A cidade que surge

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A cidade que surge
Por Ivna de Morais Duvivier
 
A mais cerrada oposição a Brasília parte do “homem cômodo”, o que se acostumou a viver cercado de falsas garantias, o homem dos hábitos, ou melhor, o homem mecanizado.

Nossa absurda civilização leva insensivelmente a grande maioria a tomar essa posição de comodismo e inércia, pela inutilidade de tentativas em atingir um tipo de vida mais humano.

Aquele que vive na dependência da máquina, vai aos poucos abdicando da espontaneidade e improvisação e se subjugando ao seu sistema. Passa então a se definir em itens e tudo o que possa fazer estará previsto dentro de uma chave. O que foi definido no ‘Diálogo das Carmelitas’ como atributo de nobreza, esse gosto pela ação heróica aliada à necessidade de poesia, esse à vontade para viver ou morrer sem fazer caso da vida, – tudo isso foi substituído pelo medo, de atitudes, traições, doenças, viagens, da própria ciência, que sabe e não explica.

Só assim se pode compreender o motivo da resistência que muitos habitantes do Rio de Janeiro vem fazendo a Brasília. Combatem Brasília porque sabem que cedo ou tarde terão de se definir: recuando ou tomando parte ativa na cidade onde tudo é novo, onde resta muita coisa a fazer. E eles tem medo, não se sentem preparados para enfrentar uma nova forma de vida, onde todo o automatismo e toda a rotina construída a custa de conformismos, cairão sem lógica.

Essa rigidez diante do novo apenas revela uma incapacidade de adaptação que não deixa de ser uma forma de velhice, pois, diz muito bem John
Dewey, que a plasticidade é uma característica da juventude por indicar um potencial de renovação. Hoje, os exemplos de heroísmo e ação já não contaminam ninguém, são mesmo incompreensíveis. O individuo inibido desde a infância em suas manifestações de força criadora, vive apenas e constantemente em função de um desfecho, dentro de um clima de insegurança que nunca se dissipa, e quanto mais se fortalece com as conquistas da civilização e se cinge com as precisões do conforto, numa grande cidade, maior é o seu isolamento. Procura então se absorver no ritmo da máquina, pois a máquina veio preencher a lacuna deixada pela falta de fé, e por uma forma de embriagues atinge um momentâneo esquecimento.

As consequências dessa atitude perante a vida, vem porém se agravando e exigindo u’a mudança radical, uma orientação nova que venha proporcionar vida melhor aos nossos filhos. Que eles possam usar a sua liberdade – a liberdade que no conceito de Hegel é a capacidade de ditar leis a si próprio. A solução para esse problema, cuja causa, todos os que se dedicam ao estudo das ciências sociais não divergem em apontar, está na criação de uma cidade em que a vida comunal se torne possível e na qual o homem não se sinta isolado da natureza.

Lewis Munford compara a nossa situação à do “Aprendiz de Feiticeiro” e observa que a “dissolução dos vínculos humanos e a estrutura das grandes cidades de hoje, são fenômenos que mutuamente se condicionam”. Analisando a mutilação que sofre o habitante da moderna cidade no que tem de espontâneo e pessoal, diz: “Muitas vezes a espontaneidade toma a forma de atos criminosos e a faculdade criadora encontra sua principal descarga na destruição”. Assim surgiu a “juventude transviada” cuja causa está na rebeldia da geração nova contra a geração desumanizada que pouco a pouco a absorverá.

Giedion, estudando as bases de um moderno urbanismo que possibilite a volta à comunidade, também conclui: “Se desejamos que se restabeleça a medida humana, se é preciso que voltem a surgir relações espontâneas entre os habitantes, o que devemos fazer é reduzir novamente as compactas aglomerações das cidades. É preciso se restabelecer o direito inato do homem: a relação com a natureza”.

Walter Gropius também reconhece que “a enfermidade de nosso caótico ambiente atual, sua fealdade e desordem a miúdo dignos de lástima, são resultado de nosso fracasso na tarefa de colocar as necessidades humanas básicas acima dos requisitos econômicos e industriais… No nível inferior da sociedade o ser humano se degradou ao ser empregado como ferramenta industrial. Esta é a verdadeira causa de luta entre capital e trabalho e da deturpação das relações comunitárias. Enfrentamos agora a difícil tarefa de voltar a equilibrar a vida da comunidade e humanizar o impacto da máquina”.

Aos que combatem Brasília, peço que considerem: a cidade que surge, ao ser traçada, não obedeceu apenas às imposições econômicas, militares, políticas ou a ideais de grandeza; decorreu de um motivo muito mais profundo, foi exigida como solução para um grande problema: o problema humano. Essa a razão do interesse que vem despertando foram do país, pois, sendo o problema comum aos que vivem debaixo do mesmo impacto, esse empreendimento poderá ser o ponto de partida para novas realizações cuja finalidade seja a melhoria das condições de vida do homem contemporâneo.

E apesar de toda a força contrária, de toda a oposição do “homem cômodo”, a cidade cresce dia a dia, e isso porque, para a sua realização, houve feliz reunião de indivíduos dotados das qualidades raras e necessárias e vemos na história, que sempre em tais situações surgem obras imperecíveis, cujo maior beneficio recai nas gerações seguintes, o que acontecerá também no nosso caso.

“Nascer de novo”, diz o Evangelho. Se nada podemos fazer para ajudar Brasília, depositemos ao menos a nossa confiança nessa realização que será decisiva para o destino de um povo.

Artigo reproduzido da revista “Brasília”, da Novacap, edição de maio de 1959, número 29.

 


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