As águas

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As águas 
Por Conceição Freitas

Esqueça as casas, as pontes, as lanchas, os barcos, as garças, os sargaços. Não deseje o píer, abandone as prainhas, abdique do mergulho, esqueça a linha e o anzol. Não pense que ele está sendo privatizado, que se fechou para o conjunto da população, que é privilégio de poucos. Concentre-se unicamente no espelho d’água do Lago Paranoá. Deite os olhos nele, só e exclusivamente nele.

A lâmina líquida que abraça o Plano Piloto de norte a sul tem o mistério das montanhas e a profundidade dos céus. Peço licença ao mar, o deus das águas infindas, para reverenciar a infinitude das águas candangas. São quase 500 bilhões de litros d’água, tantas canequinhas derramadas no vão do Paranoá quanto nossa imaginação não consegue alcançar. Pense numa caixa d’água de cinco mil litros. Agora, imagine um milhão delas. São as águas do Paranoá.

Tem malemolência, as águas do lago. Quando é dia de ventania, dançam em passos miudinhos, de ondas-bebês, umas sobre as outras, umas ao lado das outras, não fazem espuma nem marola. Em dias de pouco vento, elas tremulam docemente, como se lá no fundo alguém estivesse lhes fazendo cócegas. Coceguinhas. Movem-se em círculos concêntricos, nas margens, escorrem em pequenas ondas espumantes.

Há dias em que o espelho d’água do Paranoá fica em estado de descanso. Estende-se calmamente ao redor do Plano Piloto. Não treme, não ondula, não faísca, não corre. Fica em silêncio, mas não está inerte. Nunca está inerte, mesmo quando aparentemente parece não mover um músculo.

As águas do Paranoá nunca tem pressa. Pelo contrário, são indolentes, mas estagnadas, jamais. Uma gota de lago gasta 299 dias para sair do ponto mais distante até alcançar a barragem. Quase um ano nadando vagarosamente. Desconfia-se que seja o ritmo goiano, de quem com calma assunta o novo território. As águas que caem no Paranoá vem de quatro ribeirões, Torto, Gama, Riacho Fundo e Bananal. Quando chegam ao lago, viram candangas e se transformam no “mais belo monumento da escala bucólica da cidade”, frase que consta do “Olhares sobre o Lago Paranoá”, biografia ecológica e histórica das águas que nos cercam.

Elas mudam de cor de acordo com a hora do dia ou da noite, da vontade do sol e do humor da lua. As águas do Paranoá ora são azuis da cor do mar, ora esverdeadas como esmeraldas, ficam vermelhas com o pôr do sol ou amarelas com a luz da lua ou cinza com a proximidade das chuvas. São escuras perto dos brejos e emitem uma luz prateada em dias sem nenhuma nuvem.

O espelho d’água do Lago Paranoá é um oceano para meus olhos cansados. Aquelas águas me contam que mais coisa pra eu ver, descobrir e aprender nesta cidade que nunca termina, nunca se esgota, nunca é toda escrita e contada. Esta cidade não cabe em mim, vivê-la é muito maior que eu e por isso é bom de doer.

Transcrito do Correio Braziliense, de 24 de junho de 2009.

 


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