A profecia de Toscanelli

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A profecia de Toscanelli
Por Carlos Xavier de Azevedo
 
A profetisa Hirrhéa havia dito: mãos invisíveis criarão aqui uma cidade de homens fortes e formosas deidades.

A ampulheta do tempo já muito se escoara quando, não longe das praias desertas de Àtica, – conta a velha lenda – a Maga Iléa parou na enorme savana, proferiu algumas palavras cabalísticas e deixou cair de suas mãos ao solo um punhado de doiradas sementes.

E as copas ondeantes, pejadas de odorosos pomos, as plantas, toucadas de flores de ricos matizes, os regatos murmúrios, que rolavam entre pedrouços, povoaram tão logo o solo, antes vazio e tristonho. Ao centro desse encantado paraíso, um palácio de grandes minaretes foi erguido pelas mãos invisíveis. Fontes belas atiravam ao ar punhados de águas claras, que voltavam à terra como chuva de estrelas.

O próprio ocaso, ali, lembrava uma camponesa envolta em gazes róridas indo depor no cadáver ensangüentado do sol braçadas de flores luminosas.

E nessa encantada região era regida por homens fortes e a eleita das mulheres que pareciam estátuas vivas de escultores divinizados.

As mãos dos homens foram erguendo em torno o casario novo, desde as colinas graciosas à praia de Ática.

E Atenas nasceu, assim, nas mãos milagrosas de Iléa.

Longe daqui, no ocaso de 1464, quando Paulo del Pozzo Toscanelli adotou como discípulo o genial Leonardo da Vinci, o discípulo viu o mestre físico e astrônomo terminar uma planta, feita em papel quadriculado, que serviria aos arrojados navegadores daquele gloriosa época.

Quase ao centro da planta, lia-se a palavra “Brazilae”, com o implicante ditongo latino a enfeiar o nome Brasília.

O Brasil, então, aguardava também que a ampulheta do tempo escoasse mais trinta e seis anos para receber o batismo dos primeiros audazes que andariam “por mares nunca dantes navegados”.

Que profética intuição teria feito o inspirador sábio escrever esse nome? A América, guardadora de um sol em brasa, andaria pela mente do sábio precursor dos gnomos modernos e teria inspirado ao grande mestre esse vocábulo tão querido.

O fato é que lá estava o nome Brasília.

E o Tempo, esse lento e incansável viandante, marchou sem parar quatrocentos e noventa e cinco anos.

E um dia, um mágico oriundo talvez das terras de Egeu, onde o Minotauro foi vencido e o labirinto desencantado, parou um instante nas savanas formosas do planalto goiano.

E Juscelino Kubitschek deixou cair de suas mãos as sementes àvaramente guardadas para a mágica sementeira.

Aquele solo espanco, onde o urutu lançava à tarde o som magoado de um hino triste, foi ao toque mágico sendo povoado.

O fumo das oficinas galgava o espaço anunciando o novo labor.

Como cantara o poeta baiano, “entre a orquestra da serra e do malho brota a vida, a cidade, o amor”.

A profecia de Toscanelli fez-se realidade.

E ali, naquele ermo, as mãos do mago foram plasmando a cidade, a cujo centro, como um sonho, o Palácio da Alvorada derrama em torno o encantamento de seu perfil, a influência luminosa de seu mágico nascimento.

O homem criatura fez-se um dia criador e Brasília nasceu, assim, das mãos mágicas de Juscelino Kubitschek.

Transcrito da revista “Brasília”, edição de julho de 1959, número 31.

 


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