A Posse

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A Posse
Por Clemente Luz


Foto: Arquivo Público do DF

 

Dos quadrantes da Pátria, marcharam as colunas, para a posse da terra conquistada no Planalto. Através das extensões mediterrâneas de Minas e do continente confinado de Goiás, veículos e homens, na mesma luta contra o desconforto das estradas ainda em formação, ainda cobertas de barro e poeira, caminhavam para o mesmo objetivo e aqui chegaram, em horas diferentes, para o encontro de hora certa, aos pés do feixe de colunas da Catedral em obras. Colunas móveis marcharam para o encontro de colunas fixas, plantadas na terra, pela eternidade do ferro e da pedra, que o homem transformou em semente moldável e generosa.

Homens e veículos, cobertos da mesma poeira ou enlameados do mesmo barro, trouxeram, até o sítio onde se ergue a nova Cidade, o cheiro das selvas inconquistadas da Amazônia, as surpresas dos grandes descampados e o marulhar, sempre renovadas, dos rios, sobre cujos leitos se estenderam as pontes. Os pontos esparsos da Pátria, separados por rios e florestas, por montanhas e abismos, por solidão e abandono, começam a ligar-se, através dos fios das estradas, abertas na direção dos ventos. Homens e máquinas chegaram, para marcar, com outros homens e outras máquinas, aos pés simbólicos da cruz, a posse da terra, destinada a ser o cérebro e o coração da Pátria do povo.

Como pontas de um imenso leque, a grande marcha terminou com a convergência das colunas de veículos sobre a área do Park Way Dom Bosco, ponto de partida e chegada de todas as estradas que sairão de Brasília. O Posto da Petrobrás em construção, com sua forma de cogumelo azul, prenuncia a aglutinação dos postos de gasolina, que guardarão, no seio dos imensos tanques, a força do petróleo, que o subsolo brasileiro começa a oferecer à Nação…

Na manhã fria, com a neblina renitente descendo sobre a cidade, os carros e os homens recém-chegados aguardavam, como colunas guerreiras, prontas para a luta prenunciada, a última revista do comandante e a palavra de ordem final. Só que, na manhã nevoenta de janeiro, a palavra não seria propriamente de ordem de luta, mas de aplauso e de entusiasmo, pela batalha concluída com sucesso.

De manhã, sob a névoa que impedia o extravasamento alegre do sol sobre o planalto, talvez a mais singela e mais tocante cerimônia de “revista a tropas” jamais vista… Nenhum pensamento de conquistas territoriais sobre nações ou grupos de humanos. Nenhum desejo de grandeza, maior do que a própria  grandeza conquistada e consolidada pela extensa marcha… Homens e máquinas, irmanados, recebiam, com efusão, o gesto simples do homem que os saudava, em nome de todo o povo.

E, ao invés da continência militar, da posição de sentido indefectível do guerreiro, da exibição de frias armas de destruição, braços se ergueram para o céu, agitando mãos vitoriosas, que dirigiram veículos de fabricação nacional – praticamente os primeiros, através das novas estradas abertas no território antes abandonado. E, nos gestos das mãos, no sorriso dos lábios e no brilho dos olhos, a esfuziante alegria de gente vitoriosa.

Com seu sorriso de permanente esperança, de otimismo contagiante, Juscelino Kubitschek passou revista às vitoriosas Colunas de Integração Nacional, que convergiram para o Planalto, para a posse da terra conquistada.

A pequena “romiseta”, mais vidro do que ferragens, recebeu o homem, que se acomodou em seu interior, para aguardar, sob as colunas da Catedral, defendido da umidade, o ato final da grande marcha. O “Bolha d’água” – este o apelido que o povo deu ao minúsculo e extravagante veículo – rolou sobre o asfalto da Esplanada dos Ministérios e estacionou no lugar que lhe estava destinado, perto do Altar recém-montado. Através do vidro do “Bolha d’água” que o abrigava em seu bojo, JK olhava os extensos espaços vazios da Esplanada, fixando os olhos na Rodoviária quase concluída, de onde surgiram os veículos em marcha. O homem, que se abrigara da umidade, embora aparentasse calma, se remoia de impaciência e contava os segundos, em seu relógio de pulso, no próprio pulsar do coração agitado pelos acontecimentos. O menino, que se abrigava do tempo, na memória do homem, acordou de seu sono cinquentão mais uma vez, e veio roer as unhas, impaciente e inquieto, sob as colunas eternas da Catedral…

Debaixo do céu úmido da manhã de janeiro, a multidão aguardava.

As caravanas chegaram, os homens deixaram os carros e caminharam para o lugar preparado para a Missa. E quando JK deixou o interior do pequeno veículo, não teve tempo sequer para abrir os braços. Seu gesto, apenas esboçado, foi interrompido pelo braços imensos de Bauhid e pelas exclamações de entusiasmo do Coronel Lino, do Major Perpétuo, do Governador do Amazonas e de todos quantos, ainda sujos da poeira e do barro das estradas, acabam de trazer, dos quadrantes da terra, o cheiro da mata, o grito do índio, o apito das máquinas, o mugido dos bois, o choro das crianças, enfim, os próprios e misteriosos ruídos da Nacionalidade, que acordava…

Foi nesse instante que vi o pranto coletivo de homens.

Sujos de poeira e de barro, a barba de vários dias e as roupas rotas, estavam chorando de alegria. Homens do Norte e do Sul, homens do Leste e do Oeste, que convergiram sobre o Planalto, choravam de pura e incontida alegria.

Eu vi o pranto coletivo!

Eu vi o pranto coletivo dos homens, sob as colunas da Catedral, na Cidade Nova, que se preparava para o seu grande Natal de abril.

Eu vi homens chorando…

Mas nada havia de trágico ou de vergonhoso no pranto coletivo. Havia, isto sim, esperança e fé no pranto livre e franco de cada um dos milhares de homens, que ali estavam, ao lado de seu Comandante, tomando posse da terra.

E cada qual desejava, no contato rápido e quente de mãos, transmitir o calor das terras distantes: da selva recém-conquistada, dos pampas e do pantanal, das chapadas e das montanhas.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 


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