A Marcha para o Oeste e Outras Marchas

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A Marcha para o Oeste e Outras Marchas
Por Cassiano Nunes

 
Ainda há pouco tempo, em discurso memorável no Senado, Darcy Ribeiro, com a autoridade que ninguém lhe nega, se perguntava por que o Brasil, possuindo reais privilégios, terra e povo admiráveis, foi um país que não deu certo. Há razões, no meu entender, para isto, e especialmente uma razão fundamental: no Brasil, o Governo nunca foi do povo nem para o povo. Aqui, o povo foi sempre cuspido, vomitado, expulso da terra. Dominado pelos donos da terra. Mas há uma outra razão que se relaciona com a que foi exposta: o povo brasileiro nunca chegou a tomar posse integral de seu vasto território. No segundo século da nossa História, já Frei Vicente do Salvador denunciava os portugueses por só quererem permanecer nas costas do País “como caranguejos…”

A História do Brasil é uma história no litoral. Toda ela realizada à beira d’água, transatlântica, com muitos estudantes…em Coimbra, com muitas farras em Paris. Na Belle Época, as famílias brasileiras importantes mantinham vivendas na Suíça, em Portugal, na França. D.Olívia Guedes Penteado, uma das patrocinadoras do modernismo, quando começava a gostar do que via nas vitrinas da Mappin Stores ou da Casa Alemã, em São Paulo, refletia preocupada: “Estou precisando ir logo para Paris”. Qual o grupo de intelectuais brasileiros mais influentes, mais espirituosos? É o que chamo “o grupo de Ipanema…” Perguntei a um de seus componentes o que achava de uma “marcha para o Oeste”. Perturbado, respondeu-me com uma piada… A audiência riu e eu ainda passei por bobo. Na Segunda Grande Guerra, Carlos Drummond, num poema famoso, já denunciava a alienação dos “inocentes do Leblon”.
Mesmo em Brasília, a juventude é conformista e cosmopolita, ou ianquizada da pior maneira.

Há anos, numa revista de jovens da Capital Federal, “Há vagas”, defendi a idéia de uma “entrada” moderna nas nossas terras virgens… os jovens não conseguiram me entender, porque o seu espírito está longe…
Brasília possui 400 grupos de rock enquanto o japonês é o herói verdadeiro que faz florescer o cerrado… Os bandeirantes pararam no fim do Século XVIII. Forças republicanas trucidaram os jagunços de Canudos porque defendiam um Brasil autêntico do interior, do sertão. A FEB foi defender a democracia… na Itália. Monteiro Lobato defendeu um capitalismo brasileiro e acabou indo parar na cadeia. Em vez de nossas populações irem para o interior plantar milho e feijão, dá-se o inverso neste País que parece teatro do absurdo: são os camponeses que deixam suas terras e vão para as desmesuradas metrópoles, construir favelas, participar dos bandos de malfeitores e procurar o apoio dos bicheiros e traficantes de drogas.
A fundação de Brasília foi um marco importante na penetração do Brasil, mas foi feito à moda da casa: de modo majestoso, com a ostentação de pobres tolos que somos. Resultado: o Brasil verdadeiro se vingou. Desde a frontaria da Rodoviária, monumental e degradada, até a Torre, se estende uma legítima feira de Caruaru. A branca e aerodinâmica Brasília é invadida por gente encardida e raquítica, marcada dolorosamente pela doença da indigência, que veio de Jequié, de Cabrobó, de Canhotinho… Será preciso ainda defender a inversão do processo vigente? Mas, de qualquer maneira, o dinamismo histórico, a dialética, tem muita força. E, por esta razão, o interior do Brasil tem progredido apesar de tudo. Quer dizer, apesar do nosso bovarismo, da nossa inautenticidade, do nosso horror à verdade e à justiça social. A luta dos sem-terra comprova essa mutação histórica. E há mais: a construção de rodovias, o planejamento de ferrovias, a criação de comunidades, de cooperativas, de empresas, de instituições, de escolas. Apesar da crise terrível que nos afeta, sabemos que o interior do Brasil fervilha. Nem tudo é positivo, naturalmente.

Nossas populações indígenas, por exemplo, estão sendo dizimadas pela cupidez de patrícios desalmados.

Defendo um documentário cinematográfico honesto, verdadeiro, que reproduza a amarga esperança do povo brasileiro. Devemos registrar este momento culminante de nossa História. A nós, que durante décadas, louvamos o americano, compete agora o dever patriótico de conservar, para a História, o capítulo emocionante do presente: a epopéia do faroeste brasileiro que agora se desenrola.

Dois filmes brasileiros importantes já tocaram no assunto com sucesso: BYE, BYE BRASIL, de Carlos Diegues, e IRACEMA, de Jorge Bodanski. Os dois filmes de Vladimir Carvalho sobre Brasília, CONTERRANEOS VELHOS DE GUERRA e PAISAGEM NATURAL, são inegavelmente duas obras primas. Mas o registro de nossa marcha para o Oeste e outras marchas não estão sendo feitos. Vamos ver sempre o País ignaro, imprevidente, desmemorizado, perdulário? Hoje em dia, Rondônia, Roraima e Amapá deixaram de ser meros nomes geográficos. Palpitam, tem vida.

Glauber, o inesquecível vidente, previu certo: o sertão vai virar mar.

(…)

Brasília, projetada desde os primórdios da Pátria pelos melhores filhos dela – os de espírito mais penetrante e que, por conseguinte, pareciam videntes e profetas – surgiu justamente para dar consistência a um país geograficamente frouxo, descosturado, incompleto, fragmentado e também para vencer a alienação e a dinamização do interior. Brasília teve, por missão, dar, ao Brasil, o seu remate, as suas feições definitivas, em suma, o seu acabamento. Ainda hoje o Brasil é uma nação inacabada como a célebre sinfonia de Schubert. Deixamos de fazer o que os americanos fizeram com pleno sucesso: assumir a posse total do seu território. E mais que isto: ir do leste ao oeste – atingir o Pacífico. Ao contrário, o Brasil, passada a febre do bandeirismo, acocorou-se junto das costas, esperando as notícias influenciadoras que vinham da Europa, hoje substituída pelos Estados Unidos. A Marcha para o Oeste, realização criteriosa de Getúlio e João Alberto, foi logo dissolvida. O Projeto Rondon – cancelado. Nos Estados Unidos, foi importante o “American Dream”, o “Sonho Americano”. No Brasil, nunca houve o Sonho Brasileiro, uma ânsia de trabalho construtor, uma aspiração ampla, nacional. Limitamo-nos a sonhos individuais, medíocres, mesquinhos, alimentados pelo jogo do bicho e pelas raspadinhas… Nossas migrações marcham na direção contrária do progresso. Em vez do nosso caboclo se arraigar na sua terra, ou… terras novas, vem para as metrópoles mendigar ou, o que é pior, engrossar as hostes do banditismo.

Muito poeta, no sentido nobre etimológico da palavra (o que cria, o que faz) Kubitschek, a quem atribuem sangue cigano, deu o sinal da caminhada certa, racional, lógica. Contra a maledicência dos épicos do imobilismo, dos defensores da estagnação, o sonhador de Diamantina determinou a impetuosa arrancada e deixou evidente que as utopias deixam de ser utopias quando o homem decide criar, construir, dinamizar.

Realizada Brasília, de maneira majestosa e vitoriosa, desde os seus primórdios foi fácil notar que teve que enfrentar a frieza dos impotentes e a inveja dos paralíticos. A impressionante capital ainda não conquistou o assentimento da mentalidade costeira, transoceânica, alienada, que predomina no Brasil. Esses adversários do progresso não querem perceber que o Brasil é um país de costas voltadas para o seu interior. Aceitam – e defendem o subdesenvolvimento, ou antes o antidesenvolvimento.

Contudo, a Canaã bíblica, a “terra de leite e mel”, existe, e espera pacientemente que os brasileiros, entusiastas do “rock”, da Disneylândia e de tudo o que as multinacionais nos impigem, se apercebam dela. Ainda, há poucos dias, presenciei, maravilhado, o progresso, a riqueza, o desenvolvimento cultural, numa região do Brasil, que tem muito a nos oferecer!

Refiro-me a Mato Grosso do Sul, e, de maneira mais geral, ao Centro-Oeste. Com estes olhos que a terra há de comer, vi Dourados, cidade vital, bela, limpa, farta! Senti que esse triunfo do Centro-Oeste – ainda muito no seu começo, pois suas possibilidades, sua potencialidade, são enormes – tem muito a ver com a construção de Brasília.

O sentido de Brasília, que é o pioneirismo e o da afirmação da identidade do Brasil, precisa de ter uma divulgação no país inteiro, para o próprio bem do nosso povo. A salvação do Brasil está na colonização, na abertura de novas regiões para a produção, no aumento das lavouras e da criação das riquezas, e não nas lutas e cambalachos políticos, que não geram coisa nenhuma. A mesma esterilidade encontramos nos planos dos economistas, que terminam todos em fracasso, pois não resultam no aumento de bens para o povo. Que esperar de uma grande nação como a nossa que importa até arroz e o feijão? Dourados ri-se desses políticos e economistas e nos oferece fartamente gado, arroz, milho e soja. Lá fica a famosa fazenda Itamarati, a maior plantação de soja do mundo!

A epopéia de Brasília não feita das armas, foi criação dos candangos nordestinos ou mineiros que Vladimir Carvalho evocou nos filmes fabulosos “Brasília – a última utopia” e “Conterrâneos Velhos de Guerra”.

(…)

Transcrito de “Vinte Vezes Cassiano”
Thesaurus Editora/Livraria Presença. Brasília.1993

 


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