Anderson Braga Horta

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Anderson Braga Horta, que à nova Capital veio ter em 1960, com algumas láureas obtidas em importantes concursos e outros tantos originais de livros na gaveta, escreveu a grande epopéia em que os heróis são os anônimos e sofridos candangos. Sua permanente preocupação de sentido humanista – presente em obras que levou ao prelo, e isto só veio a ocorrer a partir de 1971! – fez com que desviasse o olhar da lua, dos espaços envolventes, do céu amplo e puro, elementos tentadores como tema e sobre os quais se debruçaram, em sua maioria, os “brasilienses”.

Ele registrou a pugna dramática entre os braços adventícios e a rudeza brutal do cerrado. Como em imenso tabuleiro de xadrez, as peças se antepõem, avançam ou retrocedem, triunfam ou capitulam. Enquanto um dos poetas anteriormente aqui apresentados vê o ontem remoto, das priscas eras, com olhar de místico ou filósofo, Anderson Braga Horta diz, seca e frontalmente: “Antes do começo,/era o sertão, só e ríspido”. E, em vez de ir às fontes de lirismo e encantamento, decide, em tom quase de anátema, estigmatizar os autores do frio atropelamento dos peões, da morte das legiões dos sem-nome, porque apenas alguns se enraizaram e permaneceram (ilesos, intangíveis, tranqüilos): os reis, os bispos, as torres da retaguarda sem vicissitudes e sem riscos. (Mas, enfim, suspira o poeta: “É a lei/do xadrez”.) Conclui, porém, com declarado e peremptório otimismo quanto ao amanhã: “De tuas impurezas,/de tuas asperezas,/rosa queremos-te exata./No altiplano de nossas esperanças,/rosa-dos-homens/construímos-te futura”. “Altiplano” obteve, em 1964, o Prêmio Nacional de Poesia instituído pela Universidade de Cultura Popular, de Gilson Amado, e, com aquele e outros poemas, no mesmo ano, recebeu o “Prêmio Olavo Bilac”, da Secretaria da Educação da Guanabara. ABH, “…depois de considerável vivência e, dada esta circunstância”, ofereceu-nos o maior poema de exaltação à cidade nova. É que pôde integrar-se em seu espírito, beber poeticamente não apenas o áspero encanto planaltino, mas todos os seus contrastes e estonteantes singularidades. Deixou-se embeber pela sua magia…”, o que por nós foi observado e consta do ensaio “Altiplano, epopéia brasiliense”, publicado no Correio Braziliense de 20.3.65, e, com breves alterações, rebatizado de “Epopéia no altiplano”, em “O Popular” (21.5.72), de Goiânia. O segundo poema de ABH, “Planalto”, recorda o palco onde algas, de outras eras geológicas, coabitam com pássaros de hoje, sob a navegação do Homem. Em “Passarim”, o poeta revela a emoção que lhe traz um passarinho na cidade nova, fazendo-o emergir da condição de “refratário ao pranto”, da suposta secura de sentimentos. A ave comove-o: “me trazes a carícia”. Em seu mais recente poema brasiliense (o título traz a idade da capital, no ano em que mais uma vez a exalta), inspira-se em trabalhos de vários autores, cujos nomes menciona, como também rememora personalidades intimamente ligadas à história de Brasília, como Juscelino Kubitschek de Oliveira, Bernardo Sayão, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro.   

Transcrito do capítulo “Esses poetas, esses poemas”, da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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