Anotações para os 55 anos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Conceição Freitas

Brasília é um ato de vontade.
Brasília é o atrevimento de um presidente.
Brasília é a exasperação do urbanismo moderno.
Brasília é a revelação de uma paisagem.
É a mistura dos Brasis, Brasília.
Brasília é uma provocação; é um segredo a ser revelado a quem se dispuser a conhecer uma outra lógica, uma nova razão.
Brasília é o sonho sonhado e o possível realizado.
É o enlaçamento da arte com a arquitetura.
Brasília são os vazios convidando cada um a inventar um sentido à solidão dos ermos.
Brasília é um deus tendo de lidar com suas imperfeições.
Brasília é a capacidade de cada um criar a própria Brasília, tantas são as perturbações que ela provoca em seus habitantes.
Brasília é tão grandiosa que sobrevive às mais terríveis investidas dos políticos e da especulação imobiliária.
Brasília é uma cidade, mas é também uma invocação do belo.
Brasília é também o que não queriam que ela fosse.
Os arquitetos projetaram a Brasília ideal. Os candangos inventaram a Brasília que eles queriam para si.
Brasília seria triste, rançosa, viciada, elitista não fossem os brasileiros que bagunçaram a maquete e fizeram dela uma cidade de verdade.
Brasília queria ser só uma, o Plano Piloto. Quando muito, duas ou três, com os lagos e o Park Way.
Brasília são 31. Brasília são as cidades-satélites que vieram quebrar a monotonia das coisas perfeitamente organizadas.
Brasília é a arqueologia recente de um Brasil que estava dando certo.
Brasília é também o desconforto do Brasil consigo mesmo. Tão inventivo e tão desigual; tão trabalhador e tão corrupto. (Para construir Brasília, os candangos ralavam até 16 horas por dia).
As superquadras de Brasília são o modo de viver confortável, ecológica e democraticamente nas cidades. São os anticondomínios. As superquadras são o futuro que se realiza no passado.
Brasília está ao alcance da mão, apesar da investida voraz dos que querem sugar sua riqueza até os ossos.
Brasília ainda é uma promessa. E uma inspiradora realidade.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense de 25 de março de 2015.

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