Apaixonados por Brasília

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Apaixonados por Brasília
Por Leilane Menezes
 
 
As 36 horas de viagem do Rio de Janeiro a Brasília não foram suficientes para acabar com a empolgação dos 150 policiais militares que desembarcaram na então nova capital em 15 de fevereiro de 1966. Eles foram os primeiros PMs da cidade. Chegaram para formar a 1ª Companhia Independente de Brasília, a substituta da Guarda Especial de Brasília (GEB), responsável pela segurança pública no DF desde a inauguração da cidade. Na terça-feira passada, completaram-se 45 anos dessa história.
Os homens vieram em três ônibus velhos. Os veículos quebraram no meio do caminho diversas vezes. Sob o comando de Abenante de Mello e Souza (coronel da reserva remunerada já falecido), o grupo deixou, às 9h30, a rua Clarimundo de Melo, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro, rumo ao Planalto Central. Os termômetros marcavam 38º C. Na bagagem, os jovens policiais trouxeram somente o essencial: poucas mudas de roupa, escovas de dente, água e alguma comida. As famílias ficaram para trás.
Esses policiais foram transferidos para Brasília por meio do Decreto-Lei número 4.242, de 17 de julho de 1963, de autoria do senador Santiago Dantas. A medida ficou conhecida como Lei da Opção.
Houve concorrência para mudar-se para a capital. Mais de 3 mil homens ofereceram-se. Desses, a principio, somente 150 foram selecionados. Meses depois, outras centenas vieram. Eles ficaram conhecidos como “optantes”.
 
A chegada
 
Entre os primeiros escolhidos, estavam o capitão Jorge Mendes Maciel Eunack, hoje, aos 75 anos, aposentado. “A viagem foi difícil, acidentada, quebrou o para-brisa de um dos ônibus. Na maioria das paradas que fazíamos durante o trajeto éramos bem recebidos”, disse o capitão. Ao chegarem a Brasília, em uma terça-feira, desembarcaram em frente ao prédio feito especialmente para acolhe-los, o Forte Apache, onde hoje fica o Setor Militar Urbano. O local ganhou esse nome por se tratar de um barracão de madeira.
O primeiro a sentir o solo candango sob os pés  foi o comandante Abenante. “Ele, emocionado, comandou: “Atenção guarnição, desembarcar! Em forma! Por três!”, lembra Eunack. No sábado seguinte, os homens iniciaram o serviço. Brasília era uma cidade calma. “Tinha pouca ocorrência. Era mais policiamento de trânsito, essas coisas.
Saudades do tempo em que a cidade estava se fazendo ainda.”
As famílias dos oficiais não tinham onde ficar em Brasília. Somente alojamentos estavam disponíveis. Mesmo assim, a mulher e a filha de Eunack vieram, de surpresa, do Rio de Janeiro. “Quando eu ouvi a voz da minha filha chamando ‘papai’, me emocionei. As pessoas ao redor bateram palmas”, conta. Meses depois, a PMDF comprou um ônibus para levá-los e buscá-los no Rio de Janeiro, durante as férias.
A visão de Brasília, uma cidade recém-inaugurada à época, ficou gravada na memória de Eunack.
“Eu via mato em todo lugar e muita máquina trabalhando. Eu me apaixonei por essa cidade de um jeito difícil de explicar. Nunca mais fui embora”, disse. Capitão Gilson de Oliveira, 74 anos, outro policial pioneiro, viveu a mesma sensação. “Brasília tem um feitiço. Nunca olhei para trás pensando em ir embora”, resume.
 
Diversão
 
A polícia também trouxe sua arte. Manoel Nascimento Paixão, 74 anos, conhecido como Tenente Paixão, veio para fazer parte da já planejada Banda Marcial da Polícia Militar: “Eles escolheram dos músicos mais habilidosos. Daí fundamos a banda, em Taguatinga. Fazíamos espetáculos muito bonitos”, relata Paixão, que é maestro. Os colegas de longa data sentem orgulho de ter contribuído para a história da PM de Brasília.
Eunack é o criador do brasão da corporação, usado até hoje. É também um grande incentivador de programas sociais e educativos dentro da instituição policial, como a prática de escotismo. “Eu sempre preguei a ação preventiva. “Contra a violência, apenas a criatividade e a inteligência” – esse é meu bordão. Procuro motivar, ainda hoje, a ida da PM às escolas, levando educação, por exemplo, por meio do teatro de bonecos”, conta Eunack, que é escoteiro de alta graduação na ativa ainda hoje.
Os policiais fundaram até um bloco de carnaval, chamado Embalo do OPs (por conta da Lei da Opção), com uma marchinha cuja letra dizia: “Adeus, adeus, estado da Guanabara/Vou ficar em Brasília que é a capital jóia rara/Tudo aqui é resplendor, tudo aqui inspira amor/Por isso eu digo a vocês, em Brasília eu vou ficar”. Gilson e Eunack são cariocas. Paixão é pernambucano, mas foi criado no Rio. “Tenho uma cobertura na beira da praia. Estou aposentado. Mas não consigo ir embora daqui”, reforça Paixão, sobre o apego que a maioria deles desenvolveu por Brasília.
 
Encenação
 
Mas aquele distante 15 de fevereiro de 1966 não foi a data da primeira vinda a Brasília de Eunack e de outros colegas. O capitão relata uma história curiosa de 21 de abril de 1960. O então presidente Juscelino Kubitschek queria policiais treinados para reforçar a segurança da festa de inauguração. Mandou trazê-los do Rio de Janeiro. Para não causar alarde, pediu que viessem disfarçados.
Houve um espetáculo chamado Alegoria das três capitais, apresentado no evento, para celebrar o começo da nova cidade. Alguns atores estavam fantasiados de freis franciscanos. Em lugar das tradicionais sandálias usadas pelos religiosos dessa ordem, porém, eles usavam coturnos marrons.
A explicação para isso deixaria surpresa muita gente que participou da festa. Eles eram policiais escondidos, para não chamar a atenção, e atuaram como figurantes. Por baixo das roupas teatrais, todos estavam fardados, prontos para agir em caso de qualquer emergência. Capitão Eunack se encontrava entre eles. Orgulha-se de ter participado do momento histórico. Logo depois, os policiais retornaram ao Rio de Janeiro. Seis anos se passaram e muitos deles retornaram a Brasília para ficar.
Dessa vez, com outra fantasia: a de começar uma vida nova na capital, que começava a se formar.
 
Transcrito do Correio Braziliense, 19 de fevereiro de 2011, Cidades, pág. 42.

 


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