Absolvição

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Absolvição

A poesia que eu conheço é a poesia das sirenes, das páginas policiais,
dos gritos ignorados nos corredores dos hospitais públicos; a poesia que eu conheço é a poesia do preconceito,
a poesia dos presídios, dos asilos, dos prostíbulos, das calça- das habitadas;
é a poesia do câncer que devora,
do filho que não vinga, do filho que não volta, da bala perdida que nunca se perde,
do pai de seis e do pai aos dezesseis;
a poesia que eu conheço não voa, não anda, rasteja.
A poesia que eu conheço jamais será declamada porque existe para ser cuspida,
vomitada, tragada, bebida, injetada;
a poesia que eu conheço existe para ser gritada na voz do andarilho,
do velhaco, do moribundo, do bêbado, do sujo, do esfomeado, do marginal e do louco.
Porque os loucos também sofrem.

Alegorias

A poesia grudou no céu da minha boca, na minha língua solta, 
nos meus lábios secos. 
Ai de ti! 
Não me olhes! 
Não me beijes! 
Ou te tornarás um verso avesso, 
o espelho de minh’alma inversa, 
nas estrofes tortas de teu corpo travesso, que se atravessa, 
que se arremessa sem pressa, 
refletido em mim. 
Em mim.

Tereza Du’Zai, poetisa natural de Itajaí, SC

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