Augusto Estellita Lins

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Augusto Estellita Lins, em “Cântico para uma cidade-moça”, confronta Brasília e o mundo, o mundo que se fez vetusto e frontalmente destoa do espírito verde, arejado, saudável daquela que a ternura do poeta rotula de “…minha pequena…”. Traz-lhe à presença, logo no inicio da estrofe primeira, as metrópoles há milênios bafejadas por aziagos ventos. “Porque as grandes cidades, Senhor – disse Rilke -/são malditas”. Lembra-nos o autor as Elegias de Duíno, em que (na “Décima elegia”, 1º verso da 2ª. estrofe), de certo modo reitera certa dose de rejeição, quando vê as “Estranhas ruas da Cidade-Aflição”. A catedral do geboso que Victor Hugo celebrizou, Babel, Jericó e seu muros derribados pelas trombetas do general-profeta Josué, tudo é apresentado para enfatizar a face e a alma de Brasília, “cidade-moça”, imune ao sufocante peso da História e “ingênua/pura/casta/virgem”.

No poema que vem a seguir, temos a “Brasliatown”, “Brasilville”, “Brazilia City”, contemporânea da glória de idiomas de hoje. Os últimos versos de Augusto Estellita Lins tem o título de “Sonata no 5 Brasília descoberta”. Neles “figuram codificações pós-renascentistas, como a alternação de ritmos lentos-rápidos nos movimentos. As variações sobre o mesmo tema e as repetições de alguns versos em distintos contextos, como as dos que provêem da Divina Comédia, contribuem para acentuar a tonalidade barroca e épica. Os quatro movimentos conduzem a uma sucessão de temas da criação, construção, denegação e o renascimento da cidade que ocorreu depois do governo militar (na imagem do tropel das mulas-sem-cabeça) e da morte de Juscelino. O poema todo obedece à dualidade mito-realidade, paralela à dupla criação por um estupro virtual cometido por Juscelino contra Pindorama, que seria o propótipo brasileiro da deusa Géa, a Terra que era preciso violentar para nela plantar a metrópole Brasília”.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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