A CIDADE PROVISÓRIA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

 

Dinheiro não tinham, é certo, nem para comprar a lona de uma pequena barraca. Mas Deus haveria de prover a tudo. O chão de mato ralo foi ampliado às pressas, que a noite vinha caindo. E o pano de mescla armado à moda de um abrigo. Aí se instalaram para dormir. Para dormir e para viver a vida.
 
Na manhã seguinte, antes de sair à procura de trabalho, Benedito, com seu facão de mato, ampliou a limpeza em volta da barraca. O lugar era aprazível, suave encosta entre dois pequenos rios que mais tarde veio a saber se chamavam Riacho Fundo e Ribeirão Vicente Pires.
 
A barraca de mescla do caboclo foi a primeira "habitação" no local que a Novacap haveria de escolher, logo depois, para a instalação de uma cidade provisória onde se abrigariam os operários e se estabeleceriam o comércio de apoio, oficinas, pequenas indústrias. Três largas avenidas foram rasgadas e algumas ruas transversais abertas. As construções teriam que ser de madeira pois, inaugurada Brasília, a cidade provisória se extinguiria. Todos os que ali buscavam se estabelecer sabiam disso. A distribuição de lotes era feita pela Novacap através de documento claro e explícito a esse respeito. O ‘núcleo bandeirante’ ou ‘núcleo pioneiro’, como passou a ser conhecido aquele aglomerado de toscas construções, teria que desaparecer tão logo a capital  oferecesse condições para a instalação definitiva da população prevista no programa do seu desenvolvimento.
 
Na verdade ninguém, desses pioneiros, acreditava na demolição da Cidade Provisória. Que foi crescendo. No início, devagar. Depois, de forma acelerada. Em 15 de fevereiro de 1957 funcionavam já duas pequenas padarias, um açougue, dois modestos hotéis, um bar, duas lojas-armazéns. Era "o comércio" da nova Capital, cujo funcionamento se processava livre de qualquer alvará, sem pagamento de tributos e sem limitação de horário. Nasceu daí a denominação, que mais pegou, de "Cidade Livre".
 
À medida que as obras de construção da nova capital tomavam corpo e se definiam não como um sonho impossível mas como realidade que trazia em si mesma a semente do sucesso, as mais importantes firmas do país passaram a instalar na Cidade Livre sucursais, juntando-se às carpintarias, farmácias, pensões, agências bancárias, empresas de transporte, cinemas, lojas de roupas, mercearias e restaurantes que brotavam, como por milagre, da noite para o dia.
 
No começo de 1958 aquele núcleo pioneiro, que nascera com a barraca do caboclo Benedito e um ano antes se restringia a um incipiente "comércio" de sete ou oito ‘negócios’, lembrava bem uma cidade do faroeste americano dos tempos da corrida do ouro, "modernizada", com milhares de moradores fervilhando febrilmente, um comércio ativíssimo de todo gênero e que praticamente não fechava, centenas de caminhões, jipes e utilitários circulando por suas ruas poeirentas, de cujos postes pendiam estridentes alto-falantes jorrando música nordestina, anúncios, notícias do Brasil e do mundo e os últimos sucessos dos cantores populares.
 
Num dia quente de março daquele ano, Israel Pinheiro resolveu dar um giro por lá. Descendo do Catetinho pela estrada velha que ia sair na ponte do Riacho Fundo, limite oeste da Cidade Livre, atravessou o córrego. À direita notava-se o aterro da estrada de ferro, que se levantava. Na margem do riacho uma indústria de blocos de concreto. Logo adiante, à esquerda, numa posição dominante, o "Hotel Brasília", primeiro da nova capital. Seu proprietário o construíra ali certo de que estava na "entrada do alçapão" e apanharia todos que chegassem vindos de Anápolis, de Minas, de qualquer direção. Não contava que a pista de pouso definitiva ficasse pronta tão depressa e que os aviões concentrassem logo o transporte de quase totalidade dos visitantes que chegavam e que alcançavam a Cidade Provisória pela extremidade oposta, utilizando uma estrada especialmente aberta para isso, muito melhor que a antiga. Por outro lado, a rodovia nova de Anápolis fora jogada mais para leste, passando pelo outro lado da cidade, bem distante do "Hotel Brasília" que ficou, assim, perdido, isolado na velha ponte. E outros hotéis surgiram, mais centrais e melhores. O ‘copacabana pálace’ era o "Santos Dumont", de três pavimentos, que custou à época uma pequena fortuna. O jipe parou diante desse hotel e Israel Pinheiro entrou no seu restaurante. Sentadas no saguão, viu algumas senhoras imaculadamente limpas. Não estranhem a observação, pois durante os anos de construção de Brasília uma poeira fina, sépia, cobria permanentemente tudo, entrava pelas narinas das pessoas, ressecava a pele do rosto, crestava os lábios, sujava todas as roupas, invadia todas as casas. Não era a poeira da inércia, da falta de vassoura e de cuidados. Ao contrário, era o pó resultante do excesso de máquinas e do trabalho diuturno de centenas de caminhões. Quem não fosse operário de obra usava banhar-se e trocar de camisa até três vezes ao dia. A poeira tornou-se, inclusive, objeto de curioso comércio: enchiam-se com ela miniaturas de garrafas de vidro, apunham-se lhe rótulos coloridos onde se lia "Souvenir: Poeira de Brasília" e vendiam-se as garrafinhas aos milhares. Certamente a poeira de Brasília estará hoje guardada por colecionadores nos quatro cantos do mundo.
 
O restaurante do "Hotel Santos Dumont", muito bem montado, acolhia em suas mesas, naquela tarde de soalheira, senhores bem postos e bem barbeados, vestindo camisa esporte branca, a desfrutar da sombra acolhedora do salão. Falavam de negócios. Na verdade, em todos os lugares da cidade o clima era de trabalho e uma única preocupação dominava todas as consciências: o andamento das obras da nova capital, que se alteavam em aço e concreto na paisagem do planalto. Mesmo ali, na tranqüilidade do salão povoado de música em surdina, oásis de sombra e recolhimento na tarde quente, onde ninguém falava alto nem se excedia em gestos e reclamações, a conversa era só de negócios. Ocorreu a Israel Pinheiro de repente que aqueles cavalheiros pareciam estar apenas aguardando que o sol abrandasse para se alçarem às corcovas oscilantes dos camelos, no giro vespertino de inspeção… O calor da tarde, as roupas claras dos homens, sua postura "britânica", provavelmente foram os responsáveis por aquele despropositado pensamento, que logo se desfez ante a realidade do pequeno jornaleiro apregoando, na janela, jornais do Rio. Era a notícia que chegava ali, na terra onde só se trabalhava.
 
Saindo do "Hotel Santos Dumont", Israel de novo se viu na avenida central, três quilômetros de casas de madeira, comércio na frente, moradia nos fundos. Em filas duplas de cada lado da avenida, centenas de caminhões, de aluguel e particulares. Ao longo de toda a avenida de 40 metros de largura, milhares de pessoas se agitavam, se moviam. Na maioria eram homens, poucas mulheres. Todos vestidos com os trajes simples de brim que caracterizavam o candango, construtor de Brasília. Se alguém aparecia com roupa melhor, logo se sabia que era um novato. O candango, queimado do sol, transpirando saúde e força, molhado de suor e tisnado de poeira, não parava e estava sempre alegre. Curioso é que havia poucos negros, pouquíssimos. O negro não é mesmo aventureiro.
 
Todo mundo trabalhava. Das seis e meia da manhã às dez da noite, inclusive aos domingos, feriados e dias santificados. Em algumas circunstâncias muitos trabalhavam a noite toda. Quase não chegavam, as 24 horas do dia, para tudo que tinha que ser feito. Ler despreocupadamente um jornal, ouvir rádio, era praticamente impossível, não sobrava tempo. As notícias chegavam através do serviço de alto-falantes "Voz de Brasília", ‘emissora oficial’, por assim dizer, do Núcleo Bandeirante, na nova capital. E que deu origem ao semanário "A Hora de Brasília", primeiro jornal da cidade.
 
O jipe alcançou o setor em que os Bancos haviam se agrupado. Eram já cinco agências. Todas cheíssimas. O Banco de Crédito Real de Minas Gerais ostentava na fachada, orgulhosamente, sua tabuleta: "Primeira Agência Bancária da Nova Capital". E havia ainda o Banco do Brasil, o Banco da Lavoura de Minas Gerais, o Banco Real Brasileiro e o Banco Nacional de Minas Gerais. Com um movimento colossal de depósitos, cobranças e empréstimos. Na realidade em apenas um ano a Cidade Livre se transformara na mais forte praça bancária de Goiás.
 
A Cidade Provisória nascera de um impasse. Ao iniciar os trabalhos no Planalto, construindo seus acampamentos em novembro de 1956, defrontou-se a Novacap com um sério problema: montar e explorar ela própria grandes armazéns sortidos de tudo, onde pudessem se abastecer os empreiteiros de obras e os candangos que vinham chegando aos milhares, ou deixar à iniciativa particular a tarefa de criar o comércio de apoio à nova capital. Foi preferida a segunda alternativa. E a afluência de comerciantes, de hoteleiros e pequenos industriais, alcançou tal volume que em maio de 1957, quatro meses após a entrega dos primeiros lotes no local, já a Novacap proibia novas construções, deixando de atender a 1.200 requerimentos de pessoas e firmas que ainda queriam lá se estabelecer.
 
Deixando para trás o setor de Bancos o jipe alcançou a ‘rodoviária’. Dezenas de ônibus chegavam e partiam a todo momento, ligando Brasília não apenas às localidades vizinhas mas aos pontos mais distantes do país. Era um formigueiro humano. E havia também os ônibus ‘circulares’, que percorriam constantemente as três longas avenidas da Cidade Livre, movimentadíssimas e ocupadas, em toda sua extensão, por casas comerciais, churrascarias, agências de Companhias de Aviação, postos dos vários institutos de Previdência, etc. Alguns ônibus faziam a linha do Aeroporto, indo e vindo.
 
Israel retornou pela Terceira Avenida, onde a agitação era um pouco menor. Estava impressionado com o que vira e revigorado em sua fé no êxito da colossal tarefa. À direita avistou a igreja de D. Bosco, padroeiro da Cidade Livre. Ao lado da fabulosa ação material que ali no Núcleo se desenvolvia, caminhava em paralelo a ação espiritual. No início Brasília subordinava-se, canonicamente, à Arquidiocese de Goiânia. O primeiro sacerdote a chegar para o trabalho pastoral fora Pe. Primo Scussolino, nascido na Itália, da congregação Estigmatina. Era vigário, então, de Luziânia, já encanecido no santo ministério, grandes olhos azuis numa face marcada mas sempre sorridente, a batina surrada e cheia de poeira. Levava sua palavra de alento e de estímulo a todos os candangos, levantando n cidade dos homens a cidade de Deus. Em sua vida de pobreza e de bondade, alegrava-se com as realizações daqueles rudes obreiros, invasores das paragens tranqüilas do vasto sertão, casa sua. Não viveu para ver a cidade pronta. Dois anos após iniciada a luta, Pe. Primo morreu.
 
Quando o trabalho pastoral cresceu acima de suas forças, Pe. Primo pediu ao Arcebispo que mandasse mais gente. E vieram os Salesianos. Ficaram com a Paróquia do Núcleo Bandeirante, entregue a um capixaba destemido e trabalhador, Pe. Roque (Roque Vagliati Baptista). Incumbiu-se Padre Primo da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, localizada no Plano Piloto.
 
Aquela pequena igreja de madeira, por cuja frente o jipe passava agora, fora construída com a ajuda da Novacap. Mas a energia e a determinação de Pe. Roque é que realmente a levantaram. Era ele um sacerdote talhado para levar a palavra de Deus àquela cidade que nascia às pressas. Muitas vezes foi o carpinteiro, o pedreiro, o pintor da igreja paroquial. Ele foi tudo. Até mesmo, no devido tempo, o organista das missas dominicais. Logo os candangos se entusiasmaram com o novo Padre. Gostavam do seu jeito descontraído e simples, dos seus sermões na linguagem deles, fácil de entender. E da sua disposição para o trabalho, com qualquer tempo, a qualquer hora. Enquanto construía sua igreja Pe. Roque dizia suas missas no cinema… Aos domingos, pela manhã, ocupava o grande galpão e celebrava três missas, em horários espaçados. Depois que a igreja ficou pronta, Pe. Roque fundou ao lado uma Escola Paroquial, a que deu o nome de Nossa Senhora de Fátima.
 
Também os protestantes construíram seus templos na Cidade Livre, em número de quatro, grandes e relativamente suntuosos.
 
Antes de encerrar seu giro, Israel pôde ver os Grupos Escolares repletos, o Colégio D. Bosco, dos salesianos, que funcionava em dois turnos, com o 1º e 2º ciclos, e o Ginásio Fundação Brasília, também em pleno funcionamento.
 
Interessante é que embora a Novacap desestimulasse a vinda das famílias dos operários, em razão da precariedade das acomodações em que viviam, no Natal de 1957 Dona Coracy, mulher de Israel, ao distribuir brinquedos às crianças pobres com menos de 12 anos, numa iniciativa das Pioneiras Sociais, que ela presidia em Brasília, atendeu a 1.680 crianças.
 
À noite a Cidade Livre assumia o aspecto dos grandes centros. Não havia iluminação pública, é verdade, mas todos possuíam seus geradores próprios e as casas se iluminavam, luzindo na noite escura as cores vivas do néon de seus letreiros.
 
Juscelino visitou a Cidade Provisória pela primeira vez no dia 4 de abril de 1957 e pôde constatar que ali nascia e se formava um poderoso núcleo de apoio às obras da nova capital, que apenas começavam.
 
Em dezembro de 1957, no dia 14, Brasília e a Cidade Livre enfrentaram uma tempestade arrasadora, a primeira assim desde que se iniciara a construção da nova capital. Tudo começou no final da tarde, por volta da cinco horas. Duas cortinas d’água, pesadas, escuras, cortadas de relâmpagos e precedidas de trovões e vento forte, caminhando de pontos opostos do horizonte, encontraram-se exatamente sobre a região de Brasília. O céu escureceu de repente e um dilúvio, como nunca se vira antes, desabou. Durante duas horas foi o fim do mundo. Quando tudo finalmente serenou, os danos, aos poucos, puderam ser levantados. Todo o serviço parara. As águas do Vicente Pires cobriam a ponte que ligava a Cidade Livre ao Plano Piloto; as estradas tornaram-se intransitáveis, plenos lamaçais; imobilizaram-se todas as máquinas e caminhões; as escavações para os alicerces e garagens dos edifícios viraram lagoas profundas; rodou a barragem do Ipê, afluente do Riacho Fundo; e foi destruído o Castelo d’água da Usina Piloto de Saia Velha, que se construía para fornecer energia elétrica ao Catetinho, ao Aeroporto e às instalações da Novacap – escritórios, oficinas, serraria, olaria, residências.
 
O temporal deixou a advertência de que um novo obstáculo devia se superado na corrida contra o tempo: a estação das chuvas, que no Planalto começa em outubro, atinge sua maior intensidade nos meses de dezembro e janeiro e se prolonga até março. Seis meses durante os quais os trabalhos de construção perdem seu ritmo, retardam seu andamento, as olarias diminuem de produção, tirar areia dos rios fica difícil, o transporte de materiais se delonga, os resultados não condizem com a luta para alcançá-los.
 
A tempestade de dezembro passara. Outra maior desabaria algum tempo depois: a dos  moradores do Núcleo Bandeirante quando a hora chegou de demolir sua  cidade, conforme estava previsto e eles sabiam.
 
Mas esta é outra história. Que mais adiante haveremos de contar.
 
Por L. Fernando Tamanini, a partir de anotações de Israel Pinheiro.
"Brasília: Memória da Construção"

 


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