"…aparecerá neste sítio a terra prometida, de onde fluirá leite e mel"

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  "…aparecerá neste sítio a terra prometida, de onde fluirá leite e mel"
(trecho da visão de Dom Bosco)

O sonho de D. Bosco (I)
(versão de uma mensagem de Pessoa)

O mito é a palavra dada
Que se fez mundo.
O céu, que herda o sol,
É um rito sereno e rudo,

O horto mudo de Deus,
Que está em tudo.
Este mito que aqui germinou
Teve por não ter resistido. 

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O sonho de D. Bosco (I)
(versão de uma mensagem de Pessoa)

O mito é a palavra dada
Que se fez mundo.
O céu, que herda o sol,
É um rito sereno e rudo,

O horto mudo de Deus,
Que está em tudo.
Este mito que aqui germinou
Teve por não ter resistido.

Por não ter vivido
Foi ouvido e nos ergueu.
Ele é lenda que se fez palavra,
É o mundo e é o muro.

E é o eco do meu grito.
Se é divino ou obscuro
Não se viu.
Sabe-se que é mito.

E, sobretudo, futuro.

Paulo Porto, poeta brasiliense.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

"Quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destas montanhas, aparecerá neste sítio a terra prometida, donde fluirá leite e mel"
São João Bosco

Leite e mel

Era um vez um santo italiano nascido em Becchi, no Piemonte, em 16 de agosto de 1815, filho de camponeses. Órfão de pai aos dois anos, mãe analfabeta, viveu e estudou com grande sacrifício e dificuldade. Sempre quis ser sacerdote. Em 1835, entrou para o seminário de Chieri, ordenando-se em 1841. Dedica-se principalmente ao ensino cristão. Preocupava-se especialmente com o futuro de crianças pobres e abandonadas. Com a educação e instrução profissional. É destaque internacional do ideal de educação da juventude. Em 1846, estabelece-se em Valdocco, bairro de Turim, onde funda o Oratório de São Francisco de Sales e depois escola profissional e ginásio. Em 1855, chama seus colaboradores de salesianos, palavra derivada de Sales. Com eles funda, em 1859, a Congregação Salesiana. Depois, com Santa Maria Domingas Mazzarello, cria o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, para educação da juventude feminina. Os primeiros salesianos vão para a América do Sul em 1875. No Brasil, instalam-se inicialmente em Niterói, estado do Rio, e depois em São Paulo. Dom Bosco morre em 31 de janeiro de 1888, aos 72 anos. Foi canonizado pelo Papa Pio XI na Páscoa de 1934. É considerado o visionário que anteviu Brasília.

Está escrito que, na noite de 30 de agosto de 1883, Dom Bosco teve estranho e iluminado sonho místico. Ele o revelou durante reunião do Capítulo da Congregação Salesiana realizada em 4 de setembro daquele ano. O padre Lemoyne anotou tudo. O santo conta que foi arrebatado pelos anjos e viajou com eles num sonho que não era só sonho. Mas visão, fato maravilhoso, profecia: o advento de grande civilização num lugar incompletamente definido. A latitude é apontada num amplo intervalo, cinco graus. Uma imensidão. A longitude não é mencionada. Para muitos, a antevisão de uma nova cidade, que crêem tratar-se de Brasília. Está no volume XVI da "Memórias biográficas de São João Bosco":

 

"Por muitas milhas, percorremos uma enorme floresta virgem e inexplorada. Não só descortinava, ao longo das Cordilheiras, mas via até as cadeias de montanhas isoladas existentes naquelas planícies imensuráveis e as contemplava em todos os seus menores acidentes. Aquelas de Nova Granada, da Venezuela, das Três Guianas, as do Brasil, da Bolívia, até os últimos confins. Eu via as entranhas da montanha e o fundo das planícies. Tinha sob os olhos as riquezas incomparáveis desses países, as quais um dia serão descobertas. Via numerosas minas de metais preciosos e de carvão fóssil, depósitos de petróleo abundantes que jamais já se viram em outros lugares. Mas isso não era tudo. Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repetidamente: "Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração"."

 

Curiosidade: o trecho que menciona os paralelos de 15 e de 20 graus foi acrescentado às anotações por Dom Bosco, de próprio punho, conforme consta de manuscrito existente na biblioteca da Congregação Salesiana, em Turim. A área de Brasília, aprovada em 1955, antes da eleição de Juscelino Kubitschek, está situada entre os paralelos 15º30′ e 16º03′, e os rios Preto e Descoberto.

Juscelino agarrou-se a esse antigo sonho-profecia como símbolo e sinal de uma predestinação:

 

"E veio-me à mente, outra vez, a frase profética de Becchi: "E essas coisas acontecerão na terceira geração". Dom Bosco falecera em 1888. Computando-se o período de vinte anos para cada geração, era óbvio que a década dos 50 seria a da "terceira geração". As forças misteriosas que regem o mundo haviam agido no sentido de que as circunstâncias se articulassem e criassem a "oportunidade" para que o velho sonho se convertesse em realidade. Justamente na década dos 50 a idéia havia chegado à maturação, requerendo execução. (…) A visão de Dom Bosco fora, de fato, uma antecipação, uma advertência profética sobre o que iria ocorrer no Planalto Central a partir de 1956".

 

Trecho extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

 

O sonho de D. Bosco (II)

Dormindo na prece do seu silêncio
Desperto, ele vê uma cidade
Feita só de futuro e no fio
Das lendas tecida, imortalidade

Cerzida nos sonhos de um passado
Que edifica o terceiro milênio,
Dado aos passos dos imortais, fado
Que a chama doura, abrindo um rio

Humano, afluentes brotando nas
Hordas convocadas, toscos eleitos,
Construtores do amanhã, para a paz
Dos faraós da Terra em seus leitos.

Pirâmides sombreando o deserto
Junto ao Lago, o Planalto a defendê-los.
Povo recorrendo ao sonho encoberto
No barro vermelho sob paralelos.

Mas nem tudo era sonho profético.
Pesadelos herdados do passado
Fazem do Templo de Aton um cortiço
De generais monarcas, estiolado

Pelas alimárias armadas de ódio.
Dinastia do desvario, deuses
De pedra do ilogismo bravio,
O futuro marcado como rês,

A alvorada escurecendo o céu
Tingido de sangue, empanado véu.
Vislumbres de um difícil despertar
Na luz sonhada renascendo no ar.

Súbito, ele acorda, sobressaltado.
A vela, um ponto de luz no quartinho
Escuro. Abre as janelas para o prado.
À sua frente, a girar como moinho,

Fragmentos de uma noite e um sonho.
Tranquiliza-se. Sabe que as noites
Portam sinais traduzidos aos homens,
E o sonho os conduz sempre ao seu caminho.

Paulo Porto, poeta brasiliense, nasceu em Brasília.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

 

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