A esfinge do cerrado

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A esfinge do cerrado
Por Paulo José Cunha
 
        A cidade é de vidro e de luz, de régua e de compasso, mas sobretudo, de amplidão e espaço. Em Brasília o olhar nunca chega ao fim, e quando parece que chega, outro horizonte se abre, e depois dele mais outro, e assim a cidade de mil horizontes, em todos os sentidos, vai misteriosamente multiplicando seus espaços. Para onde se olha, a cidade não acaba. Marcada pelos horizontes sem fim, a cidade é um convite permanente à reflexão. Talvez por isso todo mundo é meio filósofo em Brasília, porque todo mundo é obrigado a parar de vez em quando, diante da ousadia dos traços do arquiteto, diante da ousadia do por do sol, diante da ousadia dos homens que um dia arrancaram da imaginação uma cidade que dormia no centro do Brasil profundo. Aqui, o que se conhece como modernidade, começou. Aqui, o Brasil entendeu que futuro é apenas o que ainda não foi tentado. Aqui, o espaço é uma interrogação permanente, testando os limites da liberdade e do sonho.
 
        Dizem que a cidade é fria. Dizem que a cidade é exata. Dizem que a cidade é burocrática. Dizem que a cidade é atrevida. Dizem que a cidade é monótona. Dizem que a cidade não tem alma. Dizem isso. E dizem mais. E vão continuar a dizer, porque Brasília é principalmente um enigma em permanente busca de tradução.  Vão continuar a dizer coisas de Brasília. E nunca conseguirão traduzi-la.  Brasília,  a esfinge plantada no meio do Planalto Central, foi criada para  provocar o espanto dos filósofos. Porque a cidade dos espaços, do vidro e da luz, da amplidão que o olhar não consegue abarcar, foi condenada em sua origem a ser eterna, e mesmo que um dia se transforme em ruínas, provavelmente serão as mais belas ruínas da história do homem. Ruínas de curvas e retas e horizontes, esfinge de concreto e aço propondo e repropondo um enigma que ninguém sabe qual é, embora saiba que existe. O que atordoa os críticos e os estudiosos é que daqui a alguns milênios, mesmo se ela tomar a forma das ruínas, permanecerá moderna. E assim, por dentro dos milênios, entre seus planos de vidro e de luz, a cidade feita de régua e compasso descobre, espantada, que guarda o mistério de uma esfinge, entre seus espaços infinitos, que os olhos não conseguem abarcar.

 


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