A cidade

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

"A cidade

Antes do tempo, esteve
submersa esta paisagem. Mar
era a atmosfera, e lentos
como peixes os pássaros. Chovia
sempre, e sempre a se derramar
a água formou rios. Sonolentos.
A terra, eterna, se deteve.
Mas ainda no tempo diluvia.
E uma cidade surge, feita
de nuvens, como as nuvens, no ar.
Uma cidade a se continuar -
e em si, diversas. Sem substância.
Para quem vê, à distância,
a cidade, perfeita
na sua construção, surgir
do nada, ainda enevoada;
parece o mar fugir.
E desde que se retirou
daqui, o mar, submersa, sob
as nuvens, e sobrevoada
apenas – ùmida, apesar
da luz – por pássaros sombrios,
jaz a paisagem. E à distância,
longe, onde o atirou
deus, o horizonte. Sempre soube
a terra, que em sua substância
havia altura, e eram frios
os céus incólumes. Pesar
dos pássaros, o azul. Tristeza
a solidão, e nostalgia
a vida. Com certeza
nesta paisagem (pois
submersa, o mar a protegia)
viveram seres sobrenaturais.
Porque foi mar. Depois
de tanto tempo, os litorais
ainda estão onde estiveram.
E é insular esta cidade.
Com ruas que se detiveram;
e nas casas, lugar
para a paisagem. Devagar
a erguemos, com capacidade
para conter o dia.
Surge a cidade, feita
de luz, onde se escondia.
E antes de ser, já é: perfeita".

Octávio Mora, poeta nascido no
Rio de Janeiro.
Antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.


Brasília "nascendo" na prancheta de Lúcio Costa. Arquivo Público do DF


Brasília "nascendo" na prancheta de Lúcio Costa. Arquivo Público do DF

 


Trackback do seu site.

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …