A POESIA CONCRETA DE JOAQUIM CARDOZO

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A POESIA CONCRETA
DE JOAQUIM CARDOZO

Por Fábio Altman
 
A Brasília modernista não existiria sem Joaquim Maria Moreira Cardozo, o pernambucano que calculou os edifícios de Oscar Niemeyer. Cardozo era um intelectual da Renascença no Recife da primeira metade do século XX. Poeta (parceiro modernista de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto), chargista, professor universitário, editor e filósofo diletante, entrou para a história da capital como o engenheiro civil que transformou possibilidades em certezas. Para Niemeyer, com quem trabalhara na Pampulha, era o brasileiro mais culto que existia.
Cardozo buscava na matemática a esbelteza, os vãos audaciosos e as curvas rabiscadas por Niemeyer. Como conseguir, nas colunas do Alvorada, que elas tocassem o chão e o teto muito delicadamente, parecendo flutuar, “leves como pena”, na definição do arquiteto – e ainda assim sustentar o edifício? Cardozo desrespeitou as normas técnicas corriqueiras e chegou a uma solução. Para o arquiteto e urbanista Jeferson Tavares, da USP de São Carlos, ele alimentava “um protesto silencioso contra a obviedade”.

No fim dos anos 50, as regras da engenharia estabeleciam o uso no máximo de 6% de barras de ferro nas estruturas de concreto. Cardozo pôs 20% de ferro na trama das colunas, rompendo com os modelos de cálculo em voga. Hoje, com o avanço da tecnologia e da resistência dos materiais, é possível conseguir o mesmo efeito com apenas 3% de metal.

“Cardozo foi um transgressor”, diz José Carlos Sussekind, o mais recente calculista de Niemeyer, quarenta anos ao lado do arquiteto. O que era concreto armado, sorri Sussekind, virou uma trama de “aço à milanesa” na concepção de Cardozo. Não fosse ele, o ministro francês da Cultura André Malraux, em visita a Brasília, não poderia ter dito que “as colunas do Alvorada são o elemento arquitetônico mais importante desde as colunas gregas”.

Cardozo inovou também nas delgadas lajes. O italiano Pier Luigi Nervi (1891-1979), o grande mestre de estruturas, capaz de pôr tudo em pé, espantou-se ao ver o Palácio Itamaraty. Ao se deter diante do mezanino do Ministério das Relações Exteriores, confessou: “Projetei uma ponte com 3 quilômetros de extensão, mas conseguir esta espessura de laje me parece bem difícil”. Antes, o próprio Nervi criticara o trabalho de Cardozo, atávico rompedor de normas, por considerar que ele desrespeitava padrões estabelecidos,  e essa postura era arriscada. “Mas, ao contrário do que estabelece o senso comum, a engenharia só avança quando rompe as normas”, afirma o engenheiro Yopanan Rebello, diretor técnico da Ycon, de São Paulo, estudioso da obra de Cardozo.

Rebello lembra uma máxima do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, prefeito de São Paulo entre 1971 e 1973, para quem os ditames cartesianos, rigorosos, davam conta “apenas dos abismos, esquecendo-se dos buracos corriqueiros”. Por isso, muitas vezes, é preciso desafiá-los.
Intuição –
Na cúpula invertida da Câmara dos Deputados, Cardozo criou uma rede de anéis de aço embutidos no concreto. Niemeyer se lembra da euforia do discreto parceiro, que lhe telefonou para dizer: “Encontrei a tangente que vai permitir que a cúpula pareça apenas pousada na laje”.

Até hoje não se sabe de que maneira Cardozo fazia os cálculos – a inexistência de arquivos é empecilho. “Ele intuía as estruturas e somente depois as calculava”, afirma Rebello. “Os atuais programas de computador, apesar de 100% precisos, parecem ter matado a intuição”. No caso de Cardozo, imaginação e engenharia andavam juntas. “As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias”, dizia. “Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia”.

O homem que calculava morreu triste e praticamente só (era solteiro, sem filhos) em 1978, aos 81 anos. Em fevereiro de 1971, uma obra desenhada por Niemeyer e calculada por ele, o Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, desabou, provocando a morte de 68 operários. Cardozo foi inicialmente condenado, em 1974, a dois anos e dez meses de prisão. Um recurso de apelação do jurista Evandro Lins e Silva o absolveu, mas já era tarde. Chorava muito, diariamente. Nos últimos anos de vida, deprimido, sumia no corpo magro. Um ano antes de morrer foi convidado por Niemeyer, generoso, a passar um tempo com ele no Rio. Hospedado num hotel em Copacabana, ia diariamente ao escritório do arquiteto para conversar. Mas já tinha perdido parte da lucidez, num processo que se acelerara. Joaquim Cardozo é o pilar mais injustiçado da história da construção de Brasília.

Transcrito da Revista Veja – Edição Especial “Brasília 50 anos”, novembro de 2009.



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