As Moças da Asa Norte

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

As Moças da Asa Norte
 
Nunca vi moças bonitas
a caminho da Asa Sul,
embora venham de ônibus,
dos blocos da Asa Norte.
Mas sei que elas existem,
aos bandos, como andorinhas,
circulando sua beleza
de moças se abrindo em flores
nos blocos da Asa Norte.
 
              São moças vindas de longe,
              que trazem o cheiro de terras
              dos quatro pontos da Pátria,
              de terras velhas e novas,
              que acompanharam, com espanto,
              ao milagre de Brasília.
              São moças vindas de longe
              para enfeitar olhos tristes
              de corações solitários,
              como os meus e como os teus,
              que olham sem poder ver
              os olhos lindos das moças
              dos blocos da Asa Norte.
 
Falta leite, falta pão,
o mercado é insuficiente,
a poeira sobe as escadas
de apartamentos tranqüilos,
crianças brincam na poeira,
lambretas retardatárias,
acordam os que dormem cedo
e que cedo se levantam,
nos blocos da Asa Norte.
Apitos intermitentes,
noite adentro dão avisos
de vigilância e cuidado.
E na hora vinte e duas,
quando o amor ensaia gestos
de braços, lábios e corpos,
sob as colunas dos blocos,
apitos soam e refreiam
os ímpetos amorosos
de moças de outras terras,
que plantaram em Brasília
residência e coração
e vivem na Asa Norte.
 
              As moças que aqui chegaram,
              com cheiro de outras terras,
              acham esquisita a ausência
              das esquinas e das praças
              que viram, quando meninas,
              na cidade da infância.
              Das esquinas onde o beijo
              mais dado do que roubado,
              pousava de lábio a lábio.
              Das praças com pistas curvas
              e com bancos sob as árvores,
              onde os olhos se buscavam
              na promessa de namoro.
 
A minha Brasília que amo
não tem praças, nem esquinas,
nem telefones que cheguem
para as mensagens de amor,
principalmente das moças
das belas moças ilhadas
nos blocos da Asa Norte.
Mas tudo, amiga, é Novo
até o jeito de amar,
nesta Brasília que amo.
Com tempo a gente recria
aquelas coisas pequenas
que perdemos no caminho.
As esquinas e as praças e
o telefone também
são instrumentos apenas,
são cenários provisórios
para as promessas de amor.
As amplas áreas dos blocos,
hoje vermelhas de terra,
serão verdes, e terão sombras
de árvores, com o tempo.
 
            Com o tempo sem dimensão,
            que se criou em Brasília,
            em pouco mais de três anos,
            teremos sombra e ternura,
            nas amplas áreas dos blocos
            que, devagar, se povoam
            de lindas moças, amiga,
            de moças de voz suave,
            que vieram de outras terras,
              trazendo o cheiro de flores
              o cheiro de corpos jovens
              para alegrar os canteiros
              e os corações solitários
              nos blocos da Asa Norte.
 
Clemente Luz, escritor e poeta mineiro, natural de Delfim Moreira.
Transcrito do livro “Invenção da Cidade”

 


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