A visita do cosmonauta

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A visita do cosmonauta
Por Conceição Freitas

 
Faz 50 anos que Yuri Gagarin veio a Brasília. Veio duas vezes numa só: em 29 de julho de 1961, numa estada de 58 minutos, e cinco dias depois, em permanência mais demorada. Conta-se que o cosmonauta que primeiro viu a Terra em sua inteireza redonda ficou assombrado com a Brasília vista da janela do avião. “Foi uma impressão inolvidável”, teria dito o russo, segundo o Correio Braziliense de 30 de julho de 1961. A versão de Juscelino, que àquela altura já tinha entregue o Palácio do Planalto a Jânio, foi outra. Gagarin teria dito: “Parece que aterrissei em outro planeta”. A revista O Cruzeiro, de 12 de agosto de 1961, registra declaração diferente, mas parecida: “Brasília é a cidade mais bonita. Sua fama mundial é bem merecida”. Donde se deduz que o russo decididamente ficou impressionado com a nova capital.

A Brasília de 1961 se dizia uma cidade, mas era alguma coisa outra, de “outro planeta”. Fazia menos de três meses que Gagarin tinha dado a volta na órbita da Terra. Tinha nos visto com os olhos de Deus. Três meses depois, conhecia uma estranha cidade feita de volumes geométricos, perfeitamente alinhados num eixo vertical e noutro horizontal que havia espantado o mundo quando de sua inauguração. E, pode-se deduzir que ela estava no pensamento de Nikita Kruschev, o primeiro-ministro soviético. Em mensagem a Jânio Quadros, transmitida pelo cosmonauta, o líder comunista escreveu: “Em nosso país se manifesta grande interesse pela vida de sua maravilhosa nação, pela cultura nacional de seu povo, e muito prezamos a posição que alcançou o Brasil no conceito da cultura mundial”.

No começo dos anos 1960, os brasileiros chamavam a atenção do planeta basicamente por três preciosas contribuições à cultura mundial: a bossa nova e a arquitetura, e nela, a ousadia de erguer uma cidade em menos de quatro anos.

Yuri Gagarin tinha motivos para odiar Brasília – e não exatamente pela estranha conformação urbana. Sua chegada em 29 de julho foi um vexame. Militares da Aeronáutica confundiram com um brasileiro o militar russo que se aproximou do astronauta. Começou a pancadaria e já não se sabia quem era brasileiro e quem era soviético, quem apanhava e quem batia. Sobrou para os jornalistas.

O astronauta ficou menos de uma hora em Brasília. Seguiu para o Rio e de lá para São Paulo. No Rio, cansado, recolheu-se logo depois do jantar, deixando muitos convidados à sua espera. Alegou que a recepção em Brasília fora “por demais fervorosa”. Não faltava bom humor ao ex-camponês. De volta a Brasília, em 2 de agosto, foi condecorado por Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

Morreu sete anos depois, num acidente durante treino com um caça MIG-15 da Força Aérea Soviética. No planeta em que o herói russo estiver, ele está vendo que Brasília mudou muito no último meio século, se transformou numa cidade verdadeira, mas o Plano Piloto manteve, quase por milagre e com algumas alterações, suas características originais. Se tudo der certo, o assombro de Yuri Gagarin será eterno.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 5 de agosto de 2011.

 


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