A mudança da capital

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

A mudança da capital para o planalto mexe com a História. Põe o Brasil em novas bases. Encerra o ciclo político do litoral com o seu passivo de imprevidência e vícios de administração.

No ambiente da cidade-samba muitos valores morais se destemperam. O Governo se consome em acomodar as relações adversas, resistindo a impactos. Alguns setores de oposição obstinada preocupam-se apenas com as ressonâncias da galeria. O Brasil gasta-se em palavras.

Lá em cima, no ventre geográfico do País, há a vantagem dos ares novos, com um clima de sanatório (climatologia política).

Abrem-se cenários grandiosos do chapadão.

Há ambiente para se modelar um Brasil de contornos fortes, em dimensões nacionais. Com esse empreendimento corajoso, pode-se esperar uma profunda transformação na fisionomia rural. Importante é tomar desde logo posição para um plano de ação direta, com a demarcação dos problemas mais urgentes. Fazer, por exemplo, em a nova capital, o encontro das grandes estradas, um centro de articulação das linhas interiores do país; amansar as torrentes fluviais com barragens; arrancar o hinterland do estágio semi-colonial, com a instalação de usinas e núcleos industriais; marcar a fronteira econômica com uma linha de chaminés. Dessa forma, se poderá certamente corrigir um pouco a crise da desagregação rural, detendo a população movediça que desemboca nas cidades.

Regiões de economia fraca não podem sustentar programas de recuperação de solos, depauperados com as queimadas, a erosão e as secas. O interior luta contra as comunicações absoletas. Desanimam as lavouras cansadas com a falta de irrigação e adubos. Triunfa a saúva, o caruncho, o coruquerê. Tomara que os nomes, invocados nos tempos heróicos para decisões em momentos propícios, guardem os destinos da nova capital, onde o Governo terá muito que trabalhar para endireitar o Brasil! Não há tempo a perder. Os problemas se emendam uns aos outros, em escala ascendente. Crescem os encargos do Estado.

Com a capital no meio do Brasil (centro de gravidade do país) estarão mais em contato com a realidade, longe do mexidinho litorâneo e das atmosferas do bacharelismo.

Poderíamos, com o desenvolvimento do centro administrativo do país para o interior, alcançar soluções estupendas: fazer a metrópole da vida mais barata do mundo.

Raul Bopp
Reproduzido da revista "Brasília", da Novacap, novembro de 1957, número 11.

 


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