Agora, Brasília merece colo e carinho

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Agora, Brasília merece colo e carinho
Paulo José Cunha

Meus cinco ou seis leitores hão de me perdoar, mas durante este mês vou abrir uma exceção em nosso Telejornalismo em Close para cantar Brasília, a cidade que um dia foi plantada bem no meio do planalto goiano, e que completa neste 21 de abril seus 50 anos enfrentando a maior crise de sua história. O que a cidade e seus moradores mais precisam neste momento é de cuidado. A paciente já saiu da sala de cirurgia, e daqui a uns dias sai da UTI. É a hora da atenção e do carinho dos parentes e amigos, para que a recuperação ocorra da melhor forma possível. Demorou meio século para ocorrer esse batismo de fogo rumo à maioridade. Doeu, mas tem sido pedagógico. Estamos aprendendo muito com tudo isso. Principalmente, a gostar ainda mais desta bela esfinge do cerrado.

Aí vão dois poemas que escrevi para a querida Brasília. É meu jeito de acarinhar uma das mais belas realizações do gênero humano, tão importante que aos 23 anos que foi elevada pela UNESCO à condição de Patrimônio Cultural da Humanidade. Ela é maior, bem maior do que os que a envergonharam. Celebremos!

Cantiga de amor
Para Brasília

Há quem te veja nave de aço, avião
mas eu te vejo ave de pluma,
asas abertas sobre o chão.

Há quem te veja futurista e avançada
mas eu  recolho em ti a paisagem rural
lá de onde eu vim:
fazenda iluminada.

E quem declara guerra a teu concreto armado
nunca sentiu a paz do teu concreto desarmado.
Há quem te veja exata, fria, diurna e burocrática
mas te conheço é gata noturna, quente, sensual – enigmática.

Há quem te gostaria só Plano Piloto, teu lado nobre,
mas eu também te encontro na periferia, teu lado pobre.
Há quem só te reconheça nos cartões postais
mas eu te vejo inteira, Planaltina,
cercada de Gamas, Guarás e Taguatingas.

Aos que só te querem grande – Patrimônio Mundial,
egoisticamente te declaro patrimônio meu, exclusivo:
Brasília minha
e, no meu bem-querer diminutivo, Brasilinha.

Candanga
para Paulo Bertran

Candanga, a alma leve dos cerrados,
a moça e seus cabelos, nos longes de Goiás.
Candangos nós, teus filhos de adoção.
Candangos nossos filhos,
nascidos do teu chão.

A mão que te acenou de tão distante
foi quem prometeu que te faria.
Trocou o talvez por neste instante,
e a cidade assim se fez.

Candangos Vladimir, Bertran, Oscar, Sayão,
Candangos Lúcio, Vera, Nicolas, Bulcão
Candangos Teodoro, Cássia, Renato, Catalão.

Misteriosos como os campos de cerrados
de longe, apenas troncos retorcidos
de perto, segredos revelados:

água de mina, raízes, folhas, flores
beleza pura que explode por detrás
dos detalhes escondidos na aridez
da vastidão dos campos de Goiás.

 


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