As ninfas da construção

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias..., Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda

Muitos dos escritores naturalistas do século 19 se debruçaram sobre a figura da prostituta, como Zola, Tolstói ou Dostoiévski. Matizaram e dramatizaram moças quase sempre arrastadas do campo para os becos sujos da cidade, empurradas pela miséria. Também nossa literatura se ocupou de personagens desse mundo assombroso, desde Lucíola, de José de Alencar, em que Lúcia é a mulher que “na perdição conserva a pureza d’alma”. Essas mulheres foram o antídoto ao culto da donzela, e a tolerância a sua atividade se baseou na crença de uma espécie de “proteção” às famílias. Em todos os eldorados, corridas de ouro, campos de trabalho ou locais de homens carecentes, elas estiveram ali aos bandos.

No tempo da construção de Brasília, foram atraídas para aquele canteiro de obras repleto de homens, muito deles jovens e solteiros, ou distantes de suas esposas. É possível se pensar que, se não fossem essas mulheres, a historia da construção da cidade teria sido bem mais violenta; elas eram um alívio para a virilidade dos construtores. Faziam parte dos segredos da cidade. Lembro que, quando se dizia as palavras sete quedas, as mocinhas ficavam coradas de pudor. Havia um bordel com esse nome.

Mais o mais famoso era o Veneza, que contava com um quadro de mulheres selecionadas entre as melhores em Minas, São Paulo, Rio, duas lindas cubanas e francesas. Havia uma decoração esmerada, com cortinados, luzes ardilosas, babados, flores, estátuas nos cantos do “salão de baile”. As moças usavam batom forte, vestido longo com decote arrojado, sapato alto, cabelo arrumado no salão de beleza. Não podiam repetir a roupa, deviam usar meias finas e estar sempre limpas. Umas andavam de charrete com cavalo branco, a saia rodada aberta sobre o assento.

As mais bonitas e jovens eram as mais caras. Ficava uma tabela de preços na porta do quarto; o dinheiro das mulheres era dado a elas, e o de casa, deixado na copa. Mas antes elas tinham de fazer sala, dançar, levar os homens a beber para dar mais lucro à casa. Ali iam políticos, engenheiros, os homens mais abastados, consta que até Juscelino frequentava o lugar, enquanto os seguranças ficavam esperando do lado de fora.

No inicio, os candangos iam para Luziânia ou Formosa buscar diversão sexual, mas dava “falha de serviço”, e a muito custo convenceram Israel Pinheiro a permitir um cabaré mais perto, na Cidade Livre, adiante do trilho do trem de ferro. Uma casa de tábuas, um quarto pequeno com cama e uma mesinha. Assim que recebiam o salário no fim de semana, peões, candangos, soldados tomavam banho, mas uns iam mesmo cheirando a suor. Um caminhão os despejava na frente do bordel, eles faziam fila na porta, encostados um no outro para não perder a vez, meio rindo, meio sem graça.
Uma prostituta contou que “passavam por cima” dela uns 80 homens num dia. Elas recebiam uma pomada para desinchar as partes, e eventualmente um descanso de uns minutos para se refazerem. Cada ato custava 30 cruzeiros: 15 para a chave, 15 para a mulher, que era descontada em cinco do álcool, sabonete e uso do banheiro.

Não tinham vida fácil essas moças. Se uma delas saía na rua, as de família chamavam a policia e elas eram presas. Se a GEB chegava, as menores de idade se escondiam debaixo da cama para não serem levadas. E quando acharam que não devia mais haver aquele bordel, um juiz deu ordem de fechar, um trator derrubou o barracão, e as mulheres foram mandadas de caminhão para Alexânia, Luziânia, ou largadas na estrada. Umas se saíram bem, casaram, compraram casas, mas a maioria continuou numa vida de pobreza e dificuldades.

As prostitutas do tempo da construção de Brasília ficaram esquecidas pela história, o que deu o titulo do filme de Denise Caputo, “A saga das candangas invisíveis”, em que ouvimos o depoimento de alguma delas, Yone, Auda ou Noeme Luís, com seus rostos maltratados, uma dose de amargura, traços de uma antiga beleza e um certo orgulho daquelas lembranças, sabendo-se tão pioneiras com outro qualquer.

Texto transcrito do Correio Brazilense, 22 de fevereiro de 2015.

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