam as ímpares.

Eu mesmo, com três dias aqui, procurava a 309 Norte e fui parar na 209, depois na 409, mas nada de achar a 309.
– Flávia, já passei pela 209, pela 409, e não achei a 309!
– Você entrou errado! – ela disse. – Aí são as pares.
– Mas 209 e 409 são ímpares!!
– Não, 209 e 409 ficam nas pares…
– Mas elas não são ímpares?
– Não, são pares!

Parecia conversa de bêbado: ela dizendo par, eu falando ímpar, até que a bateria do celular arriou, mas, antes, ainda pude ouvi-la dizer:
– Querido, é a lógica da cidade. Brasília é organizada, planejada. Aqui tudo tem uma lógica…

Sem celular, desisti da visita a Flávia. E passei uma hora para acertar o caminho de casa, no Sudoeste.
No dia seguinte, os colegas se revezavam em explicações sobre essas “lógicas da cidade”.

Lucio Costa – e não Niemeyer – desenhou Brasília com dois eixos, formando o sinal da cruz, que lembra a imagem de um avião.
É nos “braços” dessa cruz onde fica a área residencial, sendo que de um lado ficam as quadras que começam com dígito par (200, 400) e de outro ficam as que começam com dígito ímpar (100, 300).

Ocorre, porém, que nos dois lados há pares e ímpares. Nas quadras 100 temos 102, 103, 104, 105… Nas 200 temos 202, 203, 204, 205…
Porém, a simplificação – “lado par” e “lado ímpar” – faz com que 304, 506, 708 sejam ditas ímpares, mesmo sendo pares; e 203, 405, 607 sejam ditas pares, mesmo sendo ímpares.

Complicado, não é?

Para o brasiliense, que nasceu e se criou sob essas coordenadas, tudo parece simples, fácil, óbvio até. Mas para o visitante, é tudo diferente.
Brasília é complicada e perfeitinha. É onde o par pode ser ímpar e o ímpar pode ser par.

Texto de Marcelo Torres, cronista

Adoro minha quadra

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Por Conceição Freitas

O leitor Edson Shimabukuro escreve, a propósito da diversidade de produtos e serviços das entrequadras comerciais do Plano Piloto:

“Minha quadra também é cosmopolita. Temos um legítimos restaurante grego, uma crossanteria que não deve às de Paris, uma bela padaria estilo às de São Paulo, um boteco com nuanças pernambucanas, o churrasquinho de gato do Eliomar, o bar do Mocó que fica escondido, e que só os iniciados frequentam. Também temos a distribuidora de bebidas do Paixão, que herdou do falecido Cezar das faixas provocativas e que virou bar tal como o depósito do Piauí na Asa Sul. Adoro minha quadra”.

Na memória descritiva do Plano Piloto, Lucio Costa cita, a título de exemplo, o comércio das entrequadras: mercadinho, açougue, venda, quitanda, casa de ferragem, barbearia, cabeleireiro, modista, confeitaria. Quase 60 anos depois (o projeto de LC é de 1956), a modista foi substituída pela costureira que faz pequenos consertos, o açougue foi engolido pelos supermercados, mas a variedade ficou ainda mais rica.

Há de um tudo nas entrequadras: de lojinhas de candomblé e umbanda a sex shop. De pet shop a serviço de depilação. De biscoito mineiro a chope belga. De restaurante nordestino a bistrô francês. Pizzaria, espagueteria, crossanteria, creperia, padaria, cafeteria, choperia, barbearia, torteria, tapiocaria.

Loja de calçados, de colchões, de cortinas, de cine-foto. Loja que conserta tênis, loja que conserta roupa, que conserta brinquedo, que conserta eletrônicos, que conserta celular, que recupera artigos de couro.

A alta gastronomia e o PF estão representados nas entrequadras. O cassoulet e a feijoada borbulham, calóricos, no comércio local do Plano Piloto. A comida natural e o churrasco reforçam o espírito democrático das lojinhas entre as superquadras.

Os serviços de beleza, cada vez mais especializados, estão à disposição das clientes e dos clientes nas entrequadras: SPA, sauna rejuvenescimento facial, terapia da água, ofurô, sauna, desenhos pubianos, design de sobrancelha.

Calçados ortopédicos, para diabéticos, calçados magnéticos, calçados artesanais, calçados de grife, calçados com numeração especial. Os mercadinhos japoneses estão concentrados na Asa Sul. Nem a chegada dos mercados gourmet tirou-lhes a freguesia de décadas.

Nas entrequadras de Lucio Costa,as lojinhas da década de 1960 (Casa das Meias e Pizzaria Dom Bosco, dois lendários exemplos) assistem, da janela da história, às mudanças continuas na vizinhança. Pode-se arriscar a dizer, sem nenhuma aferição sistemática, que os estabelecimentos modestos tem mais longevidade que as iniciativas mais ousadas. Raras são as entrequadras que não tem um pé sujo devidamente estabelecido há mais de década.

As entrequadras compõem, com as superquadras, o melhor da invenção de Lucio Costa.

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, de Conceição Freitas, de 27 de novembro de 2014.

Festa na quadra

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Por Glaucia Chaves

Viviane Oliveira, 38 anos, especialista em comunicação institucional, dispensou os valores altos de locais para festas infantis e organizou o aniversário de 8 anos do filho na entrequadra da 104/105 Sul. O plano inicial era alugar um campo de futebol society, já que o futebol é uma das paixões do menino Vinicius. Mas o aluguel do espaço não sairia por menos de R$ 700. A reforma da entrequadra veio na época da festa e Viviane pensou que seria uma boa maneira de comemorar sem limitar a quantidade de convidados e sem gastar demais. “Antes, havia muitos usuários de drogas, mas consertaram a quadra de esportes, colocaram bancos e campo de areia”.

Faltava pensar em como organizar uma festa de aniversário ao ar livre. Algumas pesquisas na internet depois, Viviane teve uma ideia das providências indispensáveis: saco de lixo, canga, toalha de piquenique, bandeja para o bolo. “Contratamos duas carrocinhas, uma de pipoca e uma de cachorro-quente, que não precisavam de energia elétrica”. O toque final foi dado pela cama elástica e pela comida extra para os curiosos e os passantes. “A inauguração da entrequadra reformada foi no mesmo dia, então muita gente achou que a festinha do Vinicius fazia parte do evento. A cama elástica foi usada por crianças que a gente nem conhecia.”

Viviane acha que os “convidados adicionais” deram justamente o clima que ela queria para a festa: algo participativo, na cidade, para todos. “Mostrou que a quadra está sendo usada pelas pessoas e que a gente está dando valor às melhorias que foram feitas.” Em Brasília há quatro anos, a carioca acredita que sair mais de casa deveria ser uma vontade de todos que vivem na cidade. “Aqui é um lugar bastante criticado por ser muito automobilístico. Cabe a nós mudar isso.”

Em 2010, Daniela Perdigão Lima, 37 anos, também viu no verde da 416 Sul a chance de comemorar o aniversário de 1 ano do filho de uma maneira charmosa e, ao mesmo tempo, barata. A experiência foi tão boa que, este ano, o quarto ano de Tito também foi celebrado embaixo das árvores, desta vez, na 402 Sul. E o pessoal ainda tinha a estrutura do apartamento do meu sogro, que fica na mesma quadra.”

Daniela e o marido montaram mesas com sanduíches, bolo e brigadeiros. No convite, os convidados foram orientados a levar toalhas, brinquedos e o que mais quisessem para um dia ao ar livre. Era chegar, esticar a toalha na grama e curtir uma tarde sem paredes. Algumas crianças da quadra, curiosas com a movimentação, apareceram. “Levamos lembrancinhas a mais, fomos preparados.” Para Daniela, a iniciativa foi só vantagens: é o lugar mais barato da cidade, é lindo e não faz bagunça em casa. “Muitas vezes, deixamos o lugar mais limpo do que quando o encontramos. Já cortamos a grama e tiramos as guimbas de cigarro antes da festa.”

Texto reproduzido da Revista do Correio, Correio Braziliense de 16 de fevereiro de 2014.

Se esta quadra fosse minha

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Por Theresa Negrão de Mello

Desatar os derradeiros nós daquela precoce e frustrante união implicava deixar o apartamento no qual provisoriamente me instalara para, enfim, com o que me coubera na partilha da casa em São Paulo, dar entrada em nova moradia por aqui.

Não obstante breve,  aquela etapa de primeiro contato com a cidade havia sido suficiente para consolidar a ideia de permanecer em Brasília, cuja hospitalidade se incumbira de descartar os estereótipos que davam suporte aos longos discursos norteados por uma retórica de dissuasão.

Das cartas, telefonemas e encontros eventuais afloravam, com frequência, as marcas de representações de uma cidade “sem alma”, “sem esquinas”, “sem gente nas ruas”. Na verdade, tais sintomas de uma “brasilite negativa” evidenciavam, em não poucas vezes, uma desconcertante contaminação, não associada a qualquer contato ou conhecimento mais efetivo, nutrindo-se do sopro eficiente de enunciados que, “legitimando-se” pela repetição, constituem o celeiro propício dos preconceitos.

Sem querer esmiuçar antigas polêmicas, e apenas visando a contextualizar vetores de representações engendradas em uma conjuntura especifica, cabem aqui as considerações de Holston, cuja pesquisa ressalta uma primeira geração de migrantes que cunhou a expressão “brasilite”, para sinalizar a um só tempo impactos positivos e negativos desencadeados pelo encontro com a cidade nova.

Os aspectos negativos da “brasilite” estão ligados a uma rejeição das intenções desfamiliarizadoras contidas na concepção de Brasília. Rejeitam a negação do Brasil urbano, tal como comumente expresso na organização e na arquitetura da cidade.

(…) Sem a agitação das ruas, Brasília lhes parecia “fria”, embora a separação especial entre as funções de trabalho, moradia, lazer e tráfego produzisse uma clareza na organização urbana (…)

(…) Desse ponto de vista, os migrantes usavam o termo “brasilite” para se referir a uma vida cotidiana destituída de prazeres – as distrações, as conversas, os flertes e os rituais da vida nas ruas em outras cidades brasileiras.

Tendo sido outras as condições, até porque minha vinda não se situa nas primeiras levas de migrantes e, ademais, nada teve de compulsória, a síndrome da “brasilite negativa” não prosperou como suporte das minhas representações sobre a cidade que escolhi para”começar de novo”.

Nesse sentido, a sempre alegada monotonia das superquadras não deu conta de obscurecer uma seleção que, na oportunidade da compra, desde o inicio, privilegiou a 205 Sul. Assim, não sem uma certa angustia, envidei esforços para que o meu, então recente, “trocando em miúdos” me possibilitassem arcar com a entrada, o ágio, o dilúvio de documentos e sei lá mais quantas providências lembradas por uma legião de corretores tagarelas.

Aliás, a todos eles parecia escapar tão peremptória preferência pela “205 Sul com vista para o lago”, e, de fato, meus argumentos não iam além de uma difusa simpatia pelo lugar como um todo, pois sequer os blocos residenciais eu conhecia. Enfim, tais motivações, não se confinando ao racional, são capazes, entretanto, ou bem por isso, de mobilizar-nos. Em tais casos, a mais trivial preferência ganha no representacional foros de aspirações insubstituíveis, daí o titulo desta pesquisa “Se esta quadra fosse minha”, fragmento do repertorio popular, pleno de significações.

Quando finalmente surgiu o esperado “imóvel”, como se esmerava em soletrar o corretor quase gordo, preenchi ali mesmo, durante a visita, o cheque referente ao sinal, com direito à vista belíssima para o lago e, de quebra, à grotesca visão de absurdas paredes rosa, literalmente “choque”, pedindo, quando menos, caiação urgente. Tudo bem, o corretor negociaria a pintura, o que me fez sair faceira, estalando com os saltos das sandálias as dezenas de tacos descolados. Em menos de duas semanas cá estava eu instalada, uns poucos móveis, os inseparáveis discos e livros, “começando de novo”, agora como membro da comunidade da 205 Sul.

Hoje percebo que a comunidade, não se confundindo com a ideia de superquadra enquanto concepção administrativa e urbanística, circunscreve um cenário ampliado que, ao incorporar espaços contíguos, multiplica lugares de comunicação e socialidade.

Assim, pessoas que cotidianamente se cruzam na quadra e suas imediações, não raro se conhecem e se relacionam, de modo a evidenciar um sentimento comum de pertença que extrapola, por exemplo, as práticas ritualizadas do simples cumprimento. Trata-se, como diria Maffesoli, de uma socialidade que se exprime também na partilha dos afetos, no lúdico, na emoção, enfim, no interacionismo simbólico perpassado de transfigurações imáginárias.

Tais elementos concorrem, sem dúvida, para a construção “…dessa identidade perceptível que se chama cidade, bairro, quadra, etc.

Ao considerar a comunidade no âmbito de um cenário ampliado, constato que se a ideia de quadra não a contém, a de bairro igualmente não a traduz. Entendo, ao final das contas, que a quadra em que moro e suas adjacências, este espaço do lado de baixo do Eixo Monumental até a L 2 Sul, muito se assemelha a uma espécie de quartier fincado no planalto Central. Dialogando com Bresciani, suas ideias fornecem-me interessantes pistas:

Há, porém, ainda uma outra percepção da rua que forma algo bastante pessoal, daí subjetivo, e ao mesmo tempo tecido num fio que permite algo  que se aproxima da comunidade perdida: o percurso diário para as compras e demais tarefas domésticas, um mesmo açougue, a mesma quitanda, sapateiro, jornaleiro, palavras trocadas entre pessoas para as quais a civilidade aprendida e um laivo de interesse pessoal se mesclam no bom-dia, como vai?

Exatamente aquilo que faz um francês e uma francesa se referirem ao lugar onde moram como mon quartier, não inteiramente traduzível por bairro. Um recanto que às vezes pouco lembra o recorte administrativo do bairro, mas é composto pelas ruas percorridas, pelos locais visitados, pelas pessoas encontradas.

E é bem o que aqui ocorre, sobretudo nas manhãs de sábado, nos bares, confeitarias, lojas, butiques, padarias e farmácias. Ali, o simples “bom dia” acaba emendando um dedo de prosa entre pessoas que geralmente se conhecem pelos nomes e mesmo apelidos. Ali se realizam as conversas sem consequência “sobre a saúde, o tempo que passa, a meteorologia, as emissões televisivas, o esporte e tudo o mais. Ali, “tudo se sabe”, e é naquela espacialidade que se ensejam “as varias ocasiões em que se vive, conjuntamente e sem brilho, o crucial problema do tempo que passa”.

Na verdade, o mesmo quadro parece reproduzir-se nos blocos residenciais na comunicação diária entre vizinhos. “Seu” Diamantino, meu vizinho de porta, desde a minha chegada jamais se limitou à glacial polidez do cumprimento. A ele devo a mediação com “seu” José, uma espécie de mestre-de-obras oficial da quadra, e o sindico, logo às primeiras semanas da minha instalação no sonhado “imóvel na 205 Sul com vista para o lago”.

Deixar o imóvel com a minha cara, até meio excessivamente personalizado, significou percorrer uma saga de mais de uma década, pontuada por três inesquecíveis reformas, com o mesmo modesto orçamento, fosse qual fosse o novo apelido da moeda da ocasião.

Tão inoportuna quanto inadiável, a primeira obra que se impôs envolveu também o condomínio, e mesmo com as despesas assim partilhadas, não consigo apagar da memória o discurso do entusiasmado corretor que, ciente ou não, me vendeu também, além da vista para o lago e do enfatizado sossego de um imóvel no último andar, uma inesperada goteira, apenas evidenciada com as fortes chuvas que fechavam o verão brasiliense. Com um balde de plantão logo à entrada, eu tentava poupar, em março, o carpete colocado em fevereiro.

Segundo meu solidário vizinho, em breve teríamos a seca e, com ela, a possibilidade de cuidar da imprescindível impermeabilização do teto. Se a propalada secura brasiliense jamais me incomodara, naquele momento, mesmo prevendo despesas, eu contava os dias para dar-lhe as boas-vindas.

Enfim, sempre vi, com o devido desconto ao exagero, os discursos que a cada estação elegem como “o pior dos últimos anos” o clima do nosso Saara federal, com seus baixos índices de umidade relativa do ar, sobretudo como um bom pretexto para os breves temas acionados na tentativa de vencer o secular silêncio que se segue ao cordial bom-dia do elevador.

Com a chegada da seca chegou também “seu” José, cuja historia de vida remonta aos tempos da construção da quadra da qual ele participou, como tantos nordestinos que aqui chegaram, compondo o exercito de candangos recrutados e seduzidos com o trabalho na cidade nova. Orgulhoso, “seu” José afirma ter na cabeça a planta dos antigos imóveis, e tem mesmo. Por ocasião das reformas, ele dá conta da localização de colunas e passagens de canos com a intimidade de quem teve a experiência da construção. Morando em uma cidade-satélite, “seu” José frequenta a quadra há décadas e, como “seu” Edmundo, o marceneiro, faz parte da nossa comunidade.

Além dos serviços que nos prestam, esses trabalhadores articulam suas historias pessoais à memória da quadra. Seus relatos desenham no quartier uma historia local, naquele entendimento que lhe confere Souza Martins:

“Nela o tempo e o espaço não podem ser separados. Por isso é uma historia local. A historia do cotidiano não tem sentido quando separada do cenário em que se desenrola. Por isso, é quase uma historia intimista, de vizinhanças e pequenos grupos”.

É sobre essa historia local e seu arquivo de memórias, sobre as representações que dela fazem seus atores, e sendo eu mesma uma das personagens, que direciono um dos meus trabalhos atuais.

Estudando o bairro de Copacabana, lugar onde passou grande parte de sua vida, o antropólogo Gilberto Velho lembra o desafio por ele enfrentado ao propor uma pesquisa que, deslocando-se dos convencionais estudos “dos outros”, se propunha a estudar o “nós”.

Também no caso da investigação aludida, reflito sobre um tema que, sem perder o compromisso com os sempre lembrados paradigmas científicos, trará ao final as marcas das minhas representações sobre o cenário ampliado da 205 Sul e, é claro, uma esparramada carga de subjetividade. Conforta entender com Morin que “o campo real do conhecimento não é o objeto puro, mas o objeto visto, percebido e co-produzido por nós”.

Nas providências preliminares dessa co-produção, venho elecando alguns atores da quadra. Seus depoimentos constituem uma exuberante fonte onde miríades de sentidos possíveis podem ser consideradas. Paulistas como eu, paraibanos como “seu” José, piauienses como “seu” Edmundo, baianos como o zelador, cariocas como “seu” Diamantino e tantos outros dos mais diversos lugares oferecem, na multiplicidade dos enredos sobre como aqui chegaram e que representações fazem do quartier, articulações que, pinçadas desse universo empírico, darão vida aos estudos teóricos enclausurados nas obras cujos autores se dedicam ao simbólico, ao imaginário e ao cotidiano que os engendra.

Pretendo ouvir moradores antigos e recentes dos diferentes blocos residenciais, trabalhadores tais como empregadas domésticas e funcionários dos blocos. Penso também no contingente constituído pelo pessoal ligado ao comercio das entrequadras, bem como nos trabalhadores do setor informal, protagonistas dessa prática tão brasiliense de chamar, para os mais variados pequenos serviços de casa, os fazedores e furos e colocadores de varais. Pacientemente, chova ou faça sol, eles estão ali em grupos ou isoladamente, disponíveis para atendimento imediato. São, enfim, atores nos quais a condição de não-residentes nas superquadras não lhes retira o status de membros da comunidade, em seu cenário ampliado. É o caso de Walter e Josafá, que nos prestam pequenos serviços como eletricistas, bombeiros e são, porém, identificados como os “rapazes do varal”. É também o caso de Manuel, o jornaleiro da 205  que vimos crescer, de “seu” Nicácio, o verdureiro da Kombi, e de “seu” Jáder, que, com Maria e Zé Baiano, compõem o “setor” dos sapateiros. “Seu” Jader, na verdade, mudou-se para a Asa Norte, mas frequenta a quadra comercial com a mesma intensidade de antes. Impossível chamá-los a todos neste breve painel, onde tento apenas ilustrar com alguns personagens conhecidos a animação do quartier que, em certo sentido, poderia também, numa versão mais “tapuia”, ser identificado como “o pedaço”.

É que, com as devidas compatibilizações, a noção de “pedaço” utilizada por Magnani ao trabalhar o universo de um bairro periférico da grande São Paulo harmoniza-se com a ideia de cenário ampliado da quadra, pelo menos quando se retém na noção de “pedaço” a sua condição de lugar “onde se tece a trama do cotidiano e espaço de mediação entre o lar e o resto do mundo”.

Girando o dedo indicador ao lado da fronte, no gesto que na identificação popular traduz “uma coisa de doidos”, o jovem estudante interpela-me no estacionamento da universidade, entre perplexo e curioso: “Professora, é você que trabalha com o imaginário ?” Afirmando que sou uma delas, tentei resumir o que andamos fazendo em nosso grupo de estudos. Talvez por sincronicidade, ao buscar um exemplo, lembrei-me de minhas reflexões sobre o cenário ampliado da 205 Sul e acabei sabendo que o interessado aluno é um ator do “pedaço”, pois mora na 405 Sul. Com uma breve troca de palavras, tentei esclarecer os contornos de uma noção que, mesmo presumidamente entendida, não logrou escapar do gestual reproduzido durante todo o tempo. De todo modo, como membros do quartier, partilhávamos representações gestadas no imaginário comum e vivenciávamos experiências cotidianas análogas.

De volta das férias, e contando ainda com o espaço fora da sala de aula, ocupei-me com o presente texto. Na mesma ocasião tomava algumas providências que, uma vez iniciado o semestre, acabam sendo sempre adiadas. Pequenos consertos, uma revisão nos armários e mais uma estante, pois novamente se repetia a situação – as novas aquisições sempre “imperdíveis” faziam pilhas sobre a mesa de estudos e disputavam com os CDs mais recentes, igualmente imperdíveis, um lugar ideal.

Enfim, era preciso chamar “seu” Edmundo, o nosso marceneiro. Nos dias em que trabalhamos juntos, eu neste ensaio e ele nas estantes, o incômodo barulho das ferramentas não deu conta de obscurecer aquela sociabilidade de base que saía dos livros para ganhar visibilidade na pratica cotidiana. Nos “recreios”, partilhávamos o cafezinho e conversávamos. Há mais de uma década com “ponto” na 205 Sul, o discurso de “seu” Edmundo traz as marcas que naturalmente respondem a indagações da minha pesquisa, como que traduzindo, de modo singelo, os nexos entre espaço e socialidade e a fecundidade da sinergia que as preside.

Se, como ensina Barbero, o imaginário “no es sólo aquello de que trata un discurso sino aquello de que está hecho”, a prosa de “seu” Edmundo, carregada ainda de um forte sotaque piauiense e eivada de provérbios populares, parece legitimar, apesar dos percalços de sua luta diária, aquele “gosto muito de estar aqui”, tão bem trabalhado por Certeau em suas reflexões sobre lugares, espaços e práticas cotidianas.

Partilhando a experiência comum da quadra, alternando nossos relatos pessoais, desdobro com”seu” Edmundo fragmentos de enredos “empilhados em um lugar” que outro não é senão a quadra, daí as mesmas ressonâncias. É ainda Certeau quem resume:

“O memorável é aquilo que se pode sonhar a respeito do lugar (…) nesse lugar (…) a subjetividade se articula sobre a ausência que a estrutura como existência e a faz “ser-aí” (…) este ser-aí só se exerce em práticas do espaço, ou seja, em maneiras de passar ao outro”.

Não me surpreendi com a compreensão que “seu” Edmundo demonstrou ao naturalizar a justeza dos meus estudos atuais e percebi que, de algum modo, consegui passar-lhe meus propósitos. Com um sorriso significativo, ele meneou a cabeça como que discordando do gesto adotado pelo estudante, e que eu reproduzia ludicamente, para falar sobre o imaginário da quadra. Segundo “seu” Edmundo, “há coisas que mesmo a gente não explicando muito bem, a gente sente. Acho que é o caso nosso com a quadra”.

Ou muito me engano ou pelo menos na primeira parte da fala meu amigo marceneiro entrou em perfeita sintonia com o antropólogo Durand, a quem parafraseou. Para ambos, o imaginário, antes de mais nada, manifesta-se. Percebo que “seu” Edmundo e eu, por diferentes vias, chegamos às mesmas representações sobre a quadra e seu cenário ampliado. Claro que entrevistarei “seu” Edmundo. Naquele final de tarde prosseguimos conversando, e nossas impressões, ao confluírem, revelavam um mesmo “processo de captação espacial”.

Na janela, a festa cotidiana do lago iluminado mais uma vez homenageava, cúmplice e ritualisticamente, a quadra onde moro e seu cenário ampliado, como que referendando a minha escolha.

Texto de especialização da autora, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAC/UnB, organizado pela Professora Cremilda Medina: “Narrativas a céu aberto: Modos de ver e viver Brasília”, 2007.

Se esta quadra fosse minha

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Capa, Internas Sem Comentários

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