A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

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Tom Jobim e Vinicius de Moraes no Catetinho, em Brasília

O texto de Antônio Carlos Jobim

Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios. Horizonte: 360 graus. No fundo do “Catetinho” há um capão de árvores altas por onde passa um córrego de água boa e fria. Seguindo-se a água sai-se num campo onde fui muitas vezes escutar o pio das perdizes. Sillêncio nos campos claros, batidos de sol. De repente, de perto, como um grito, veio o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos. Aqueles dois pontos de som escondidos no capim se procuram, aproximam-se, encontram-se e cantam juntos. Uma nuvem passa e sua sombra corre pelos campos. O vento faz ondas nos penachos do capim: dourado, verde, dourado…

Neste ambiente foi composto “O Planalto Deserto”. A música começa com duas trompas em quinta, que evocam as “antigas solidões sem mágoa”, de que nos fala Vinicius de Moraes e a majestade dos campos sem arestas, que a milênios se aquietaram. O espírito do lugar prevalece. Duas flautas comentam liricamente as infinitas cores das auroras e poentes, sobre um fundo harmônico de cordas em tremolo. O mistério das coisas, anteriores ao homem, é exposto numa luz clara e transparente: “onde se ouviam nos campos gerais do fim do dia o grito da perdiz, a que respondia o pio melancólico do jaó”. Às vezes, à beira d’àgua, surge a trama vegetal dos galhos e lianas. O timbre da orquestra escurece. O infinito horizonte se enche das cores do crespúsculo e se escuta mais uma vez o tema do planalto. A segunda parte aborda o homem: seu espírito de conquista, sua violência, sua força, seus desejos e seus sofrimentos para atingir o altiplano. Enquanto escrevia a música dessa parte, tomou-se em meu espírito a seguinte imagem: uma carroça vai penosamente se arrastando serra acima. O homem instiga os animais. A marcha acelera-se e surge o canto, a que responde a natureza calma e isenta de desejos. Mas o homem quer as coisas. Seu braço forte, riscado de grossas veias, ergue-se e uma lâmina afiada corta os ramos desta natureza imparticipante. O picadão se aprofunda sertão adentro. O homem haveria de plantar sua cruz no planalto.

Na terceira parte, os modernos pioneiros retomam o trabalho dos velhos bandeirantes. O projeto da nova capital é planificado e torna-se necessário, para levar a efeito “a gigantesca tarefa”, convocar “todas as forças vivas da nação”. “A chegada dos candangos” conta da vinda desses homens de olhos puxados e zigomas salientes; homens que em toda a sua pobreza ainda encontram um jeito de rir e cantar. Homens sem os quais Brasília não existiria.

Segue-se a quarta parte: “O Trabalho e a Construção”. Evitamos a música concreta para caracterizar o trabalho (ruídos de serras, estacas, etc) porque isso nos pareceu óbvio. O trabalho é visto de uma maneira mais subjetiva. A música começa com um fugato que retrata o início da ação. A sorte está lançada. A inexorabilidade da ação é posta em evidência. O fugato desenvolve-se de maneira matemática. A tônica é o centro de tudo: as tonalidades satélites vão e vêm mostrando suas cores puras, mas tudo reverte à ofuscante tônica central. Há um plano de construção e este plano é rigorosamente respeitado. Por vezes, o trabalho cessa para dar lugar à contemplação da obra já feita e três trompas aparecem sugerindo a graça e a leveza líricas do Palácio da Alvorada diante da “grande planície ensimesmada”, de que nos fala Vinicius. Mas o trabalho tem de prosseguir. Surge um ritmo marcato nas vozes masculinas e no piano, aqui usado como instrumento de percussão. Depois os arcos tomam a si o mesmo motivo, e, às vezes, eventualmente, se lamentam, como a dizer que nenhum trabalho é feito sem sofrimento. Os instrumentinos e logo os metais retomam o marcato, a sugerir o sol no zênite reverberando nas superfícies brancas, ferindo os olhos dos homens que trabalham. Novos temas arquitetônicos aparecem, cortados por uma frase de inusitado lirismo: pois o trabalho é também amor e poesia. Volta uma vez mais o tema do Palácio da Alvorada e tudo se encaminha para um desfecho inevitável. As tonalidades satélites mostram novamente suas cores, mas a tônica domina tudo. Os fatos se precipitam e o trabalho e a poesia dão-se as mãos. Algumas celebrações, alguma grandiosidade, e o trabalho se conclui, de repente, numa frase triste enunciada pela voz humana. Os homens voltam para as suas casas na melancolia do poente. Um cantochão diz de suas solidões, de suas tristezas, de suas mulheres ausentes. As cordas tomam a si o cantochão enquanto o texto fala dessa saudade dos homens por suas mulheres. Surgem pela primeira vez na Sinfonia vozes femininas que contrapontam intuitivamente com as vozes masculinas. Depois, em bocca chiusa volta o cantochão nas vozes masculinas retomando o tema da solidão. Um acorde de orquestra transporta ao tom menor e vem a treva total. Surge, independente do homem, o tema do “Planalto Deserto”, da primeira parte.

Segue-se, na quinta parte, o coral final, comemorativo da realização. Vinicius usou além da palavra-sentido, a palavra-som, o que causa muitas vezes um efeito surpreendente. O Brasil aparece em toda a sua nostalgia e grandeza. Uma nova civilização se esboça. Herdeiro de todas as culturas, de todas as raças, tem um sabor todo próprio.

Antônio Carlos Jobim, Rio de Janeiro de 1961

O texto de Vinicius de Moraes

A idéia de escrevermos uma sinfonia celebrando Brasília não é nova. Em fevereiro de 1958, eu, acidentado em um hospital de Petrópolis, conversei pela primeira vez com Antônio Carlos Jobim sobre o assunto. Ainda no correr deste mesmo ano, alguns dos temas musicais aqui constantes já haviam sido compostos pelo jovem maestro.

Houve logo, é claro, quem falasse em “obra encomendada” e outras tolices do gênero, o que feriu certas suscetibilidades de Jobim. E a tarefa ficou postergada para dias mais inteligentes. Até que, de volta de meu posto, em Montevidéu, em junho de 1960, recebi uma telefonada de Brasília. Induzido por esse querido amigo que é Oscar Niemeyer, o presidente Kubistchek, também um velho amigo, convidava-nos para criar, com os técnicos da firma francesa Clemançon, especializada na matéria, um espetáculo “son et lumièrie” para a Praça dos Três Poderes, à maneira dos que são feitos nos principais castelos franceses e em vários outros monumentos do mundo, como a acrópole, as pirâmides e tantos mais para fins de atração turística.

Era a oportunidade. Brasília já deixara de ser um sonho para transformar-se em uma realidade de âmbito mundial. A cidade empreendida por Kubistchek e criada por Niemeyer sobre o Plano Piloto de Lúcio Costa, outro grande caro amigo, erguia suas brancas e puras empenas nas antigas solidões do planalto central de Goiás, em extensões apas¬centadas pela vetustez da terra e pela proximidade do infinito, numa paisagem de oxigênio, silêncio e saudade das origens. O lugar mais antigo da terra, como gosta de dizer Jobim, povoava-se rapidamente; e malgrado as pragas de um grupo de ressentidos, os que preferem governar o país nas proximidades das boates, a cidade crescia em um ritmo alegre de trabalho e confiança, com turmas a se revezarem de sol a sol. De nada valia o pio das aves de mau agouro da imprensa e de alhures, contra o ímpeto maravilhoso do trabalhador brasileiro, que acorreu de todos os cantos do país, sobretudo do norte para erguer aquelas estruturas adiante do tempo e para coabitar pacificamente em uma “Cidade Livre” levantada do dia para a noite com restos de mate¬rial de construção: uma autêntica cidade de “farwest”, só que sem os tiros e bandidos de cinema.

Esboçado o plano da obra, partimos para Brasília afim de estruturar temas e poemas em contato humano com a cidade. Hóspedes do “Catetinho”, hoje tombado como monumento histórico, olhávamos de nossa mesa de trabalho – a mesma em que o Presidente Kubstchek assinou os seus primeiros atos na capital – a silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza. De madrugada, enquanto víamos congelar-se no ar frio o jato ascensional do Boeing 707, escutávamos também o piar das perdizes e dos jaós, entre as surdas rajadas intermitentes do vento do altiplano. Havia em nós esta tristeza que nasce da beleza e palmilhávamos os capões de mato com a sensação do irremediável do tempo. Jobim, caçador experimentado e velho piador de pássaros, arremetia mais longe do que eu. Eu voltava, a partir do lindo olho d`água do pequeno bosque para os meus intermináveis passeios no alpendrado do “Catetinho”, onde ficava a pensar o texto da sinfonia e a esperar a comida simples e gostosa que nos dava a “patroa” de Luciano, o caseiro: o mais antigo funcionário de Brasília. Apraz-me dizer que nunca ouvi, ao longo das horas em que Antonio Carlos Jobim mergulhava no mato, um só tiro perturbar o silêncio das velhas planuras. É minha impressão que o músico perdeu a coragem de chumbar seus coleguinhas alados, mesmo quando constituíam ótimo comestível, como é o caso das perdizes.

Dez dias ficamos assim no “Catetinho”, neste “dolce far niente” de fazer uma sinfonia, com sentinela à porta, pois a princípio os numerosos turistas punham sempre o nariz na vidraça para constatar como íamos de trabalho. De vez em quando dávamos um pulo à cidade para ver os amigos Oscar Niemeyer, José (Juca) Ferreira de Castro Chaves, João Milton Prates, os bravos pioneiros de Brasília, os homens que, com o Presidente Kubistchek, primeiro puseram os pés no planalto. João Milton Prates, herói da FAB, antigo piloto e amigo de JK, grande e bom amigo nosso, esse vinha sempre nos ver, com vitualhas e licores, e tomava pela obra em progresso um interesse quase criador. Um dia exibiu-nos, de sua carteira, a histórica promissória de quinhentos contos, firmada por ele e Niemeyer, com a qual puderam erguer em dez dias o incomparável “Catetinho”. Ao grande Presidente e a todos esses homens, que não têm frio nos olhos, mas cujos olhos se umedeceram ao ouvirem pela primeira vez ao piano os temas iniciais da “Sinfonia da Alvorada”, a nossa comovida gratidão, não só pela confiança que tiveram em nós, como pelo exemplo que nos deram de ânimo, modéstia e espírito de luta.

Falei em piano. É fato. João Milton Prates providenciou-nos o piano, que veio de Goiânia. Ajudados por Luciano e três capangas candangos, nós o subimos a braço para o “Catetinho”, com mais medo de que seus degraus cedessem ao peso do que de um infarte do miocárdio. Naturalmente, pois o “Catetinho” é hoje um monumento histórico, e a estátua do fundador de Brasília parecia apreensiva, sobre o seu pedestal no terreiro em frente, com os restos de nossa operação.

Temos um último e mais íntimo agradecimento a fazer: da parte de Antônio Carlos Jobim a Thereza Hermanny Jobim, sua mulher, e Celso Frota Pessoa, um padrasto que é mais que um pai e que deu mão forte a um jovem estudante de arquitetura cuja verdadeira vocação era a música; de minha parte, à minha mulher Maria Lúcia Proença de Moraes. À “torcida” dos três, sem embargo de uma constante vigilância crítica, nos foi sempre do maior estímulo nesse empreendimento em que dois sentimentos são determinantes: amor pela obra e confiança no futuro de Brasília e do Brasil.

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro de 1961
Transcrito do livro “Catetinho – O Palácio de Tábuas”, ITS Instituto Terceiro Setor.

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