A REDESCOBERTA DO BRASIL

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

A REDESCOBERTA DO BRASIL
Por Fábio Altman


Em oposição ao bandeirante predador, Juscelino Kubitschek cultivou a imagem do pioneiro, o desbravador que tiraria o país do litoral para levá-lo ao centro. Foi o nascimento de uma nação
 
Em 1960, um imenso painel da campanha do marechal Henrique Teixeira Lott à Presidência da República mostrava o candidato da situação de farda ao lado de Juscelino Kubitschek, que terminava seu mandato. JK aparecia como “o grande bandeirante do século”, com as vestes e a postura de um Borba Gato, o céu do cerrado como moldura. A uni-los – Lott e JK -, os traços de Brasília recém-inaugurada a partir dos desenhos e dos projetos de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Lott perderia as eleições para Jânio Quadros, mas seu cabo eleitoral, o presidente bossa-nova, faria história ancorado na cidade que ergueu no meio do nada. Faria história por seu empenho, razoavelmente bem sucedido, de introduzir no Brasil uma nova família de desbravadores, afeitos a abandonar o litoral a caminho do Centro-Oeste. Homens e mulheres que deixaram para trás uma civilização de quatro séculos, banhada pelo Oceano Atlântico, com pessoas “arranhando ao longo do mar como caranguejos”, na metáfora do frei Vicente do Salvador (1564-c.1635). A densidade populacional à beira-mar chegava, em algumas cidades, a cinqüenta habitantes por quilometro quadrado. No Centro-Oeste, a menos de um – hoje, ali, são sete habitantes por quilômetro quadrado.

O presidente pé de valsa, o Nonô de Diamantina, o desenvolvimentista – mas também o capitão do inicio do descontrole inflacionário -, morreu em 1976, em um acidente de carro na Via Dutra, com o legado de campeão da democracia. JK foi o chefe de estado que pôs o Brasil na modernidade a bordo de um Fusca ao som de João Gilberto. Mas ele se vangloriava, mais do que tudo, no fim da vida, de ter induzido, por meio de Brasília, o renascimento do país. Até a aventura no Planalto Central, havia um muro entre a escassez do interior e a abundância do litoral, sem estradas a ligar os dois pontos. As diferenças entre as regiões ainda existem, são muitas e intransponíveis, mas JK deflagrou um processo que, nas palavras do atual governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, representou “o redescobrimento do Brasil”. Para redescobri-lo era preciso matar o passado, era preciso criar um movimento colado à imagem com a qual JK aparecia no cartaz da campanha, de botas e chapelão em mãos. Tratava-se, enfim, de criar uma nova modalidade de ocupação.

O próprio JK, no livro de memórias “Por que construí Brasília”, anotou o que pensava da conquista de um pedaço quase virgem de Brasil. Em um parágrafo de 150 palavras, escreveu: “Há quem confunda pioneiro com bandeirante, já que ambos fazem do desbravamento sua atividade habitual. Entretanto, uma diferença enorme os distancia. O bandeirante descobre e passa à frente. Sua sina é avançar. Finca um marco. Poda uma árvore. Faz um monte de pedras. É tudo que deixa, como sinal de sua passagem. Trata-se de uma imagem fugidia. Brilha, e desaparece. Já o pioneiro é influenciado pela atração da terra. Descobre e fica. É um símbolo do que se projeta através do ânimo de permanência. A jornada pode ser longa, mas a parada – quando ocorre – é quase sempre mais longa ainda. Planta e espera pela colheita. Não deixa sinal de sua passagem, porque ele próprio se detém. E do seu rastro, que por algum tempo foi efêmero, brotam valores duradouros: povoados, que se transformam em vilas; vilas que se convertem em cidades; e cidades que armam a estrutura de uma civilização”.

Brasília, cidade artificial, criada no papel antes de ter gente, apresenta todos os problemas do Brasil real – inclusive os da corrupção debaixo das duas cúpulas, a côncava e a convexa, da Praça dos Três Poderes. Mas é inegável que a cidade costurou algum tipo de civilização a que se refere JK. Segundo o historiador Luís Carlos Lopes, autor de “Brasília – O Enigma da Esfinge”, JK considerava “necessário curar o brasileiro de seu ancestral desamor pelo trabalho e do seu espírito lúdico contumaz”. E mais: “Era preciso discipliná-lo e organizá-lo a partir desta base, para aproximá-lo do pioneiro norte-americano; dar a Macunaíma a firmeza de caráter e a capacidade de empreender as mudanças de propostas e de interesses de seus amos; queria-se fazer com que o capitalismo vencesse e transfigurasse as origens escravistas do país. O bandeirante tinha que metamorfosear-se no pioneiro”.

Ao perceber, já na campanha eleitoral que o levaria ao Palácio do Catete e nos primeiros meses de governo no Rio, que qualquer espirro de crise provocava uma pneumonia e que uma solução política seria ficar distante da encantadora mas turbulenta Velhacap, JK pôs para andar a máquina mudancista. Tomou emprestada, como cimento ideológico a mover seus passos, a tese de Clodomir Vianna Moog (1906-1988), ensaísta gaúcho autor de um clássico da sociologia brasileira, “Bandeirantes e Pioneiros – Paralelo entre Duas Culturas” (1954). Nessa obra, o escritor, ao comparar as sociedades americana e brasileira, conclui que houve “um sentido inicialmente espiritual, orgânico e construtivo na formação dos Estados Unidos” e “um sentido predatório, extrativista e quase só secundariamente religioso na formação brasileira”. Nos Estados Unidos, deu-se tudo pelas mãos dos pioneiros. No Brasil, dos bandeirantes. JK, portanto, ao beber de Vianna Moog, pensador de relevância internacional, propunha o despertar de um novo bandeirante.

Só ele, parente do pioneiro americano, seria capaz de pôr em marcha a interiorização do Brasil como engrenagem de riqueza. A escolha do local onde seria plantada a nova capital foi feita com o objetivo de corrigir uma distorção natural, a inexistência de rotas geográficas que favorecessem, rumo ao oeste, o uso de todo o potencial do território brasileiro. Para Vianna Moog, o Brasil é cortado de norte a sul pelo rio que deveria ser o da integração nacional, o São Francisco – que ainda assim corre muito perto da costa. A Serra do Mar também se agiganta paralela ao litoral, funcionando como mais uma barreira à integração. Fosse sua orientação de leste a oeste, ela seria um corredor. A explicação geográfica foi encampada por JK e posta a funcionar com a sagacidade de nomes como Ernesto Silva, hoje aos 95 anos, “o pioneiro do antes”, o pediatra por formação e desbravador por natureza, que recebeu JK no cerrado, em outubro de 1956, com um mapa da região debaixo do braço e conduziu o primeiro comboio.

O mapa de Ernesto era o resultado do trabalho de dois grandes grupos de investigação cientifica e geográfica: a Comissão Exploradora do Planalto Central (1892-1893), liderada pelo astrônomo belga radicado no Rio de Janeiro Luiz Cruls, nascido Louis Ferdinand Cruls em Diest, amigo do imperador Pedro II, com quem conversava sobre estrelas e cometas; e a Comissão de Localização da Nova Capital (1954), comandada pelo marechal José Pessoa, indicado pelo presidente Café Filho. Ambas escrutaram o mesmo chão, a 1 100 quilômetros do Rio e 1 000 quilômetros de São Paulo, originalmente conhecido como Quadrilátero Cruls, naco de terra de 160 por 90 quilômetros. Desde o fim do século XIX até a eleição de JK, todos os governos tangenciaram a mudança da capital para aquele ponto do país, tal qual um Eldorado. Era uma idéia à procura de quem a realizasse. Nascera com José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que sugerira o nome de Petrópolis ou Brasília, ainda na Constituinte de 1823, para a nova capital. Crescera um pouco mais tarde, por meio do diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagem, para quem a transferência civilizaria o sertão. Muito tempo antes de Lucio Costa vencer o concurso, Brasília já aparecera em esboços, diversas vezes com as avenidas monumentais, típicas do modernismo na arquitetura, que a tornariam conhecida.

JK tomou posse dessa linha histórica, fez-se herdeiro dela e criou uma cidade. Mais de uma vez, depois dos três anos de construção, o presidente disse que a existência de Brasília sempre fora “aspiração geral do país”. O professor de sociologia Márcio de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, autor de uma detalhada dissertação de mestrado sobre as origens de Brasília, faz a indagação incômoda mas necessária: “Se Brasília já era uma aspiração geral do país e JK estava convencido do fato, como explicar sua ausência no plano de metas original?”. Brasília só viria a se tornar a meta de número 31, a meta-síntese, depois do primeiro comício da vitoriosa campanha de 1955. Uma resposta possível à demora é que a idéia simplesmente ainda não existia: JK a alimentou por necessidade política: “Depois, ele recontou a historia do Brasil, por meio de livros escritos por colaboradores e revistas ligadas à empreitada brasiliense, para dar a impressão de que seu governo não fazia mais que realizar um destino, a interiorização do Brasil”, afirma Oliveira.

Houve, na formação do mito, falsificações. Nos relatos de Brasília, conta-se com paixão o sonho do padre italiano Giovanni Bosco, que em meados do século XIX fizera referência a um “leito muito largo, que partia de um ponto onde se formava um lago, situado entre os paralelos 15 e 20 graus de latitude sul”. Dormindo, Bosco deparou com a imagem de uma “terra prometida, donde correrá leite e mel”. Brasília, pois. Tudo muito adequado não fosse o sumiço, nas versões oficiais alimentadas por JK, de um trecho em que Bosco dissera ter avistado uma cordilheira e, entre colchetes, a Bolívia. Com um detalhe: Bosco nunca pôs os pés no Planalto Central.

Um meio para muitos fins. Tendo ou não cultivado retroativamente a história, tendo ou não trabalhado com mitos, JK fez de Brasília uma cidade de sucesso desigual como país que a cerca. Enquanto o PIB brasileiro cresceu em média 4,8% ao ano de 1961 a 2000, o do Distrito Federal teve expansão de 57,8%. Brasília, numa definição já consagrada, foi “um meio para muitos fins”. Serviu para inventar uma nova economia que fugisse da tradicional cabotagem na franja litorânea. Ao país descontínuo até o inicio dos anos 60, sem ligações terrestres, ofereceu estradas como a Belém-Brasília. Ao isolado sertão cantado por Euclides da Cunha, ofereceu a chance de integrar-se ao Brasil. E por fim, como corolário da aventura, representou o nascimento de uma idéia de nação num país continental. O 21 de abril de 1960 é um instante fundador como foram o 7 de setembro de 1822 e o 15 de novembro de 1889.

Texto transcrito da Edição Especial  da Revista Veja “Brasília: 50 anos”

 


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