AOS DE 30, 40, 50

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

AOS DE
30, 40, 50

 
Se você já tem 50 anos (tudo isso??), ou já passou dos 40, ou tem 30 e pouquinho e já se sente um velhinho ou uma velhinha cansada de guerra, vou contar, de novo e traveis, a história de três homens, grandes homens, que fizeram sua melhor obra depois dos 50. A história todo mundo conhece, o que talvez passe ao largo é a faixa etária dos três homens quando inventaram de inventar uma cidade.
O primeiro deles se chama Oscar Niemeyer. Tinha 50 anos quando trocou o Rio pelo cerrado bruto, o escritório com ar-condicionado por um barracão de madeira, o uísque 12 anos por qualquer coisa que estalasse na garganta, a vida cultural agitadíssima do Rio nos anos 50 pelas serestas solitárias e saudosas nas casas da W-3. E como ele fez o concreto voar, mas ele mesmo não voa, vinha de carro, mais de mil quilômetros de estradas inexistentes até chegar ao reinício do mundo.
O segundo, e não pela ordem de importância, se chamava Lucio Costa. Tinha 54 anos quando desenhou uma cidade em forma de borboleta, de avião, de vagalume ou de arco-e-flecha como couber na imaginação de cada um. Foi sua grande obra, seu ponto culminante. Lucio Costa, todos devem saber, não veio para Brasília, não porque não quisesse se aventurar na ranhadura das árvores do cerrado, mas por seu temperamento recluso.
Juscelino é o terceiro dos grandes homens da grande obra. Tinha também 54 anos quando decidiu construir Brasília e deixá-la inaugurada. Dava expediente durante o dia no Catete, pegava o Viscount à noite e singrava os céus do país até alcançar a ferida vermelha ao centro-sul de Goiás. Dormia um pouco no avião e ia visitar as obras. Dizem que durante o período áureo da construção, Juscelino dormia só esse tantinho, mais um outro tanto ainda menor, dentro do carro presidencial.
Para todos eles, Brasília era um grande risco. O presidente tinha de enfrentar a ferocidade da oposição e os obstáculos da obra em si mesma. Se fracassasse, era o fracasso de sua carreira política – e político é bicho fundamentalmente ambicioso e vaidoso.
Niemeyer já tinha feito a Pampulha, já era um grande cara na arquitetura moderna. Brasília era terreno virgem e o Estado totalmente disposto a construir todas as obras que ele projetasse – sonho dos sonhos dos arquitetos. Mas se a cidade se transformasse em ruína, como muitos esperavam?
Lucio Costa já tinha nome feito, seja pela arquitetura que havia construído, pelos ensaios de arquitetura que havia produzido, pela defesa do patrimônio histórico. Dos três, suspeito que ele fosse o que menos se importaria com o fracasso. E, dada a ousadia da empreitada, o fracasso era um fantasma onipresente.
Não confio nem um pouco em conselhos, boas intenções e auto-ajuda, mas o que esses três cinqüentões fizeram serve de empuxo para as horas de desalento.
 
Conceição Freitas
"Crônica da Cidade", Correio Braziliense – 26/02/2008

 


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