ANA CRISTINA CESAR

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

ANA CRISTINA CESAR

Ana Cristina Cesar nasceu carioca em 1952. Viveu muita vida nos 31 anos que decidiu viver. Viajou, escreveu, publicou, amou, lançou e se disse: "Sou uma mulher do século XIX disfarçada em século XX".
Sensível e verdadeira: "Tenho ciúmes desse cigarro que você fuma tão distraidamente".
E ao mesmo tempo, de uma modernidade visceral. Lia de Kerouac a Jane Austen e, se sua vida tivesse que ter uma trilha musical, alternaria heavy metal com Billie Holiday.
Dizia, jogando com as palavras: "Estou vivendo de hora em hora/ com muito temor./ Um dia me safarei – aos poucos me safarei /começarei um safári".
A poesia para ela era sobrevivência, tábua de salvação, alimento.
 
Seus versos diziam muito em poucas palavras. Ela conhecia o poder de ser sucinta e criava verdadeiros hai-kais:  "As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios".  Ou ainda: "A gente sempre acha que é Fernando Pessoa".  Ou ainda mais:

Entre seus livros e de tantos poemas, cartas, desenhos e escritos, encontrei estes trechos de poemas que falam de Brasília:

Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade.

*

É muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama.

 


Trackback do seu site.

Tags:

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …