A revelação do cisne na concha acústica

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda

Tento desvendar minha memória: papai estaciona a Rural Willys ao lado de um monte de carros, é preciso atravessar a pé um mato baixo de cerrado para chegarmos à concha acústica, que ainda está em obras. Estava em obras? Mas era uma imensa concha de cimento com uma sutil madrepérola do luar, diante do espelho de prata das águas do Paranoá, o luar é uma lembrança de minha irmã. Sons da orquestra afinando os instrumentos…memória ou imaginação?

Muita, muita gente, mas conseguimos sentar, bem no alto. Talvez fosse maio, junho de 1960…A paisagem noturna era misteriosa, o fundo da cena era o próprio céu, a lua do cenário era a verdadeira Lua, o escuro era a noite, as luzes talvez fossem…estrelas. E o nome do balé evocava fantasias para as crianças que se achavam patinhos feios. O lago dos cisnes. Sei que assistimos ao Lago dos cisnes em Brasília, e minha irmã tem certeza de que foi na concha acústica. Eu lembro das bailarinas levíssimas, flutuando num chão imaginário e perdido. Então…

Surgem os cisnes, lindas cisnes fêmeas com seus braços que são asas, flexíveis, ondas, iguaizinhas, os tutus de tule franzido são plumas, a concha é lago, nadam, flutuam no meu sonho infantil. O príncipe precisa escolher uma esposa, quando vê os cisnes, e enfeitiçado pela beleza das aves vai caçá-las, o lago pertence ao mago do mal, que enfeitiçou a princesa. E surge a princesa encantada em cisne, mulher belíssima na pontinha dos pés. Salta, flutua, ondula, cai nos braços do príncipe.

Apaixonado, ele que desfazer a magia que transformou a princesa em cisne, mas é enganado pelo mago e vai se casar com sua filha cisne negro, pensando ser a amada, quando descobre a trama e o amor se realiza num pas de deux. Ah, Tchaikovsky, que história ingênua e quase patética, um conto de fadas para gente meiga, mas que musica sensível, atormentada, passional!

A princesa, minha irmã acha que era a bailarina Margot Fonteyn. Sei que, quando ouço o nome dessa bailarina, sinto um gosto de criancice. La Fonteyn era uma estrela maravilhosa, deslumbrante, idolatrada junto com Nureyev, reinava no Brasil. Ela me deixa em suspenso só de saber que teria talvez dançado para nós, ali, em Brasília, na concha acústica, diante de nossos sentidos. Era ela, mesmo? Quem se lembra?

Uma sacerdotisa? Ave? Mulher de asas? Deusa? Uma dama de nuvens? Sempre pensei que La Fonteyn fosse russa, persa, turca, sarracena, longínqua como a rota da seda. Mas ela era brasileira. Pelo menos um pouco brasileira. A mãe irlandesa era filha de um brasileiro, o industrialista Antônio Fontes, nome que virou Fonteyn. Margot amava o Brasil, veio diversas vezes, dançou no Maracanãzinho, inaugurou a reforma do teatro de Goiânia, deixou suas sapatilhas no Amazonas, causou um motim em Brasília quando quase não apareceu para dançar e depois apareceu, muitas vezes veio a convite de Márcia Kubitschek…E já tinha estado em Brasília em julho de 58, a cidade nascendo em nuvens de poeira, tratores por todo lado, o balé dos candangos ao som de martelos, serras…

Vejo La Fonteyn dançando valsa com Juscelino, que era um príncipe. Os olhos dele brilham, ela está encantada com a leveza dos pés de seu par, e ele, enfeitiçado como um cisne. Os braços distanciam os corpos, o tutu oscila em devaneios, é só um instante fugaz, e ela diz “Coisas pequenas podem se tornar momentos de grande revelação quando as vemos pela primeira vez…Pode ser que não a tenha visto dançar, mas vi, sim, a revelação do cisne.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 15 de junho de 2014

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