A tenda de Cruls

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A tenda de Cruls
Por Ana Miranda

Estive lendo dia desses a parte do Relatório Cruls que fala da demarcação da futura capital, sem entender muito bem aqueles códigos e cálculos, mas tão parecidos com a cidade, com os versos do poeta, repletos de SWs, NWs, A.B.C.Ds, vértices, latitudes e longitudes, perímetros invisíveis, escalas, graus…Cruls tinha duas possíveis escolhas: traçar pelos acidentes geográficos, ou pelos astros. Pela terra ou pelo céu. Pela geografia, achou que uma linha tortuosa correndo por morros e rios seria muito demorada, tendo as turmas de cientistas de percorrer todo o perímetro da zona, metro por metro, relatando cada situação encontrada.

Marcar pelos astros, pelos arcos de meridiano e pelos arcos de paralelos, numa operação abstrata feito um sonho, foi a sua escolha. Era um homem inspirado, e trabalhava no Observatório, com um pé na terra e os olhos no infinito.

A demarcação celeste do distrito tomava por base um quadrado esferoidal, estremado apenas pelos quatro vértices, cujas linhas, que vejo tênues e prateadas, descem das estrelas e da lua, formando uma tenda de reflexos, linhas tiradas das diferenças de altitude entre a lua e uma estrela, das passagens da lua e de uma estrela, das ocultações de estrelas pela lua, das distâncias e culminações lunares. E lá se foram as turmas da Comissão, com seus sextantes e teodolitos, barômetros, aneróides, muito elegantes, de terno e botas e chapéu, a cavalo, procurando o ponto em que apeava o vértice, talvez olhando o céu, talvez tropeçando nas pedras ou caindo nos lagos. O que sentiam? Sabiam da grandeza de seu percurso e tarefa. Aproveitavam o quanto possível as estradas e caminhos, mas vencendo matos puros, desenhando todos os dias num papel milimétrico o caminhamento percorrido. Cachoeira de Itiquira a despenhar-se num único salto, Arraial de Mestre-d’Armas, rios Periripau, Tocantinzinho, Paranã, Lagoa Formosa, Aldeia Vendinha, Pirenópolis…

Chegando à posição determinada, desceram as cargas, soltaram os cavalos, armaram seus brancos acampamentos, montaram uma estação de observação e iniciaram os cálculos. Estabelecido o vértice, escavaram uma vala de um metro por um metro e pouco de profundidade, encheram-na de pedras até um metro de altura. No interior do ajuntamento de pedras inseriram um documento assinado pelos chefes e pelos membros das turmas, onde estavam escritas as coordenadas do vértice, metido dentro de um recipiente lacrado contra chuva, umidade, insetos curiosos, bichos roedores, contra e a favor do tempo em suas acepções, da geologia, de efemérides, das gerações. E sobre elas fizeram um revestimento de leivas, que são torrões de terra com capim, de modo que a vegetação em poucos dias cobrisse o morrinho. Daquele morrinho macio eles olhavam as serras, as colinas, os edifícios, rios, cabeceiras, e por uma triangulação com os acidentes naturais sabiam o ponto exato do vértice, seria sempre possível encontrá-lo. Lá estão esses morrinhos até hoje, depois de influir nas vidas de tanta gente que foi ser brasiliense, que mora numa delicada tenda desenhada por linhas imaginárias de um coliseu transparente.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 31 de julho de 2011.

 


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